Esta palavra, no lugar onde se encontra, oferece três sentidos distintos: um próprio, outro figurado, o terceiro hieroglífico. Moisés empregou os três, como se prova pela sequência de sua obra. Seguiu nisso o método dos sacerdotes egípcios; pois devo dizer antes de tudo que esses sacerdotes tinham três maneiras de exprimir seu pensamento. A primeira era clara e simples, a segunda simbólica e figurada, a terceira sagrada ou hieroglífica. Serviam-se, para isso, de três espécies de caracteres, mas não de três dialetos, como se poderia pensar. A mesma palavra tomava, conforme sua vontade, o sentido próprio, figurado ou hieroglífico. Tal era o gênio de sua língua. Heráclito exprimiu perfeitamente a diferença desses três estilos, designando-os pelas epítetes de falante, significante e ocultante. As duas primeiras maneiras, isto é, aquelas que consistiam em tomar as palavras em seu sentido próprio ou figurado, eram oratórias; mas a terceira, que só podia receber sua forma hieroglífica por meio dos caracteres de que as palavras se compunham, existia apenas para os olhos e só se empregava por escrito. Nossas línguas modernas são inteiramente incapazes de a exprimir. Moisés, iniciado em todos os mistérios do sacerdócio egípcio, serviu-se com Arte infinita dessas três maneiras. Sua frase está quase sempre constituída de modo a apresentar três sentidos: é por isso que nenhuma espécie de tradução literal pode exprimir seu pensamento. Apliquei-me, tanto quanto possível, a exprimir juntos o sentido próprio e o figurado. Quanto ao sentido hieroglífico, teria sido muitas vezes perigoso demais expô-lo; mas nada negligenciei para fornecer os meios de alcançá-lo, estabelecendo os princípios e dando exemplos.
A palavra Beraeshit, de que aqui se trata, é um nome modificativo formado do substantivo Raesh, a cabeça, o chefe, o Princípio agente… Significa propriamente no princípio, antes de tudo; mas, no sentido figurado, quer dizer em princípio, em potência de ser.
Eis como se pode chegar ao sentido hieroglífico. O que direi servirá de exemplo para o que segue. A palavra Raesh, sobre a qual se eleva o modificativo Beraeshit, significa de fato a cabeça; mas apenas num sentido restrito e particular. Num sentido mais amplo e genérico, significa o princípio. Ora, o que é um princípio? Direi de que modo o conceberam os primeiros autores da palavra Raesh. Conceberam uma espécie de potência absoluta, por meio da qual todo ser relativo é constituído como tal; e exprimiram suas ideias pelo sinal potencial A e o sinal relativo SH reunidos. Em escrita hieroglífica, era um ponto no meio de um círculo. O ponto central desdobrando a circunferência era a imagem de todo princípio. A escrita literal representava o ponto por A e o círculo por S ou SH. A letra S representava o círculo sensível, a letra SH o círculo inteligível, que se pintava alado ou cercado de chamas.
Um princípio assim concebido era, num sentido universal, aplicável a todas as coisas, tanto físicas quanto metafísicas; mas num sentido mais restrito, aplicava-se ao fogo elementar; e conforme a palavra radical Ash era tomada em sentido próprio ou figurado, significava o fogo sensível ou inteligível, o da matéria ou o do espírito.
Tomando-se depois essa mesma palavra Ash, cuja origem acabo de explicar, fazia-se com que fosse regida pelo sinal do movimento próprio e determinante R, e obtinha-se o composto Raesh, isto é, em linguagem hieroglífica, todo princípio dotado de um movimento próprio e determinante, de uma força inata, boa ou má. Essa letra R representava-se na escrita sagrada pela imagem de uma serpente, erguida ou atravessando o círculo pelo centro. Na linguagem ordinária, via-se na palavra Raesh um chefe, um guia, a cabeça de tal ser, de tal coisa que fosse; na linguagem figurada, entendia-se um primeiro motor, um sinal agente, um gênio bom ou mau, uma vontade reta ou perversa, um demônio, etc.; na linguagem hieroglífica, designava-se o Princípio principiante universal, cujo conhecimento não era permitido divulgar.
Eis as três significações da palavra Raesh, que serve de base ao modificativo Beraeshit. (…)
Aliás, eis como, para não omitir nada neste primeiro artigo, as quatro versões originais traduzem essa palavra importante. A versão samaritana diz: em substancialidade, em elementação, em começo. O targum caldaico traz: no ponto culminante das assimilações universais; na anterioridade dos tempos. Os helenistas traduzem: en arche, e os latinos: in principio.
A palavra Chochab, traduzida vulgarmente por estrela, compõe-se da raiz Ghoh, que se refere a toda ideia de forças e virtudes, tanto físicas quanto morais, e da razão misteriosa Acb, que desenvolve a ideia da fecundação do Universo. Assim, segundo o sentido figurado e hieroglífico, a palavra Chochab não significa apenas estrela, mas a força virtual e fecundante do universo. Pode-se ver aí o germe de muitas ideias antigas, tanto relativamente à ciência astrológica, de que se sabe os egípcios faziam grande caso, quanto à ciência hermética.
O nome dado a Adam não significa apenas homo, um homem, caracteriza… o que entendemos por Gênero humano; e o que exprimiríamos muito melhor dizendo o Reino hominal: é o homem coletivo, o Homem formado abstratamente pelo conjunto de todos os homens.
No sentido figurado… a raiz DM traz consigo toda ideia de assimilação, de similitude, de homogeneidade. Governada pelo sinal da estabilidade A, torna-se a imagem de uma assimilação imortal, de uma agregação de partes homogêneas e indestrutíveis. Tal é a etimologia de Adam em seu sentido figurado. (…)
A raiz hieroglífica do nome Adam é AD, que, composta do sinal da potência unitária, principiante, e do sinal da divisibilidade, oferece a imagem de uma unidade relativa, tal como se poderia exprimir, por exemplo, pelo número simples embora composto 10. Essa raiz, revestida do sinal coletivo M, toma um desenvolvimento ilimitado; isto é, o número simbólico 10 sendo tomado para representar a raiz AD, o sinal M desenvolverá ao infinito sua potência progressiva, como 10 : 100 : 1.000 : 10.000, etc.