Orígenes — Deus-Omnipotencia
Ora, não afirmamos que o corpo corrompido retorne à natureza do princípio, nem que o grão de trigo que se corrompeu retorne ao primeiro grão de trigo. O que dizemos é que, da mesma forma que do grão de trigo brota a espiga, assim há no corpo uma razão ou princípio (logos) que não se corrompe e do qual ressuscita o corpo em decomposição. Os estoicos, sim, afirmam que o corpo, depois de se corromper totalmente, retorna à sua natureza primitiva, de acordo com sua teoria do retorno periódico das coisas indistinguíveis, e que recuperará novamente aquela mesma estrutura primária da qual se dissolveu; teoria que eles imaginam demonstrar por razões dialéticas convincentes.
Também não nos refugiamos na mais extravagante saída ao dizer que tudo é possível para Deus. Sabemos, de fato, que esse “tudo” não pode se referir ao que não pode subsistir nem ao que não pode ser concebido. Afirmamos também que Deus não pode nada feio, pois seria um Deus que pode deixar de ser Deus. Se Deus, de fato, faz o que é feio, não é Deus (Eurípides, fragm. 292, ed. Nauck). Mas, visto que Celso entende que Deus não quer o que vai contra a natureza, distingamos essa afirmação: se por algo que vai contra a natureza se entende a maldade, também nós dizemos que Deus não quer o que vai contra a natureza, seja proveniente da maldade, seja da irracionalidade. Mas, se o que acontece segundo o Logos de Deus e seu desígnio se entende necessariamente e imediatamente que não deve ir contra a natureza, afirmamos que o que é feito por Deus não vai contra a natureza, por mais prodigioso que seja ou que pareça ser para alguns. Mas, se nos vemos forçados a usar essa expressão, diremos que, no que diz respeito ao que comumente se entende por natureza, há coisas que Deus às vezes faz acima da natureza; assim, Ele eleva o homem acima da natureza humana e o transforma em uma natureza superior e mais divina, e nesse estado O mantém enquanto ele demonstrar, por suas obras, que deseja ser mantido.