A comunhão exterior permaneceu apenas uma possibilidade teórica em
Schwenckfeld, enquanto a observância interior recebeu ênfase predominante, estendendo-se ilimitada no tempo e no espaço, abrangendo inclusive os patriarcas do
Antigo Testamento, os discípulos, Marta, a mulher samaritana, o cego de João 9 e todos os que tinham fé em Cristo.
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Os seguidores eram ensinados a participar de Cristo espiritualmente “todo dia, toda hora, sim todo momento”
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A comunhão interna é descrita como ocorrendo “sem interrupção”
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A natureza da comunhão espiritual do crente foi objeto de comentário frequente, porém impreciso, por parte de
Schwenckfeld, que a descrevia ora como fé em Cristo, ora como conhecimento dele, ora como a atividade interior de Cristo no coração, recorrendo sobretudo à fórmula de
Agostinho para expressar essa comunhão mística.
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Agostinho — Padre da Igreja mais citado por
Schwenckfeld na doutrina eucarística; fórmula invocada: Qui credit in eum manducat eum — “Quem nele crê, o come”
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Definição schwenckfeldiana de comunhão espiritual como fé: “Comer significa… participar da essência [Wesen] de Cristo pela verdadeira fé. O alimento corporal é transformado em nossa natureza, mas o alimento espiritual nos transforma em si mesmo, isto é, na natureza divina, de modo que nos tornamos participantes dela — 2 Pedro 1”
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A fé ascende ao céu na comunhão espiritual: “A verdadeira fé se eleva além de si mesma e de tudo o que é humano, terreno e visível até à destra de Deus no ser celestial onde Cristo está… que distribui a todas as almas que creem em Cristo os tesouros celestiais; onde ele as alimenta e nutre de sua propriedade”
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Calvino — cujo conceito de ascensão da fé na comunhão eucarística foi comparado ao de
Schwenckfeld
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Os sinais práticos da comunhão espiritual eram para
Schwenckfeld experiências subjetivas de doçura divina, consolo, alegria, amor, graça e misericórdia em Cristo, bem como um antegozo da vida eterna, de tal modo que a Eucaristia interior schwenckfeldiana se apresenta como um conceito tão ampliado e subjetivizado que pareceria ter se deteriorado em mera tropologia, embora a comunhão espiritual como fé pertença ao núcleo do sistema.
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“Cada vez que um homem sente doçura divina em Cristo, consolo, alegria, amor, graça e misericórdia; cada vez que tem um antegozo da vida eterna, celebra com o Senhor sua Ceia”
Batismo
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A doutrina schwenckfeldiana do batismo segue padrão paralelo ao da Ceia do Senhor, tendo
Schwenckfeld inicialmente não questionado o pedobatismo nem o batismo como meio de graça, mas posteriormente voltando-se contra ambos por força da ignorância popular sobre o sacramento, com crescente vacilação ao longo de seu desenvolvimento teológico.
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As pressuposições do sistema schwenckfeldiano geravam uma tensão interna quanto ao batismo: por um lado, a insistência de que o sacramento externo não deveria ocorrer sem o interno justificava a preocupação com o batismo infantil; por outro, como a graça não podia ser transmitida por meios externos, era de se esperar que
Schwenckfeld não se ocupasse excessivamente do rito batismal físico, e foi exatamente uma vacilação entre esses polos que marcou seu desenvolvimento teológico.
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A doutrina schwenckfeldiana do batismo reproduz estruturalmente a da Ceia, distinguindo duas águas e duas lavagens — a externa e a interna —, sendo o erro anabatista tratar a lavagem física como mera cerimônia exterior e o erro luterano vincular o mistério e a promessa do sacramento à água.
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“Em resumo, o batismo interior do Espírito Santo conforta, fortalece e assegura a alma crente ou o homem interior. O batismo exterior do homem ou ministro, porém, conforta, fortalece e assegura a carne crente ou o homem exterior, de modo que o homem todo é confortado, assegurado e abençoado. A garantia externa, porém, requer a prioridade da interna”
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“Quanto ao batismo, sustento que o ministro, no curso da graça, batiza com água, mas Jesus Cristo batiza com o Espírito Santo”
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O ideal é a coincidência das duas lavagens: “Se agora esses dois [a Palavra e a água] se unem sacramentalmente numa transação divina… então todo o sacramento e mistério é cumprido e bem aplicado, sendo o homem novo todo — para quem unicamente os sacramentos são instituídos — purificado interior e exteriormente”
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A lavagem interior possui a verdadeira significação na teologia de
Schwenckfeld, e o conceito de ablução interna é muito menos frequente que o de comunhão espiritual na Ceia, sendo na prática substituído por uma ênfase paralela na regeneração espiritual, no renascimento e na origem do homem novo pela habitação interior de Cristo.
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Ablução interna — purificação espiritual da alma, paralela à comunhão interior na Ceia
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A ênfase na regeneração, no renascimento e no homem novo pela habitação de Cristo supera e substitui funcionalmente a doutrina do batismo interior no sistema schwenckfeldiano