A leitura do Livro dos Números sobre o poço e o cântico que Israel cantou junto dele está repleta de mistérios espirituais que vão além do sentido histórico literal.
O relato de que o Senhor deu ordem especial a Moisés para reunir o povo a fim de dar-lhe água de um poço não tem muito sentido se interpretado apenas pela letra, pois o povo se reuniria por si mesmo para beber.
A investigação do significado espiritual do poço é enriquecida pela comparação com outras passagens das Escrituras, como os Provérbios, que falam de beber água da própria cisterna e da fonte dos próprios poços.
Os patriarcas, como Abraão, Isaque e Jacó, possuíam poços, e essa imagem percorre toda a Escritura até os
Evangelhos, onde se encontra o poço sobre o qual o Salvador se sentou e descansou.
No
Evangelho,
Jesus diz que quem bebe da água que ele dá terá dentro de si uma fonte de água que jorra para a vida eterna, e que do seu ventre correrão rios de água viva.
A designação de “poço” e “fonte” para a Palavra de Deus indica que ela cobre um mistério profundo e que flui abundantemente para o povo.
A sabedoria nos Provérbios menciona a “fonte dos teus próprios poços”, indicando que os poços, em número plural, se referem ao conhecimento das três pessoas da
Trindade (
Pai,
Filho e
Espírito Santo), enquanto a fonte, em número singular, refere-se à única substância e natureza da
Trindade.
O conhecimento das coisas criadas, como a substância do mundo, os elementos, as estações e a natureza dos seres vivos, também constitui poços profundos que, quando revelados por Deus, tornam-se fontes e rios que saciam os crentes.
Os poços que existem na alma humana necessitam ser cavados, purificados e limpos de toda terra, para que os canais do pensamento racional produzam correntes puras e imaculadas.
As virtudes da alma, como a paciência (Rebeca) e a sabedoria, são encontradas junto aos poços, sendo necessário frequentá-los para conquistá-las como esposa.
Rebeca, Raquel e Zípora foram encontradas junto aos poços, indicando que as virtudes da alma habitam junto às “águas vivas”, ou seja, às correntes da Palavra viva.
O poço mencionado na passagem atual é mais eminente porque não foi cavado por homens comuns, mas por “príncipes” e “reis”, e por isso um hino é cantado a Deus junto a ele.
Moisés, que representa a lei, convoca o povo para ir a esse poço, que é
Jesus Cristo, o
Filho de Deus, existente em sua própria substância, com o
Pai e o
Espírito Santo nomeados como a única fonte da Divindade.
O cântico entoado junto ao poço começa com a afirmação de que o poço é o princípio de todas as coisas, e que os “príncipes” e “reis” o cavaram e esculpiram.
Os “príncipes” são entendidos como os profetas, que cavaram o sentido profético sobre Cristo na profundidade da letra, enquanto os “reis” são os apóstolos, que esculpiram o poço na rocha, penetrando os segredos mais profundos e difíceis do conhecimento de Deus.
A distinção entre cavar (para os príncipes, que penetram na terra macia) e esculpir (para os reis, que penetram na dureza da rocha) reflete a capacidade dos apóstolos de perscrutar as coisas profundas de Deus pelo
Espírito Santo.
Os apóstolos são chamados de “reis” porque são capazes de perscrutar, pelo Espírito, as profundezas de Deus e penetrar os mistérios profundos do poço, sendo eles que criam outros reis ao governarem as igrejas.
Todos aqueles que são “reis e príncipes” verdadeiros, por terem expulsado o domínio do pecado de seus corpos e preparado um reino para a justiça, são capazes de remover a terra da letra e produzir sentidos espirituais do poço das Escrituras.
Para ensinar os outros, é necessário que primeiro se pratique o que se ensina, pois “aquele que fizer e ensinar assim aos homens, será chamado grande no reino dos céus”, e ser “grande no reino” é ser rei.
A jornada a partir do poço, passando por Mataná (que significa “seus dons”), Naaliel (“de Deus”), Bamote (“vinda da morte”) e até o bosque no campo de Moabe, representa os estágios de progresso da alma em direção à perfeição.
Após beber do poço, chega-se a Mataná para oferecer dons a Deus, que são a fé e o amor; de Mataná, passa-se a Naaliel, para receber os dons do
Espírito Santo que vêm de Deus; e de Naaliel, a Bamote, que é a “vinda da morte” pela qual se morre com Cristo para viver com ele.
Sihom, rei dos amorreus, cujo nome se traduz como “árvore infrutífera” ou “orgulhoso”, contém uma figura do
diabo, que é o príncipe deste mundo e que se opõe à passagem de Israel para a terra santa.
Israel envia mensageiros a Sihom com palavras pacíficas, prometendo não se desviar para seus campos ou vinhedos, nem beber de sua cisterna, mas seguir pelo “caminho real”, que é o próprio Cristo.
A promessa de não beber da cisterna de Sihom e de não se desviar para seus campos ou vinhedos corresponde à renúncia ao
diabo, à sua pompa e às suas obras, feita pelos fiéis no batismo.
O fiel não bebe mais da doutrina do
diabo, da astrologia, da magia ou de qualquer ensinamento contrário à piedade, mas bebe das fontes de Israel e das fontes da salvação.
A recusa de Sihom em deixar Israel passar e sua convocação de todo o seu povo para guerrear contra Israel figuram as perseguições incitadas pelo
diabo contra o povo de Deus.
Israel, ao chegar a Issaar (“cumprimento do mandamento”), vence a Sihom, pois cumprir os mandamentos de Deus é a maneira de vencer o
diabo e todo o seu exército.
A vitória sobre Sihom, que caiu “pelo fio da espada”, é interpretada espiritualmente como a vitória sobre o
diabo pela espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.
A posse da terra de Sihom, desde Arnom (“suas maldições”) até Jaboque (“luta”), simboliza a posse do domínio sobre toda a região terrestre por Cristo e sua igreja, após vencerem a luta contra o
diabo.
O início do reino de Sihom é marcado por maldições, e o fim é a luta, sendo necessário que todo aquele que deseja sair do reino do
diabo enfrente uma luta contra seus ministros, mas a vitória é garantida pelo cumprimento dos mandamentos de Cristo.