Resumo feito a partir da consagrada edição das Sources Chrétiennes, “Homélies sur le Cantique des Cantiques”, com Introdução, tradução e notas de D. Olivier Rousseau (1966).
Jerônimo, conhecedor aguçado da Escritura, considerava o Comentário ao Cântico como a obra máxima de Orígenes, superando todas as demais, e inclusive ao próprio autor em relação às suas outras produções, por permitir a aplicação de princípios hermenêuticos com singular acerto a serviço de um ímpeto místico que representou novidade profunda nas letras cristãs do período.
Jerônimo observava que, com as demais obras, Orígenes superava todos os outros, mas com o Comentário ao Cântico superava a si mesmo
O impulso místico presente na obra representou uma novidade destinada a vida exuberante na literatura cristã da época
A explicação reside no fato de que o Cântico dos Cânticos é o livro da Sagrada Escritura que mais exige, em sentido cristão, uma interpretação de tipo alegórico
Considerado apenas pelo ponto de apoio literal do texto, o canto de amor dos dois esposos reais nada apresenta que pudesse autorizar sua inserção entre os livros divinamente inspirados
Teodoro de Mopsuéstia, antioqueno do início do século V, único exegeta antigo a impugnar a exegese alegórica, viu-se forçado a negar também o caráter inspirado do Cântico
Os judeus, que atribuíam o Cântico a Salomão junto com os Provérbios e o Eclesiastes, já o interpretavam como o canto de amor mútuo entre o esposo Javé e a esposa Israel, e os cristãos, ao adaptar essa interpretação, identificaram o esposo com Cristo e a esposa com a Igreja, numa tradição em que Orígenes se insere com complexidade e amplitude muito superiores.
A imagem paulina de Ef. 5, 31ss. — “por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua esposa, e os dois serão uma só carne” — foi valorizada pelos cristãos para fundamentar essa identificação
O comentário cristão mais antigo ao Cântico é o de Hipólito, alguns anos anterior ao de Orígenes, inteiramente fundado na tipologia esposo-Cristo e esposa-Igreja, sem nenhum indício de interpretação literal
O comentário de Hipólito era em grande parte tributário de uma exegese já tradicional na época
Orígenes se situa nessa linha, porém com grau de complexidade e amplitude muito diferente
O interesse de Orígenes pelo Cântico concretizou-se numa série de homilias e, sobretudo, numa extensa coleção de dez livros composta por volta do ano 240, precedida de um prefácio particularmente desenvolvido, e que chegou até os dias atuais por meio de traduções e excertos realizados por intermediários distintos.
Jerônimo traduziu para o latim as duas primeiras homilias da coleção
Rufino de Aquileia traduziu, nos primeiros anos do século V, a parte preliminar do comentário até a interpretação de Cant. 2,15, distribuindo-a em quatro livros e antepondo a tradução do extenso e importante prólogo
A Filocalia — antologia de passagens origenianas organizada por Basílio de Cesareia e Gregório Nazianzeno — conservou uma passagem do comentário original relativa à interpretação de Cant. 1,5
Procópio de Gaza utilizou amplamente o comentário origeniano, reproduzindo passagens relativas à interpretação de versículos do Cântico, do início ao fim da obra, com muitas soluções de continuidade
Procópio abreviou muito o texto origeniano, mas o reproduziu de modo ao menos satisfatório
Os textos extraídos da Filocalia e de Procópio permitem controlar em certa medida a fidelidade da tradução de Rufino, que, seguindo os cânones tradicionais da tradução literária, fez uso de grande liberdade, podando drasticamente o aparato erudito origeniano e suprimindo a consideração sistemática das variantes textuais gregas.
Rufino não se limitou a dar razão do texto origeniano ad sensum — expressão latina para “segundo o sentido” — mas eliminou o aparato erudito que Jerônimo tanto admirava
Orígenes, embora fundamentado no texto grego dos Setenta, considerava de modo bastante sistemático as variantes fornecidas por outras traduções gregas — Áquila, Símaco e Teodocion — comentando as expressões em que divergiam notavelmente dos Setenta
Nada disso permaneceu em Rufino, que se limitou a citar aqui e ali algumas variantes do texto latino disponível — perda considerada muito grave
Em compensação, Rufino acrescentou algumas aclarações próprias, raramente doutrinárias e na maioria das vezes meramente explicativas, para esclarecer pontos do texto grego que pudessem resultar obscuros ou equívocos para o leitor latino, sem com isso falsear o sentido do discurso origeniano.
Um exemplo é a fraseologia latina que explica a terminologia filosófica grega citada em primeiro lugar por seu tecnicismo — página 53
Outro exemplo é a aclaração de que é preferível traduzir melo com o grecismo melum em vez do latim normal malum, pois, dado o contexto, alguém poderia equivocar-se e interpretar malum como male em vez de como melo — página 200
Tais indicações evidenciam a liberdade da tradução rufiniana, que, no entanto, preservou o sentido do discurso origeniano de modo satisfatório
Além do aparato erudito, Orígenes aportou à já tradicional interpretação do Cântico novidades de grande peso que se evidenciam numa breve descrição dos caracteres do comentário.
A alusão à tradução de Rufino serve de ponto de partida para destacar essas novidades
Uma descrição breve dos caracteres do comentário origeniano basta para ressaltá-las
A interpretação de cada versículo ou grupo de versículos inicia-se com um breve comentário de caráter literal — sendo Orígenes o primeiro exegeta cristão a cuidar também desse aspecto para o Cântico —, e nela o caráter dramático do canto é descrito de modo minucioso, servindo de base propedêutica indispensável para encaminhar justamente a alegoria.
Orígenes destaca desde o início o caráter dramático do canto, no qual os personagens se alternam continuamente — ora fala a esposa, ora o esposo, ora ambos se dirigem a outros interlocutores, os companheiros da esposa e do esposo
A interpretação literal é considerada exclusivamente propedêutica — termo que designa aquilo que prepara o caminho para conhecimento posterior
Comparado a outros autores contemporâneos ou um pouco anteriores, como Hipólito, Orígenes presta atenção cuidadosa a cada versículo em particular, fazendo-o objeto de esmerada interpretação espiritual
Em alguns casos — páginas 227 e seguintes — toma em consideração, sob o aspecto literal, amplos trechos do texto conjuntamente, para melhor estabelecer as particularidades que num comentário fragmentário poderiam passar inadvertidas
A razão desse procedimento reside nos princípios exegéticos de Orígenes: fundamentar a interpretação alegórica sobre atenta consideração à letra do texto bíblico
Estabelecida a letra do texto, Orígenes introduz a interpretação espiritual pelo método alegórico, desenvolvida sistematicamente em duas linhas que se cruzam de muitos modos mas permanecem bem distintas — a tipológica, herdada da tradição, e a psicológica, novidade de grande alcance.
Na interpretação tipológica — primeiro filão —, a esposa e o esposo figuram a Igreja e Cristo respectivamente, e os demais personagens são interpretados a partir dessa identificação
Na interpretação psicológica — segundo filão, grande novidade —, Orígenes continua vendo no esposo a Cristo, mas vê na esposa a alma que tende a ele
A ordem em que as duas interpretações são introduzidas não é regular: às vezes vai à frente a tipológica, a seguir à literal; outras vezes, mais raramente, à literal segue a psicológica
A salvação e a perfeição de cada alma realizam-se na Igreja, embora Orígenes nem sempre consiga diferenciar nitidamente os dois tipos de interpretação
O tema fundamental da interpretação tipológica é o contraste entre Israel e a Igreja cristã, entre a velha herança do Antigo Testamento e a nova economia do Novo Testamento, em cujo contexto Orígenes situa a existência da Igreja desde o princípio do mundo e o significado da encarnação de Cristo como passagem da infância à maturidade.
Os amigos do esposo podem simbolizar facilmente os profetas; as filhas de Jerusalém, a quem a esposa por vezes se dirige, simbolizam o povo de Israel que não quis aceitar a mensagem de Cristo
O aroma e o peito do esposo são melhores do que os perfumes e o vinho da lei e dos profetas — páginas 79 e seguintes
O esposo oferece à esposa objetos de ouro, enquanto os profetas só podiam oferecer-lhe objetos de material semelhante ao ouro com bordados de prata — páginas 172 e seguintes
Para Orígenes, a Igreja não começou com Cristo e os apóstolos, mas existe desde sempre, desde o começo do mundo, e viveu sempre na espera de Cristo
A chegada de Cristo na carne e sua união com a Igreja significou a passagem da idade infantil à idade adulta, da imperfeição da lei à perfeição da graça
O tema fundamental da interpretação psicológica é a distinção entre os simples iniciantes e os perfeitos, introduzida não teoricamente mas para ressaltar o empenho de cada cristão em progredir continuamente rumo à união com Cristo, e dá lugar a aberturas místicas de grande poder de sugestão que alcançariam enorme êxito posterior.
Os temas dos sentidos espirituais, da ferida de amor e dos desponsórios místicos — união da alma com o Logos divino — são as grandes contribuições místicas desse filão interpretativo
As donzelas que cercam a esposa representam almas ainda imperfeitas que correm atrás do aroma do perfume do esposo mas ainda não conseguiram reunir-se com ele — páginas 92 e seguintes
As donzelas ainda estão na fase de adesão ao Cristo encarnado, enquanto a esposa já conseguiu aderir à divindade do Logos — página 101
A esposa simboliza um estádio de progresso muito mais avançado — a perfeição —, mas caracterizado por estado de tensão dinâmica e extrema mutabilidade
Mesmo a alma mais avançada pode perder seu estado privilegiado se não permanecer bem atenta e não chegar a conhecer-se a si mesma — referência a Cant. 1,8, páginas 147 e seguintes
A alma perfeita deve estar sempre disponível para o progresso das outras almas: a esposa corre atrás do perfume do esposo seja porque ela mesma talvez precise progredir, seja porque deve ajudar as donzelas — as almas menos perfeitas — em sua corrida — página 92
Os comentários escriturísticos de Orígenes, pela sua grande extensão habitual, são frequentemente dispersos e refletem a intenção de ensinamento com tudo o que isso comporta de improvisado e alternativo, pertencendo a um gênero literário sui generis — a literatura escolástica bíblica — com sua própria elocutio, e exibindo contínuas digressões, ampliações anômalas e repetições que evocam a viva voz do mestre na escola.
O termo elocutio — do latim, maneira de expressão — designa o estilo próprio de um gênero literário
As digressões e repetições características dos comentários origenianos revelam a intenção didática e o contato com o ambiente vivo do ensino
No Comentário ao Cântico, embora presentes as características dispersivas dos comentários origenianos, sobressaem contextos em que o exegeta se detém para desenvolver a fundo pontos particulares, como a interpretação da esposa negra e bela, as raposas pequenas e as compilações sobre as gradações do amor e o conhecimento de si mesmo.
Cant. 1,5 — “Sou negra e bela” — para o grego Orígenes os dois adjetivos entendidos literalmente não são conciliáveis, e por isso negro é explicado com particular atenção, trazendo à colação vários textos da Escritura em que se fala positivamente de homens e mulheres dessa cor — páginas 109 e seguintes
Cant. 2,15 — a interpretação das pequenas raposas recebe tratamento análogo — páginas 278 e seguintes
Cant. 2,4 — amplas compilações sobre as gradações do amor — páginas 209 e seguintes
Cant. 1,8 — compilações sobre o conhecimento de si mesmo — páginas 147 e seguintes
A estrutura geral do Comentário ao Cântico é, apesar das descompensações, fundamentalmente homogênea e orgânica, articulada sistematicamente sobre os dois grandes temas tipológico e psicológico, o que determina uma unidade de tom dificilmente reconhecível em outra obra, conferindo à espiritualidade mística que permeia o conjunto um caráter de altíssima espiritualidade.
A reiteração devidamente variada dos mesmos motivos ao longo de toda a obra acentua particularmente o componente místico
O êxito da obra foi imenso: todos os comentadores posteriores do Cântico a tiveram muito presente, alguns se inspiraram nela de modo fundamental
Teodoreto entre os gregos e Gregório de Elvira entre os latinos preferiram a tipologia tradicional, sem poder subtrair-se à influência da interpretação psicológica
Na Idade Média, Bernardo de Claraval representa o ponto de referência central dessa tradição
Para além do âmbito exegético específico, o Comentário ao Cântico de Orígenes marcou um ponto fundamental na história da mística ocidental, chegando até Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz