GERSHOM SCHOLEM. CONSIDÉRATIONS SUR L’HISTOIRE DES DÉBUTS DE LA KABBALE CHRÉTIENNE. CAHIERS DE L’HERMÉTISME - KABBALISTES CHRÉTIENS
Desde então, pode-se estabelecer um paralelo exato entre os Codices do Vaticano e os três textos traduzidos do latim, descritos em 1651 por Gaffarel, e dos quais este informa que os havia comprado em Veneza, embora originalmente tivessem sido redigidos para Pico e lhe houvessem pertencido. Pode-se admitir como certo que esses três volumes detidos por Gaffarel, dos quais apenas o segundo contém manifestamente os mesmos fragmentos que uma das obras, o Cod. 189, da Biblioteca Vaticana, se devem ao mesmo tradutor. Esses textos contêm, aliás, também numerosas notas marginais de natureza maliciosa ou crítica a respeito de Pico e do próprio Mithridate; Gaffarel, contudo, não as deve ter compreendido, pois acreditava estar diante da obra de outro tradutor. Convém notar, além disso, que não há motivo para levar demasiado a sério certas descrições particularmente dramáticas das glosas em Gaffarel, pois esse autor manifesta uma nítida tendência ao exagero; por outro lado, encontram-se igualmente nele observações justas, tais como a referência às breves notas redigidas pela própria mão de Pico e concernentes à tradução do comentário da Torá devido a Mena’hem Recanati, notas que posteriormente teriam servido de base a um grande número de suas Conclusões cabalísticas.
Nos Codices do Vaticano, até o presente, não foram notadas interpolações cristãs pelas quais o tradutor teria “melhorado” seus textos, à maneira do que foi feito por Jean de Pauly em sua tradução francesa do Zohar. Contudo, no contexto da investigação concernente aos começos da interpretação cristã da Cabala e à sua influência sobre a célebre tese — e, em seu tempo, “escandalosa” — de Pico, segundo a qual “nenhuma ciência prova melhor que a Cabala e a magia a divindade de Cristo”, a afirmação de Gaffarel a respeito de seus Codices assume considerável importância. Se ele houvesse efetivamente lido, textualmente, na tradução feita por Mithridate do comentário da Torá devido a Recanati, a passagem concernente ao Messias “chegado há muito tempo”, dever-se-ia concluir que os textos traduzidos de que Pico dispunha já continham esse gênero de falsificações deliberadas. Na realidade, a impressão resultante é que se deve ao próprio Gaffarel — que, aliás, faz figurar essa passagem em caracteres ordinários, e não em itálico como costuma fazer nas citações — essa manipulação de uma frase que tinha sentido inteiramente diverso no texto original. Contudo, será ainda necessário examinar mais de perto os Codices traduzidos por Mithridate, antes de decidir definitivamente essa questão, tendo em conta as numerosíssimas passagens que evocam o Messias nessas obras. Quanto ao exame direto desses textos, na medida em que se pôde familiarizar-se de perto com eles, pôde-se constatar uma fidelidade bastante incomum do tradutor ao texto original; e, mesmo na presença de certos erros, a boa-fé do tradutor parece certa.