A noção de sagrado manifesta-se no episódio de Noé e seus filhos em Gênesis 9, 18, no qual Noé, como cultivador, planta uma vinha, bebe do vinho, embriaga-se e se recolhe no meio de sua tenda.
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Cham viu a nudez de seu pai e foi contar aos seus dois irmãos do lado de fora.
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Sem e Jafé tomaram o manto, colocaram-no sobre os ombros e, andando de costas, cobriram a nudez do pai sem a ver, pois estavam com os rostos virados.
A embriaguez de Noé representa um estado supraindividual equivalente ao termo entusiasmo, cujo significado original é estar em Deus.
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O estado é evidenciado pelo fato de Noé deitar-se no meio de sua tenda.
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A tenda constitui um santuário, e o meio representa o centro desse santuário.
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O pecado de Cham não consiste no ato de ver a nudez, mas sim no fato de anunciá-la fora, o que configura uma profanação ou um sacrilégio.
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O entendimento do erro exige sublinhar a palavra fora.
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A ação de Cham exterioriza o que deve permanecer interior, tornando público um segredo.
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Tomando o vinho como símbolo da Sabedoria, o ato de beber situa Noé em Chokmah.
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Os ombros de Sem e de Jafé correspondem a Chesed e Geburah, enquanto a maldição de Cham corresponde ao exílio.
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Aponta-se frequentemente Cham como o ancestral da raça negra.
As caícias constituem uma iluminação oriunda da Sabedoria, cujas luzes fontes são uma só em Chokmah.
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A iluminação sai pela boca de Adam Kadmon, a partir da qual se espalha em todas as direções.
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A boca de Adam Kadmon atua como um canal para essas luzes que, originadas do Único oculto em Chokmah, também são chamadas de vasos.
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A natureza desses canais explica a opção de tradução de alguns por que ele me dessedente com seus beijos.
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O termo para beijo é neshek, ao passo que dessedentar ou fazer beber éshaqah.
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Essa relação justifica o fato de a Vulgata traduzir a expressão por ubera tua, ou seja, teus seios, os quais se reportam aos vasos de luz.