Pedro Damasceno — Livro I — Tesouro
Excertos traduzidos por Antonio Carneiro. Fonte: Pierre Damascène
Esse livro principia com uma enumeração das “sete ações do corpo”, onde extraímos:
A quarta é a salmódia, a oração corporal que passa pelos cantos dos Salmos e as genuflexões, a fim de que o corpo se esgote, afim de que a alma se humilhe, que fujam os nossos inimigos: os demônios, que nos assistam os anjos que combatem conosco, que nós saibamos de onde vem o socorro, e que a ignorância não nos leve ao orgulho nos fazendo achar que as obras nos são próprias. Então nós seríamos abandonados por Deus, para conhecer nossa própria fraqueza.
A quinta é a oração espiritual que vem da inteligência e afasta todo pensamento. A inteligência se prende ao que ela disse e se prosterna diante de Deus, inefavelmente quebrada, Ela não procura fazer senão a vontade divina em todas suas ações, em todas suas meditações. Ela não recebe nenhum pensamento, nenhuma forma, nenhuma cor, nenhuma luz, nenhum fogo, nem o que quer que seja. Mas, ela está sob o olhar de Deus e não fala senão para Ele. Ela é ela mesma fora de toda figura, de toda cor, de toda forma. Tal é a oração pura, que convém àquele que está ainda ativo. Quanto ao contemplativo, ele recebe as maiores coisas.
Eu quis com minhas lágrimas apagar o manuscrito de minhas faltas, Senhor, e passar à Te agradar o resto de minha vida no arrependimento. Mas, o inimigo me engana e combate minha alma. Senhor, antes que seja perdido no final, salva-me.
Eu pequei contra Ti, Salvador, como o Filho pródigo. Pai, receba-me que me arrependo. Deus, tenha piedade de mim.
Eu Te chamo, Cristo Salvador, como Te chama o Publicano. Deus, purifica-me como ele, tenha piedade de mim.
O que será no final? O que ocorrerá? Oh, infeliz, oh, quem despejará a água sobre minha cabeça? E quem dará à meus olhos a fonte das lágrimas? Quem pode me tornar digno de chorar? Pois eu não consigo fazê-lo por mim mesmo. Vindes, montanhas, encubra-me o miserável. Oh, que tenho eu a dizer? Ah quanto bem Deus me fez, que só Ele conhece, e quantos males minha ingratidão suscitou! Pelas minhas obras, minhas palavras e meus pensamentos, eu irrito sempre o Benfeitor. Quanto mais Ele pacienta, mais tenho presunção, miserável, e torno-me mais insensível que as pedras sem alma. Entretanto não me desespero. Mas reconheço teu amor ao homem.
Eu não adquiri o arrependimento, nem sequer lágrimas. Eu Te suplico então, Salvador, de me fazer voltar antes do fim, e de me dar o arrependimento. Que eu seja liberado do castigo.
Senhor meu Deus, não me abandones. Pois não sou nada diante de ti. Sou totalmente pecador. Onde achar o meio de sentir meus numerosos males? Mas não faço nada. E aí está minha grande condenação. Para mim foram criados o céu e a terra, e para mim os quatro elementos e o que saiu deles, como diz Gregório o Teólogo. E eu calarei o resto. Pois não sou digno de falar disso, por causa da multidão de meus males. Quem pode compreender, mesmo que lhe seja dada uma inteligência angélica, as inumeráveis benfeitorias que eu recebi? Mas eis aqui, recusando o arrependimento, infeliz, sinto-me inclinado a tudo declinar.
Mas quem sou eu para ousar chamar a Ti que conhece os corações? Eu falo para eu mesmo aprender que me refugio em Ti, o porto da minha salvação, e para que os inimigos o aprendam. Pois eu sei pela Tua graça, porque Tu és meu Deus, e não porque eu ouso Te falar. Mas eu queria estar diante de Ti apenas como uma inteligência vazia, surda e muda. Não sou eu, mas Tua graça que põe tudo em obra. Eu sei que em mim mesmo nada há jamais de bom. Eu estou sempre cheio de vícios. Mas, por causa deles, na minha condição de servidão, me prosterno diante Ti. Pois Tu me deu o arrependimento. Eu sou Teu servidor, o filho de Tua serva.
Mas, meu Senhor Jesus Cristo, meu Deus, não permitas que eu faça, ou diga, ou pense o que Tu não queiras. Tantas faltas passadas me bastam. Mas, conforme Tua Vontade, tende piedade de mim. Eu pequei. Como Tu sabes, tende piedade de mim. Eu creio, Senhor, que Tu escutas minha pobre voz. Ajude minha descrença, Tu que, com o ser, me permitiu ser cristão. “É para mim uma grande coisa, disse João de Carpathos, ser chamado de monge e cristão.” Tu mesmo, Senhor, disse à um de seus servidores: É para ti uma grande coisa que em ti seja invocado Meu Nome.“ Uma tal coisa é melhor para mim do que todos os reinos da terra e do céu. Mas que sempre possa invocar Teu Nome dulcíssimo: “Mestre cheio de misericórdia, eu te dou graça”, etc., como está escrito.