Orígenes — Comentários ao Cântico dos Cânticos

  1. O epitalâmio escrito por Salomão é um drama onde a noiva, representando a alma ou a Igreja, arde de amor celestial por seu esposo, o Verbo de Deus, e vários personagens, incluindo as companheiras da esposa e os amigos do esposo, intervêm na trama, assim como numa peça teatral.
  2. As palavras do Cântico dos Cânticos são alimento sólido próprio de adultos espirituais, não devendo ser lidas por aqueles que ainda são crianças na fé e se alimentam de leite, pois não as compreenderiam.
  3. O leitor carnal corre grande perigo ao ler este livro, pois pode desviar as expressões de amor para desejos carnais; por isso, aconselha-se que apenas os maduros na fé o leiam, assim como os hebreus só o permitiam aos adultos.
  4. Antes de discutir o conteúdo do livro, é necessário expor breves considerações sobre a natureza do amor, a ordem dos livros de Salomão, o título “Cântico dos Cânticos” e a forma dramática da obra.
  5. Os sábios gregos investigaram o amor verdadeiro e escreveram diálogos e banquetes sobre o tema, mas alguns homens carnais corromperam esses ensinamentos para fins viciosos, o que demonstra o perigo de tratar do amor entre os inexperientes.
  6. Para evitar interpretações carnais do que foi escrito espiritualmente, é preciso estender as mãos a Deus em oração, para que Ele conceda sã inteligência das Escrituras e edifique a castidade conforme a natureza do amor.
  7. Moisés escreveu sobre a criação de dois homens (interior e exterior), e o apóstolo Paulo confirmou que em cada homem existe um homem interior que se renova e um exterior que se corrompe, mesmo nos santos.
  8. As Escrituras usam os mesmos nomes para os membros do homem exterior e as faculdades do homem interior, como exemplificado pelas designações de “crianças”, “jovens” e “pais” segundo a idade da alma, e termos como “olhos”, “ouvidos” e “pés” aplicados ao espírito.
  9. O homem interior tem comida e bebida próprias (o pão vivo e a água que sacia a sede eterna), enquanto o homem exterior se alimenta de coisas corruptíveis, e a semelhança de vocábulos não deve levar a interpretações literais grosseiras.
  10. Existe um amor carnal que semeia na carne e um amor espiritual que semeia no espírito; o amor celestial move a alma contemplativa, que se enamora da beleza do Verbo de Deus, mas a alma pode cair em amor adúltero por espíritos perversos.
  11. A Escritura divina, para evitar escândalo, muitas vezes substitui a palavra “desejo” (eros) por “amor” (ágape), como nos exemplos de Isaac amando Rebeca, Jacó amando Raquel e Amnon amando Tamar, usando o termo mais decoroso.
  12. O amor é chamado de desejo em relação à sabedoria, como nos Provérbios e na Sabedoria de Salomão, e no Cântico dos Cânticos a esposa declara estar “ferida de amor”, mostrando que os termos são intercambiáveis nas Escrituras.
  13. Deus é amor, conforme escreveu João, e o Filho também é amor; assim, o amor divino, quando habita em alguém, não ama nada terreno ou corruptível, mas exige que se ame a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo.
  14. O amor de Deus sempre tende para Deus e para o próximo, e o nome “amor” aplica-se primeiramente a Deus, depois ao próximo (em sentido derivado) e impropriamente às coisas corruptíveis; a natureza humana não pode deixar de amar algo, mas deve ordenar esse amor a Deus e às virtudes.
  15. O amor perfeito resume toda a lei e os profetas, pois quem ama a Deus com todo o coração não comete adultério, nem mata, nem rouba; esse amor faz suportar todas as coisas e nunca decai, como exemplificado pelo amor de Jacó por Raquel e pelo amor de Paulo.
  16. O Cântico dos Cânticos trata do amor pelo qual a alma bem-aventurada arde pelo Verbo de Deus, e a Igreja se une a Cristo, seu esposo celestial; esse amor é conhecido apenas pelo Filho e pelo Espírito Santo, que o revela às almas dignas.
  17. Os três livros de Salomão correspondem às três ciências gerais: Provérbios ensina a moral (ética), Eclesiastes ensina a natural (física) e o Cântico dos Cântares ensina a contemplativa (teórica), seguindo uma ordem lógica de purificação, discernimento e união com Deus.
  18. Salomão também considerou a lógica no início de Provérbios, distinguindo ciência, sabedoria, disciplina, prudência e figuras de linguagem, para que os simples não fossem enganados por sofismas.
  19. Quem deseja a sabedoria deve começar pela instrução moral (Provérbios), depois passar ao conhecimento da natureza e à distinção entre o vão e o eterno (Eclesiastes) e, finalmente, à contemplação do divino pelo amor (Cântico dos Cântares).
  20. Abraão, Isaac e Jacó prefiguram as três filosofias: Abraão a moral (obediência), Isaac a natural (escavar poços, investigar a natureza) e Jacó a contemplativa (visão de Deus e dos anjos).
  21. O título “Cântico dos Cântares” indica uma superioridade semelhante a “Santo dos Santos” e “séculos dos séculos”; este é o cântico perfeito do próprio Esposo, preferível aos cânticos anteriores da lei e dos profetas, que eram para a esposa ainda criança.
  22. O primeiro cântico foi cantado por Moisés e Israel após a travessia do Mar Vermelho; o segundo, no deserto, após chegar ao poço cavado pelos príncipes; o terceiro, no Deuteronômio, convocando o céu e a terra; o quarto, por Débora e Baraq após a vitória; o quinto, por Davi após ser livrado de seus inimigos; o sexto, por Asafe e seus irmãos para louvar ao Senhor.
  23. O Cântico dos Cânticos ocupa o sétimo lugar entre esses cânticos, mas se incluídos os cânticos de Isaías e os quinze Cânticos das Subidas dos Salmos, ele continua sendo o mais excelente, pois a esposa chega ao tálamo do esposo.
  24. Nos títulos dos livros, Salomão é chamado “filho de Davi, rei de Israel” em Provérbios; “Eclesiastes, filho de Davi, rei de Israel em Jerusalém” em Eclesiastes; e apenas “Cântico dos Cântares, que é de Salomão” no Cântico, para indicar a perfeição onde não há mais noção carnal.
  25. Cristo é o verdadeiro Salomão (pacífico) e Eclesiastes (que congrega a Igreja); nos Provérbios reina em Israel (fé), no Eclesiastes reina em Jerusalém (Igreja celestial) e no Cântico é simplesmente Salomão, quando todo o reino for entregue a Deus Pai.
  26. Alguns interpretam o título como “um dos cânticos de Salomão” entre cinco mil, mas a Igreja só recebeu este como canônico; a expressão “Cantar dos Cântares, que é de Salomão” indica que este cântico singular pertence a Salomão, não sendo apenas um entre muitos.
  27. A esposa, no drama, após receber os dotes e presentes do esposo, mas vendo-se demorada, ora ao Pai pedindo que ele a beije com os beijos de sua boca, ou seja, que ele mesmo venha pessoalmente em vez de enviar mensageiros.
  28. A Igreja, como esposa de Cristo, possuindo os dotes da lei e dos profetas, anseia pela vinda pessoal do Esposo para que ele a beije com os beijos de sua boca, infundindo nela suas próprias palavras, em vez de falar por meio de anjos e profetas.
  29. A alma perfeita, dotada da lei natural, da razão e do livre-arbítrio, roga ao Pai que o próprio Verbo de Deus a beije com os beijos de sua boca, ou seja, que ilumine sua mente pura com pensamentos divinos, sem a mediação de mestres.
  30. Os beijos dados em plural significam cada iluminação de pensamento obscuro que o Verbo de Deus concede à alma perfeita, sendo o beijo mais verdadeiro e santo a revelação direta do Esposo à esposa, imagem do que ocorre nos mistérios celebrados na igreja.
  31. Os peitos do Esposo, melhores que o vinho, representam a parte principal do seu coração, onde se escondem os tesouros da sabedoria e da ciência, cuja doutrina supera a antiga doutrina da lei e dos profetas, comparada ao vinho.
  32. O vinho antigo, que alegrava a esposa antes da vinda do Esposo, simboliza as doutrinas da lei e dos profetas; os peitos do Esposo, porém, oferecem uma doutrina muito mais perfeita, comparável ao vinho novo e superior que Jesus fez nas bodas de Caná.
  33. Os perfumes do Esposo, superiores a todos os aromas, representam as palavras da lei e dos profetas, que eram aromas preparatórios; o perfume divino de Cristo, ungido pelo Espírito Santo, é incomparavelmente mais suave e celestial, como o óleo de alegria com que Deus o ungiu.
  34. O nome do Esposo, tornado perfume derramado por sua aniquilação ao assumir a condição de servo, fez com que as donzelas (almas em crescimento) o amassem e o atraíssem para si, correndo ao olor de seus perfumes em busca da união com ele.
  35. As donzelas, que representam as almas ainda em progresso, atraem Cristo pela fé e correm ao olor de seus perfumes, enquanto a esposa perfeita já o ama pela plenitude mesma de seus perfumes, não apenas pelo nome derramado.
  36. O rei introduziu a esposa em sua câmara do tesouro, que significa o sentido secreto e recôndito da sabedoria divina, onde estão ocultos os tesouros da ciência e que nem o olho viu nem o ouvido ouviu.
  37. As donzelas, que correm em pos do Esposo cada qual segundo suas forças, exultam e se alegram nele, prometendo amar os seus peitos (a doutrina espiritual perfeita) mais do que o vinho (as doutrinas comuns da lei e dos profetas).
  38. A equidade, isto é, a justiça e a retidão que guardam os mandamentos, é que ama verdadeiramente o Esposo, pois onde há iniquidade não pode haver o amor perfeito a Cristo, que é a própria substância das virtudes.