AMADOU (LHREG) – FABRE D’OLIVET, A LÍNGUA HEBRAICA RESTITUÍDA

LHREG

- A Língua Hebraica Restituída, e o Verdadeiro Sentido das Palavras Hebraicas Restabelecido e Comprovado por sua Análise Radical*. Obra na qual se encontram reunidos:

1° Uma dissertação introdutória sobre a origem da *Palavra*, o estudo das línguas que a ela podem conduzir e o objetivo que o Autor se propôs; 2° Uma gramática hebraica, fundada sobre novos princípios e tornada útil ao estudo das línguas em geral; 3° Uma série de raízes hebraicas, consideradas sob novas relações e destinadas a facilitar a inteligência da linguagem e da ciência etimológica; 4° Um *Discurso Preliminar*; 5° Uma tradução em francês dos dez primeiros capítulos do *Sépher*, contendo a *Cosmogonia de Moisés*. Esta tradução, destinada a servir de prova aos princípios estabelecidos na gramática e no dicionário, é precedida de uma versão literal em francês e inglês, feita sobre o texto hebraico apresentado em original com uma transcrição em caracteres modernos, e acompanhada de notas gramaticais e críticas, nas quais a interpretação dada a cada palavra é comprovada por sua análise radical e sua confrontação com o termo análogo samaritano, caldeu, siríaco, árabe ou grego. Por Fabre d’Olivet.

Fabre gostava de explicar e comentar suas explicações e comentários. Mas eis que aqui o subtítulo faz o mesmo? A nota está feita.

De 1805 a 1811, o livro ocupa Fabre, que, até exausto, lhe sacrifica, em 1810, sem nostalgia, um posto de burocrata. O manuscrito autógrafo é conservado na biblioteca da *Société de l’Histoire du Protestantisme Français*.

- A “Língua Hebraica Restituída” — por quê e como?* []

Para traçar a história do universo — que se tornará uma epopeia em prosa, com referências um tanto obsessivas —, Fabre se interroga sobre a origem do homem, e esta supõe elucidada a origem da *palavra*. Ao *filosofismo* sobre esta última instância, que apaixonou o século XVIII, responde Antoine Court de Gébelin, esse *eluhim coën* desconhecido. Fabre deve ao autor de *Le Monde Primitif* (1773-1782) [] a iniciativa de estudar, em seu próprio ponto de partida, as *línguas* mais que o *linguagem*; sua fé na origem divina da palavra iluminará assim uma atitude científica que acabará por demonstrá-la.

Três línguas podem contribuir para reconstituir a língua primitiva: o chinês, o sânscrito e o hebraico; cada uma tem seu *livro-mestre*: respectivamente, o *Yi-King*, os *Vedas*, o *Sépher Béraeshit* (ou simplesmente *Sépher*). Fabre escolhe prioritariamente o hebraico — que estudara no fim do Diretório — porque, no campo do saber infinito, o homem só dispõe de uma vida breve, e seus princípios gerais correspondem melhor à solução buscada.

Sobre a língua hebraica, portanto, exercer-se-á o método que Cellier chama, com graça, de *“alquimia literal”*. Os *sinais* — original seria o *sinal*, e original a intuição que Fabre dele tem — devem ser considerados sob o aspecto das *ideias primitivas* que exprimem e pelas quais se tornam *sinais representativos* dessas mesmas ideias. Esse é o progresso de Fabre sobre Court: o *sinal* não é mais apenas uma *pintura simbólica*, mas a *expressão de uma ideia*. (Porém, para exprimir a ideia, é preciso eleger, na natureza elementar, objetos materiais que o homem *espiritualiza*, por assim dizer, transferindo-os, por meio da *metáfora* e do *hieróglifo*, de uma região a outra.) O sinal manifestado exteriormente torna-se o *nome*; o nome caracterizado pelo *tipo figurado* torna-se o *sinal*. Nem a palavra escrita nem a pronunciada são arbitrárias. Remontar às origens da linguagem, da *Palavra*, é meditar sobre o sinal: voz, gesto e, preferencialmente, *caracteres sagrados*.

Passemos ao *Gênesis*, ao *Sépher*. Apesar de o livro passar por *inspirado*, repele a inteligência. Uma razão basta: a tradução é falsa; e, se todas as traduções do *Gênesis* são falsas, é porque a língua hebraica está *perdida* e, consequentemente, nenhum intérprete tem como escapar do erro. Programa: *restituir a língua hebraica*.

Dados concretos estabelecem o quadro da *criptografia*. Eles se encadeiam:

- Moisés é o autor do *Sépher*;

- Moisés foi iniciado nos mistérios do Egito;

- O hebraico é o idioma puro dos antigos egípcios;

- A língua hebraica foi esquecida na Babilônia, e todas as traduções reputadas do hebraico reproduzem, na verdade, a versão dos *helenistas* (ou seja, o hebraico, composto originalmente de expressões intelectuais, metafísicas e universais, tornou-se insensivelmente de natureza grosseira, porque essa língua foi restrita a expressões materiais, literais e particulares, das quais a *Septuaginta* se contenta, no fim das contas);

- Moisés, em sua previsão, confiara, porém, oralmente o *segredo* da língua hebraica, que não teria chegado, como se crê vulgarmente, aos *cabalistas*, mas aos *essênios*. Ora, esse segredo, Fabre o teria *violado* por seu gênio.

A *análise semiótica* do escrito, do *Sépher*, pode então começar — e Fabre a levará a bom termo, tarefa gigantesca para um autodidata; ao menos assegura-se de que o conjunto concluído revela, de fato, a *revelação* cujo postulado confirma.

O texto de base é o da *Poliglota*, excetuando os *pontos massoréticos*; as notas de Fabre, que se limitam a justificar gramaticalmente o sentido dado, invocam as versões samaritana, *targúmica*, caldaica, além da *Septuaginta* e da *Vulgata*.

Os capítulos I a X do *Gênesis* formam um grupo coerente, onde todos os *arcanos da natureza*, todas as ciências foram encerrados por Moisés. *Nascimento do universo e dos seres*, depois sua história, que se desenrola — em especial a da Terra e de seus habitantes, o *homem* em primeiro plano. O *Sépher*, em seus dez primeiros capítulos, conserva uma *cosmogonia*; vê-se seu rumo. (Moisés conhecia também a *teogonia* — ou seja, a vida íntima dos deuses e de *Deus* —, mas julgava os hebreus incapazes de suportar seu peso.) Cada capítulo dessa *cosmogonia* (essa *enciclopédia*) corresponde ao *simbolismo de seu número*:

- I: *Participação* (o poder, o germe).

- II: *Distinção* (da potência ao ato).

- III: *Extração* (surge a oposição).

- IV: *Multiplicação por divisão* (o todo se divide em partes).

- V: *Compreensão facultativa*.

- VI: *Medida proporcional*.

- VII: *Consumação* (da catástrofe ao renovamento).

- VIII: *Acumulação* (as coisas divididas se reúnem, retornando a seus princípios).

- IX: *Restauração* (do reafirmamento procede um novo movimento).

- X: *Energia agregativa e formativa* (as forças naturais se desdobram e agem).

- A Língua Hebraica Restituída* prepara, segundo o plano de Fabre, a *Histoire philosophique du genre humain* (a aparecer em 1822) [], pois, graças a ela, o historiador deveria saber *ler* (e ele conhece o sentido do *ato de ler* ao mesmo tempo que o do *texto lido*). *Os Versos Dourados de Pitágoras*, anteriores de dois anos mas contemporâneos da redação, onde Fabre pretende desentranhar sua doutrina, não ficam isolados: *“Pela primeira vez desde o dilúvio, um homem — eu*, exclamará Fabre, *que restituí a língua hebraica —, um homem se encontrou em situação suficientemente favorável para ensinar em sua plenitude a teodoxia universal.”*

O que é a *teodoxia universal*? Justamente a *doutrina* — *sua* doutrina, que Fabre, como René Guénon no século seguinte, identifica com a *Tradição* —, e a obra que leva essas duas palavras no título liga *A Língua* e a *Histoire*, ao mesmo tempo que envolve Pitágoras, pois é um *comentário sobre a cosmogonia de Moisés*, afirmando sua similitude com os sistemas de outras tradições particulares: a *montante*, a linguagem; a *jusante*, a humanidade.

Fabre não extrai todas as consequências *políticas*, mas — sonho eu? — parece entrever que a evolução do universo se reflete, homóloga, na marcha da humanidade, das civilizações… No estado atual, porém, *La Théodoxie Universelle* segue *A Língua Hebraica* e corrobora a *Histoire philosophique*, assim como os exames dos *Versos Dourados*.

Por causa de Napoleão, *A Língua Hebraica Restituída* aguardará o impressor até 1815-1816; o *Journal de l’Imprimerie* anuncia o primeiro volume (datado do ano anterior) em 27 de janeiro de 1816, e o segundo em 3 de julho seguinte — duas partes in-4°. Os editores são, em Paris, o autor, Barrois e Eberhart.

- “Trabalho literário e não teológico”*, advertia Fabre (embora acrescentasse que certos teólogos pudessem dele beneficiar-se). Não obstante, em 26 de março de 1825, a *Sacra Congregação do Índex* inscreve *A Língua Hebraica Restituída* em seu catálogo. Um admirador, em 1869, sustentará a justiça do veredito: *“Esse livro de Fabre d’Olivet era o golpe mais terrível que se podia desferir contra a religião cristã. Era a luz oposta, enfim, às trevas da mais crassa ignorância.”* []

- Que horror!* Por falta de uma *boa e orgulhosa teologia* — que seria *verdadeira teodoxia ou teosofia*, inerente à *verdadeira linguística sagrada* (ou melhor, abraçando-a) —, Fabre produz uma *vergonhosa e perversa*. O *ouro puro* esperado do projeto transformou-se no *chumbo vil* do programa cumprido. Chauvet inverterá o resultado, *restabelecê-lo-á*, após retificar o procedimento — e vivificando-o.