Carta 1

The Epistles of Jacob Boehme. Collections ONE and TWO. Transcribed by Wayne Kraus for Jacob Boehme Online. KRAUS HOUSE

A PRIMEIRA EPÍSTOLA. UMA CARTA TEOSÓFICA, OU CARTA DA SABEDORIA DIVINA, ONDE A VIDA DE UM VERDADEIRO CRISTÃO É DESCRITA, MOSTRANDO O QUE É UM CRISTÃO, E COMO ELE VEM A SER UM CRISTÃO; E DA MESMA FORMA O QUE É UM CRISTÃO TITULAR, NOMINAL OU HISTÓRICO, E COMO A FÉ E A VIDA DE CADA UM DIFEREM.

A fonte do coração de Jesus Cristo seja a consolação vivificante, a renovação e a vida eterna.

Deseja-se ao amigo amado e respeitado em Cristo a abertura da fonte de graça manifestada por Deus na humanidade através de Cristo Jesus, a fim de que o sol divino lance seus raios de amor na alma e desperte a fome magnética pelo corpo e sangue de Cristo.

O desejo mútuo e a obrigação de membro motivam a escrita desta epístola de saudação e recreação espiritual na mesma fonte da vida de Jesus Cristo, a partir do conhecimento de que o destinatário possui uma busca sincera pela vida divina manifestada pelo Pai.

A definição de um verdadeiro cristão reside naquele que se tornou capaz de tal título ao resignar sua mente, vontade e íntimo à graça livre em Cristo Jesus, assemelhando-se a uma criança que anseia pelo leite materno.

O cristão é o homem cuja alma retorna à palavra eterna, que é a primeira mãe da vida humana manifestada como leite da salvação, gerando o novo homem espiritual e alcançando o lugar do amor divino onde o Pai gera o Filho.

A condição de cristão exige que Cristo habite, viva e ressuscite no íntimo da alma na essência celestial desaparecida em Adão, revestindo o indivíduo com a vitória cristã que subjuga a vontade carnal e a serpente.

A adoção como filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo ocorre por meio de uma graça inata, regeneradora e habitante, e não por uma imputação externa ou merecimento histórico de justificação, conforme testificam os escritos apostólicos.

Aquele que apenas busca conforto na paixão, morte e satisfação de Cristo como um indulto externo, mantendo-se como uma criatura selvagem e não regenerada, permanece distante do verdadeiro cristianismo.

O cristão nominal rejeita a conversão, a atitude infantil e o novo nascimento pela água da graça e pelo Espírito Santo, preferindo cobrir-se com o manto da graça de Cristo sem ingressar na adoção filial necessária para ver o reino de Deus.

A mentalidade carnal é caracterizada pela inimizade contra Deus e pela incapacidade de herdar o reino divino, cabendo apenas ao espírito da graça nascido de Deus ouvir a palavra divina.

A revelação da palavra e da vontade de Deus ocorre no íntimo dos seres por meio do Filho, o qual habita o seio do Pai, ainda que a carne pecaminosa externa muitas vezes impeça que a potência divina se manifeste no mundo visível.

Os santos e São Paulo lamentaram o conflito entre a vontade sincera do espírito que serve a Deus e a lei do pecado que atua na carne, a qual é diariamente mortificada na morte de Cristo naqueles em quem ocorre a ressurreição espiritual.

A compreensão da justificação e do perdão dos pecados é insuficiente quando ensinada apenas como um recebimento externo, pois a graça e a adoção consistem na transformação da alma pelo sangue de Cristo, restabelecendo a harmonia original.

A ira do Pai despertada nas propriedades da vida humana foi convertida em amor e unidade na morte de Cristo, resultando na morte da vontade egoísta e no renascimento da primeira vontade humana pelo sangue celestial.

A graça e a vitória em Cristo estenderam-se a todos os homens assim como o pecado, quebrando a morte na alma adâmica e abrindo a porta para que a alma retorne à regeneração, saciando-se na fonte divina.

A transformação operada na pessoa de Cristo, onde a eternidade sobrepujou o tempo e sua vontade própria na humanidade assumida, exige que a alma receba essa mesma vontade eterna para que o fundamento paradisíaco morto em Adão floresça na obediência.

A expiação e a reconciliação concluídas historicamente por Cristo devem se manifestar de forma experimental no íntimo do crente, com a infusão do sangue celestial que pacifica a ira divina e restaura a imagem primordial.

A verdadeira imagem paradisíaca que morreu em Adão não pertence aos quatro elementos deste mundo mundano, mas habita no céu e no elemento puro e santo que deu origem à criação, alimentando-se de Cristo.

Cada espírito alimenta-se da fonte de onde tirou sua origem, cabendo à alma animal e mortal o espírito deste mundo elemental, enquanto a alma eterna e divina nutre-se da Palavra essencial de Deus.

Diante da impossibilidade de a alma decaída alimentar-se da Palavra divina por conta própria, a Palavra de vida inseriu sua essência celestial na humanidade, permitindo que a alma cativa voltasse a receber o maná paradisíaco.

Nenhum homem se torna um verdadeiro cristão por meio de formalidades externas ou imputação forense de graça, visto que o perdão divino não opera como o indulto exterior concedido por um príncipe terreno a um malfeitor.

A graça que conduz à adoção filial reside exclusivamente no sangue e na morte de Cristo, instituído por Deus como o único sacrifício aceitável para reconciliar a ira divina.

Para que o sacrifício da graça seja proveitoso, ele deve operar no íntimo do ser através da fé que apreende Cristo no fundamento da alma, iniciando a destruição das forças infernais e da ira.

O homem por si mesmo é incapaz e está morto, cabendo a Cristo operar a ressurreição interna que subjuga a vontade própria e transforma o indivíduo em um instrumento da vontade divina.

O cristão habita simultaneamente em dois reinos: o paraíso espiritual com o espírito renascido e a vaidade do mundo exterior com o corpo mortal, recebendo o auxílio de Cristo para suportar o jugo do pecado carnal.

O jugo deste mundo constitui o fardo que Cristo carrega até a entrega final do reino ao Pai, cumprindo o papel profetizado de carregar as enfermidades e dores humanas na ira divina.

O nascimento de Cristo no homem desencadeia os ataques do inferno e da ira de Deus contra o homem externo pecaminoso, resultando em perseguições mundanas e na execução da justiça severa sobre a casa do pecado.

Cristo atua no suporte ao jugo enquanto o homem é oferecido em sacrifício no processo de sofrimento, desprezo e morte cristãs, tornando-se conforme a imagem divina perante a justiça.

As escrituras ensinam a justificação da alma pela fé no sangue e na morte de Cristo, e não pelos méritos das obras, embora esse princípio seja compreendido por poucos que o pregam.

A maior parte dos instrutores limita-se a uma fé histórica e imaginária que conforta o homem pecaminoso com o manto exterior de Cristo, sem compreender a verdadeira essência da fé e a exigência da mudança interior.

A aceitação da graça e a adoção filial realizam-se unicamente em Cristo, que representa a própria vontade do Pai, sendo impossível invocar a Deus como Senhor sem a presença do Espírito Santo.

O homem é incapaz de alcançar a Deus por meio do próprio conhecimento ou busca intelectual, dependendo inteiramente da intercessão do Espírito Santo e da misericórdia divina.

A destruição dos pecados e a capacidade de crer dependem da ação de Cristo e de Seu Espírito na vontade resignada do homem, pois a misericórdia reside apenas Nele.

Cristo acolhe a vontade humana resignada, integrando-a em Sua própria vontade vitoriosa e intercedendo pela alma diante de Deus como um filho da graça.

A manifestação do amor do Pai em Cristo atrai e reveste a vontade humana com o sangue celestial, transformando-a em uma imagem angelical dotada de vida divina.

A nova vida divina gera na alma o conhecimento de sua própria miséria e o aprisionamento na ira de Deus, revelando sua deformidade diante dos ataques dos espíritos malignos.

A alma alcança a iluminação e o arrependimento eficaz ao submergir no espírito da nova vontade e na humildade absoluta, experimentando o toque do espírito de Cristo.

O consumo da carne e do sangue de Cristo substancializa o espírito da nova vontade por meio do desejo magnético da alma faminta.

A essencialidade gerada nesse processo é denominada Sophia, representando a sabedoria essencial ou corpo de Cristo, base onde repousa a verdadeira fé no Espírito Santo.

A fé verdadeira não consiste em pensamentos ou no assentimento histórico à morte de Cristo, mas na recepção efetiva da graça oferecida e na impressão de Sua essência celestial no íntimo.

Cristo alimenta a alma com a essência de Sophia, cumprindo a sentença de que a vida eterna depende da participação real em Sua carne e em Seu sangue.

A fé cristã e os testamentos baseiam-se nessa transformação essencial, pois uma fé puramente verbal assemelha-se a uma faísca sufocada pela fumaça que necessita de combustível real para brilhar.

A alma aprisionada na vaidade assemelha-se a um pavio fumegante que se expande em uma grande luz de boas obras e paciência ao receber a essência do amor divino em Cristo.

A interação entre a terra e o sol ilustra o processo espiritual humano, no qual o campo da alma reage ao raio divino absorvendo sua virtude para fazer brotar um corpo espiritual dotado de frutos doces.

O fundamento da alma constitui o campo divino que, ao receber o sol espiritual, desenvolve uma nova planta celestial que precisa ser nutrida de cima até atingir a forma angelical.

Assim como os vegetais enfrentam as intempéries do clima, o cristão deve resistir ao ambiente hostil do mundo e da ira, depositando sua confiança exclusivamente no sol divino para atingir a maturidade espiritual.

O novo nascimento e as boas obras não são gerados por templos de pedra ou rituais baseados em palavras vazias, mas pela ação do sol divino no íntimo do indivíduo unido à videira de Cristo.

A compreensão da vida cristã manifesta-se unicamente na prática efetiva e na produção de frutos divinos que conformam a vontade do homem à de Deus, tornando inúteis as confissões de fé puramente teóricas.

As disputas, guerras e contendas doutrinárias que destroem as nações representam apenas cascas vazias sem fruto pertencentes ao julgamento do mundo ígneo, motivadas pelo orgulho carnal e pela ausência do verdadeiro espírito cristão.

Uma árvore boa distribui seus frutos a todos os seres e persiste em sua produção independentemente das agressões climáticas ou da destruição provocada pelo ambiente exterior.

O cristão reproduz a vontade de Cristo em seu íntimo e faz com que o dia divino dissipe a noite escura da ira e do pecado carnal, mantendo a nova planta viva após as perseguições do mundo e do diabo.

A busca pelo crescimento espiritual deve sobrepujar as discussões inúteis e as ficções conjeturais de santidade artificial que levam os indivíduos a condenarem uns aos outros por questões de opinião.

O estímulo a disputas intelectuais e condução a opiniões dogmáticas constituem estratagemas diabólicos para desviar a humanidade do amor, da fé e do verdadeiro novo nascimento em favor de formalismos vazios.

A verdadeira religião assemelha-se à simplicidade infantil que abdica do saber arrogante e da vontade própria para trilhar o caminho de retorno à pátria original perdida na queda de Adão.

O retorno à mãe original exige a renúncia ao orgulho e o reconhecimento da condição de filho pródigo que dissipou sua herança espiritual nos deleites mundanos, demandando autoexame diante da Lei e do Evangelho.

O autoexame revela a presença de inúmeras inclinações bestiais no íntimo humano instaladas no lugar de Deus, as quais remontam ao monstro da serpente manifestado na queda de Adão.

O orgulho egóico manifesta-se na alma sob a figura de Lúcifer, o qual rejeita a humildade fraternal e busca estabelecer um senhorio soberbo destituído de amor divino sobre os demais membros.

A ganância assemelha-se a um suíno voraz que busca acumular recursos além de suas necessidades para inflar a soberba do eu, resultando no desligamento da árvore da vida e na esterilidade espiritual.

A inveja atua como uma serpente peçonhenta que rejeita o bem alheio, calunia os semelhantes e disfarça sua falsidade sob a aparência de virtude angelical para favorecer o orgulho.

A ira assemelha-se a um dragão fogoso encastelado no inferno que recorre à violência e à destruição quando a cobiça e a inveja não alcançam seus objetivos egoístas, tornando o ser apto apenas para o fogo.

As paixões egóicas desviam os bens que deveriam sustentar os semelhantes, submetendo o próximo à miséria e à opressão para satisfazer o orgulho e o entesouramento da avareza.

A compreensão dessas inclinações mundanas no espelho do eu explicita a culpa pessoal no pecado original e a penetração do veneno diabólico na ascendência humana.

As forças do desejo humano romperam a unidade harmoniosa original da criação devido à astúcia do diabo, gerando desejos egoístas e competitivos que buscam o senhorio sobre as demais ramificações.

A conduta egoísta representa uma quebra de juramento contra Deus e contraria o ordenamento natural observado nas plantas da terra, as quais crescem cooperando entre si e compartilhando o sustento na mesma mãe.

A vida humana original foi inspirada pela Palavra eterna em uma proporção equilibrada de amor e harmonia mútuos, utilizando o barro da terra como receptáculo.

A introdução do veneno diabólico fragmentou as propriedades vitais em apetites conflitantes, provocando doenças, mortalidade e a perda da imagem divina celestial conforme a advertência sobre a árvore do conhecimento.

O apetite bestial humano constitui uma expressão da serpente vinculada ao abismo da ira e à vaidade terrena, pertencendo por direito natural ao inferno que anseia por colher tais propriedades.

O ingresso no reino divino exige o novo nascimento pelo Espírito Santo e pela água da vida eterna manifestada em Cristo, ressuscitando o homem original que havia falecido em Adão.

As inclinações bestiais devem ser mortificadas no tempo presente para que o fundamento íntimo da alma seja restaurado pelo sangue de Cristo e retorne à concordância necessária para alcançar a Divindade.

A libertação das paixões carnais ocorre quando o indivíduo adota uma firme resolução de abandonar os servos do diabo e assume a postura do filho pródigo, aproximando-se do Pai com profunda humildade e arrependimento.

O propósito de emenda e arrependimento deve ser sincero e imediato, condenando continuamente os apetites egoístas à morte e tratando-os como inimigos na busca pela graça de Deus.

A firmeza do propósito mental contra as procrastinações e tentações materiais sugeridas pelo diabo permite afogar os maus pensamentos no amor de Cristo, acolhendo o convite divino de alívio aos sobrecarregados.

Quando a alma direciona sua vontade sincera a Deus, o Pai a insere no processo de morte de Cristo para extirpar as inclinações abomináveis, transformando o homem em um administrador desapegado de seus bens.

O enfraquecimento das paixões carnais decorre do domínio sobre o orgulho de Lúcifer, mantendo os desejos remanescentes na carne sob controle submisso, semelhantes a animais domesticados ou acorrentados.

O cativeiro do orgulho diante da ressurreição de Cristo e a perseverança no caminho espiritual conduzem a alma ao casamento místico com Sophia, gerando no céu interior a alegria celebrada pelos anjos pelo pecador arrependido.

A exposição desses ensinamentos baseia-se na intenção fraterna e na simplicidade infantil, buscando a edificação mútua na graça divina e o revigoramento espiritual compartilhado com o irmão cristão.

A disponibilidade para compartilhar conhecimentos mais profundos sobre o tempo e a eternidade fica condicionada à acolhida do propósito e à abertura dos mistérios por Deus, encerrando com a recomendação ao amor de Cristo.