O encontro com os escritos de
Boehme, há mais de quinze anos, revelou-se uma revelação — pois, uma vez adotada a chave de interpretação simbólica, sua linguagem aparentemente obscura torna-se cristalina e pode ser lida com a fluidez de um romance policial sobre tudo o que existe ou é concebível: divindade, cosmos e o próprio ser humano.
-
A leitura de
Boehme alimentou uma questão já formulada anteriormente — como a ciência moderna nasceu no Ocidente — diante da insuficiência das explicações históricas e econômicas para responder a uma interrogação de tamanha amplitude.
-
O livro anterior em que essa questão foi formulada é Nous, la particule et le monde
-
A corrente orientalista contemporânea sustenta que conceitos orientais se assemelham aos fundamentos da física moderna, mas a ciência moderna nasceu no Ocidente
-
O estudo aprofundado de um modo de pensar e imaginar característico de uma época é indispensável para uma abordagem rigorosa da questão
-
A obra de
Boehme revela-se um caso exemplar que ilustra o ambiente espiritual e cultural do qual a ciência moderna emergiu como semente, evidenciando um elo estrutural entre a Tradição ocidental e a física moderna — elo que persiste a despeito da ruptura declarada entre ciência e Tradição.
-
A ruptura entre ciência e Tradição é frequentemente absolutizada, como se qualquer aproximação entre ambas fosse perigosa e ilusória
-
Charles Morazé, em Les Origines sacrées des sciences modernes, identificou constantes estruturais — como figuras de três e quatro lados — que atravessam as fronteiras entre ciência e Tradição
-
A obra de
Boehme permite ampliar esse quadro e descobrir, por metodologias distintas, uma continuidade em nível superior de uma verdadeira visão de mundo
-
Boehme é situado firmemente na modernidade — não como precursor da filosofia moderna, mas como filósofo moderno ele mesmo — e sua sabedoria deve ser considerada por si mesma, desembaraçada da literatura romântica e da filosofia idealista, e sobretudo de Hegel.
-
Pierre Deghaye afirma: “Não fazemos de
Boehme o precursor da filosofia moderna. Consideramos sua sabedoria por ela mesma… Para redescobrir
Boehme, devemos nos libertar da literatura romântica e da filosofia idealista. Devemos sobretudo esquecer Hegel.”
-
Deghaye também escreve que “
Boehme não é de modo algum um filósofo moderno. Seu pensamento não se desenvolve no plano do pensamento abstrato” — posição com a qual há discordância
-
A filosofia ocidental, em grande parte, ignora o vivido, o experiencial — e especialmente ignora a ciência
-
A ciência contemporânea é capaz de oferecer nova inspiração à filosofia, pois não se reduz ao pensamento abstrato — ela se ocupa essencialmente da resistência da Natureza às nossas representações e experiências, constituindo assim momentos da história da realidade.
-
Uma filosofia moderna que ignore a história da realidade torna-se inconcebível
-
A maioria dos filósofos ou ignora completamente a ciência, reduzindo-a a receitas técnicas sem alcance ontológico, ou a invoca ocasionalmente como ilustração passageira
-
Os escritos de
Boehme são vivos como todos os grandes textos da humanidade — fundados em experiência vivida que talvez transcenda o espaço geográfico e o tempo histórico, mas que oferecem uma visão da dupla natureza da Natureza: ao mesmo tempo eterna e ancorada no tempo.
-
Como um físico moderno,
Boehme é assombrado pela ideia da invariância dos processos cósmicos e pela coexistência paradoxal de unidade e diversidade — tudo é movimento, criação e aniquilação contínuas, uma gênese perpétua onde nada é estável, mas esse movimento é estruturado por uma ordem complexa e perceptível.
-
A ausência de um sistema de valores adaptado à complexidade do mundo moderno pode conduzir à autodestruição da espécie humana, tornando a formulação de uma nova filosofia da Natureza uma urgência imediata — e é nessa busca que Jacob
Boehme se revela um contemporâneo.