Orígenes — CONTRA CELSO
Excertos da tradução espanhola de Daniel Ruiz Bueno, publicada pela BAC
Mas, se alguém quiser conhecer as fantasias desses charlatões, com as quais tentaram, sem sucesso, atrair adeptos para sua doutrina, como se possuíssem não sabemos que mistérios, ouça o que dizem ensinar, após atravessar o que chamam de barreira da maldade, às portas dos Arcontes (= príncipes) eternamente acorrentados:
“Rei solitário, vínculo da cegueira, esquecimento inconsciente, eu te saúdo, força primeira, guardada pelo espírito da providência e da sabedoria, de onde sou enviado puro, já feito parte da luz do Pai e do Filho. Que a graça esteja comigo; sim, Pai, esteja comigo”.
E dizem que daí provêm os poderes da ogdóada. Então, ao passar aquele a quem chamam Yaldabaoth, ensinam a dizer: “Ó tu, Yaldabaoth, primeiro e último, nascido para imperar com audácia, palavra que és dominante de uma mente pura, obra perfeita para o Filho e o Pai!, trago um símbolo marcado com a marca da vida, depois de abrir ao mundo a porta que tu fechaste com tua eternidade, para que teu poder passe novamente livre. Que a graça esteja comigo; sim, Pai, que esteja comigo”.
E dizem que com este arconte simpatiza a estrela Fenonte (phainon = Saturno). Então pensam que quem passou por Yaldabaoth e chegou a Yao deve dizer: “Ó tu, Yao, segundo e primeiro, senhor dos mistérios ocultos do Filho e do Pai, que brilhas na noite, soberano da morte, parte do inocente, já levando o teu próprio…!, como um símbolo, disponho-me a entrar em teu império, depois de dominar com uma palavra viva aquele que nasceu de ti. Que a graça esteja comigo, Pai, esteja comigo”.
Em seguida vem Sabaoth, a quem se acredita que se deve dizer: “Senhor da quinta autoridade, poderoso Sabaoth, defensor da lei de tua criação, destruída pela graça, com uma penta-da mais poderosa, deixa-me passar, contemplando um símbolo irrepreensível de tua Arte, preservado pela imagem de uma figura, um corpo liberado pela penta-da. Que a graça esteja comigo, Pai, esteja comigo“.
Em seguida vem Astafeo, a quem se acredita que se deve dizer o seguinte:
“Senhor da terceira porta, Astafeo, inspetor da primeira fonte de água, olhando para um iniciado, deixa-me passar, purificado como estou pelo espírito de uma virgem, contemplando a essência do mundo. Que a graça esteja comigo, Pai, esteja comigo”.
Depois dele vem Eloeo, a quem se acredita que se deve dizer o seguinte:
“Senhor da segunda porta, Eloeo, deixa-me passar, pois trago-te um símbolo de tua mãe, a graça escondida pelas potências das autoridades. Que a graça esteja comigo, Pai, esteja comigo”.
Ao último chamam Oreo, e a este pensam que se diz:
“Tu que atravessaste intrépidamente a barreira de fogo e alcançaste o império da primeira porta, deixa-me passar, contemplando o símbolo da tua própria força, destruído por uma figura da árvore da vida, tomado pela imagem à semelhança de um homem inocente. Que a graça esteja comigo, Pai, esteja comigo”.