7ª CENTÚRIA SOBRE TEOLOGIA

Resumo dos parágrafos

  1. A razão segundo a natureza eleva pela virtude quem pratica, o intelecto conduz pela contemplação quem busca conhecimento, e a paixão contra a razão rebaixa à percepção sensível quem negligencia os mandamentos.
  2. A virtude é o estado estável e impassível em relação ao bem, marcado pela impressão de Deus, enquanto o conhecimento atual de Deus transforma o conhecedor segundo o Espírito.
  3. Cada criatura tem na razão sua origem, na busca da Causa sua norma e na imitação da Causa sua medida, de modo que o desejo que excede ou contraria essa medida não alcança Deus.
  4. O intelecto elevado a Deus abandona toda razão dos seres e permanece em uma ignorância superior, pois contempla somente Deus de modo inexprimível.
  5. A boria nasce da composição de soberba e vanglória, negando Deus como causa da virtude e deformando a natureza e a virtude.
  6. A soberba nega Deus como origem da natureza e da virtude, a vanglória divide a natureza, e a boria reúne ambas em uma ignorância voluntária da igualdade natural de honra.
  7. A boria despreza Deus e aliena-se da natureza, blasfemando contra a providência e deformando pelo abuso a beleza natural.
  8. O vento ardente significa tanto as tentações quanto o abandono divino que priva dos carismas, enquanto a afinidade espiritual solta a vontade da carne e a conduz a Deus.
  9. A lei natural persuade todos a socorrer quem precisa e a fazer aos outros aquilo que se deseja receber, desde que a razão não seja dominada pela percepção sensível.
  10. A lei natural harmoniza as relações voluntárias de todos, e a lei escrita educa pelo temor até transformar a justiça em hábito e produzir amor recíproco.
  11. A lei escrita impede a injustiça pelo temor, acostuma à justiça e gera, com o tempo, uma disposição amorosa para o bem.
  12. A lei da graça ensina a imitar Deus, que por amor assumiu a condição humana e deificou a humanidade, chamando cada um a cuidar do outro mais do que de si mesmo.
  13. A lei da natureza submete a percepção sensível à razão, a lei escrita acrescenta o desejo espiritual que une os semelhantes, e a lei da graça transforma a natureza para a deificação.
  14. Considerar o próximo como a si mesmo corresponde ao cuidado por sua existência, amá-lo como a si mesmo corresponde ao cuidado por seu bem, e amá-lo mais que a si mesmo pertence à lei da graça.
  15. Quem resiste aos pretextos corporais do prazer aprende a providência que limita as paixões, e quem aceita as dores corporais aprende o juízo que purifica pelas penas involuntárias.
  16. O profeta entristecido pela tenda e pela aboboreira mostra a preferência humana pela carne e pelo prazer, enquanto Deus se ocupa daquilo que verdadeiramente existe e ama.
  17. A rigorosa ciência das palavras do Espírito é revelada apenas aos dignos que purificaram o intelecto pelas virtudes e o tornaram espelho limpo para a impressão das coisas divinas.
  18. O intelecto formado pela ciência no Espírito experimenta as coisas divinas por graça e participação, enquanto o simples aprendizado não concede o hábito verdadeiro do conhecimento.
  19. O intelecto purificado pelas virtudes recebe delas suas razões e assume forma pela ciência em Espírito, enquanto as paixões o deformam pela ignorância.
  20. Quem decai da caridade divina é dominado pelo prazer da lei da carne e troca a vida espiritual, a virtude e o reino pela ignorância.
  21. Quem não penetra a beleza espiritual escondida na letra da lei gera apego voluntário ao mundo, porque permanece preso à expressão exterior da Escritura.
  22. A vergonha da boca significa a ocupação do intelecto com pensamentos de amor ao mundo e ao corpo, nascidos da leitura exterior e corpórea da lei.
  23. A vergonha da boca também significa o movimento do intelecto que dá forma sensível às paixões, fornecendo-lhes matéria adequada por meio da percepção.
  24. Quem interpreta sacrifícios, festas, sábados e luas novas como ordenações para o repouso do corpo cai sob as paixões e se torna incapaz de estimar o incorruptível.
  25. Quem toma a moleza corporal como mandamento divino transforma a gula em dom de Deus e gera costumes que contaminam os sentidos.
  26. A potência contemplativa da alma se perverte quando toma a moleza literal da lei como divina e, assim, gera paixões e abusos dos sentidos.
  27. Quem se dedica apenas ao culto corporal da lei não alcança as razões naturais dos seres, pois confunde símbolos legais com a própria natureza.
  28. Quem faz do ventre um deus e da vergonha uma glória adere às paixões como se fossem divinas e destrói as razões naturais pela mistura entre sensibilidade e matéria.
  29. Quem não crê que a Escritura é espiritual não percebe a própria carência de conhecimento e sofre a fome dos alimentos espirituais que fortalecem a alma.
  30. A verdadeira fome atinge a alma que conheceu a verdade e depois se escravizou às figuras da letra, alimentando a percepção sensível com fantasias passionais.
  31. Quem não se aproxima espiritualmente da Escritura rejeita a lei natural, a lei escrita e a lei da graça, ficando sem virtudes, sem sabedoria e sem esperança de deificação.
  32. O intelecto que vê em Cristo busca sempre o rosto do Senhor, isto é, a contemplação verdadeira e a ciência das coisas divinas segundo a virtude.
  33. O culto corporal da lei gera a matéria e a forma do pecado, enquanto a recepção espiritual da Escritura mata a ação pecaminosa, o consentimento e os hábitos sensuais.
  34. A lei espiritual e o intelecto superam o culto literal e matam, pela contemplação natural, o abuso passional dos sentidos em relação às coisas temporais.
  35. Sem contemplação natural, não se distingue entre os símbolos da lei e as realidades divinas, e a alma permanece presa ao corpo da Escritura em vez de alimentar-se de seu espírito.
  36. A interpretação sensível e corporal da Escritura deve ser destruída pela contemplação natural, pois ela produz paixões e apego às coisas temporais.
  37. A leitura meramente literal da lei ofende a verdade e impede a ascensão da alma das figuras à contemplação natural e às realidades divinas.
  38. O sentido corporal da Escritura é destruído quando a prática e a contemplação natural matam a relação voluptuosa da alma com a matéria passageira.
  39. A letra que mata deve ser morta pelo Espírito que vivifica, pois a corporeidade da lei não pode coexistir em ato com sua divindade espiritual.
  40. A letra destrói e o Espírito vivifica, de modo que a ação da letra não pode subsistir juntamente com a ação vivificante do Espírito.
  41. A circuncisão mística é a recisão total da relação passional do intelecto com os seres sujeitos à origem contingente, e não uma mutilação natural.
  42. A circuncisão corporal deve ser entendida como figura da retirada da disposição passional da alma, realizada pela ciência e pela força racional da prática.
  43. O sábado significa repouso das paixões, cessação do movimento intelectual em torno dos seres e passagem completa ao divino.
  44. A coroa de bondade é a fé pura adornada por doutrina e razões espirituais, ou o próprio Verbo que circunda o intelecto e o embeleza pela deificação.
  45. A continência é obra da providência porque purifica paixões voluntárias, e a paciência é obra do juízo porque resiste às tentações involuntárias.
  46. Deus não mandou honrar dias como criaturas, mas revelou simbolicamente que ele próprio é o sábado, a Páscoa e a Pentecostes.
  47. O mundo é lugar finito e o tempo é movimento circunscrito, mas a natureza unida à providência supera lugar e tempo.
  48. A natureza no mundo move-se temporalmente e muda, mas, ao chegar a Deus, recebe posição imóvel e movimento estável em torno da Causa primeira.
  49. A Pentecostes simboliza a unção imediata da providência, a união da natureza com o Verbo e a transformação em imortalidade.
  50. Os sacrifícios não consistem em sangue agradável a Deus, mas no abate das paixões e na oferta das potências naturais.
  51. Os sacrifícios espirituais incluem a morte das paixões, o esvaziamento da vida carnal e a oferta das potências naturais no fogo da graça.
  52. O sentido terrestre da Escritura destrói as razões naturais, mas os pensamentos segundo a natureza, fortalecidos pela lei do Espírito, matam as paixões.
  53. Quem segue racionalmente a filosofia das virtudes passa à interpretação espiritual da Escritura e cultua Deus na novidade do Espírito.
  54. Quando cessa a recepção corporal da Escritura, o intelecto passa pela natureza ao Espírito e realiza espiritualmente o que provoca ira quando feito corporalmente.
  55. O intelecto elevado segundo Deus destrói a operação das paixões, os pensamentos torpes e os abusos dos sentidos por meio da contemplação sublime.
  56. A graça do batismo e a obediência aos mandamentos aniquilam a força do pecado, isto é, o sentir da carne.
  57. A gula destrói os germes das virtudes, privando a temperança, a justiça e o amor ao homem de seus frutos.
  58. A gula, que elimina os germes divinos das virtudes, é morta pela graça da fé e pela obediência racional aos mandamentos.
  59. O Senhor é luz das gentes porque abre os olhos da mente pela verdadeira ciência e se oferece como modelo de vida virtuosa.
  60. Quem inveja e calunia o mais forte em virtude e conhecimento torna-se como Saul, sufocado por espírito maligno e incapaz de suportar a excelência alheia.
  61. O intelecto assaltado pelas coisas materiais deve recorrer ao Davi espiritual, cuja contemplação expulsa o espírito maligno e revela a razão divina da lei.
  62. Quem ama a salvação entrega-se à prática ou à contemplação, pois ninguém alcança salvação sem virtude e conhecimento.
  63. Deus torna-se alimento inteligível para os seres incorpóreos que o pensam, iluminando-os interiormente e nutrindo seu intelecto.
  64. O inteligível é alimento do inteligente, porque o que é pensado é superior e anterior àquele que pensa.
  65. Os efeitos contêm imagens receptivas de suas causas, embora não exista semelhança plena entre causas e efeitos.
  66. O intelecto compreende os inteligíveis por sua potência e une-se ao que está além dele por uma unidade transcendente à própria natureza intelectual.
  67. Quando compreende algo, o intelecto desce às intelecções, mas sua unidade o leva além de si mesmo rumo à contemplação de Deus.
  68. O ser inteligente compreende, ama, é arrebatado pelo objeto amado e se entrega inteiramente a ele, como ar iluminado pela luz ou ferro incandescido pelo fogo.
  69. Os efeitos não se assemelham precisamente às causas, mas contêm imagens delas, enquanto as causas preexistem essencialmente acima dos efeitos.
  70. Todas as coisas criadas são efeitos, e as causas que as produzem são as três hipóstases da santa Trindade, sem semelhança plena entre ambas.
  71. O homem, composto de alma e corpo, é delimitado pelas realidades sensíveis e inteligíveis, enquanto Deus permanece ilimitado e sem relação acima de tudo.
  72. Todo prazer proibido nasce da paixão mediante a percepção sensível e algum objeto sensível, enquanto os santos unem a carne a Deus pela virtude.
  73. Os santos atravessaram o mundo unindo a percepção ao intelecto pela razão e conduzindo o intelecto a Deus, até receberem a imagem do homem celeste.
  74. Deus e o homem são modelos um do outro, pois Deus se faz homem por amor e o homem se deifica por amor, manifestando Deus pelas virtudes.
  75. Quem mortificou o sentir carnal e rompeu a relação com a carne torna-se sem pai, sem mãe e sem genealogia, como Melquisedeque, por sua união com o Espírito.
  76. O fim da vida presente não é propriamente morte, mas libertação da morte e termo de todos os males para aqueles que se mortificaram voluntariamente.
  77. A natureza revela que o conhecimento da providência está semeado em nós, pois nas dificuldades repentinas somos impelidos espontaneamente à oração.
  78. O bem futuro chama-se desejo, o bem presente chama-se prazer, o mal futuro chama-se temor e o mal presente chama-se tristeza.
  79. Toda tristeza é por natureza um mal, embora o homem bom se entristeça por misericórdia e o contemplativo permaneça impassível por estar unido a Deus.
  80. Os santos atravessaram o século sem se prender às delícias presentes, abrindo o intelecto às razões superiores da bondade e do amor de Deus.
  81. A alma inteligente e racional possui intelecto, intelecção e conceito, sendo o conceito o termo que delimita a relação entre quem pensa e o pensado.
  82. A luz inteligível reúne os iluminados, retira-os da multiplicidade das opiniões e os conduz a uma ciência una, verdadeira e simples.
  83. O belo é uma só coisa com o bem, pois todos os seres participam deles e os desejam como aquilo que é admirável, amável e escolhido.
  84. O divino é chamado eros, caridade, amável e diletíssimo, pois produz amor nos seres capazes de amar e atrai seu desejo para si.
  85. O eros divino é extático porque faz os amantes pertencerem ao amado, como Paulo já não vive por si, mas por Cristo.
  86. A Causa de todas as coisas sai de si por suas providências, movida por sua bondade extática e por seu eros pelos seres.
  87. Deus é origem e pai da caridade e do eros, movendo todas as coisas para si por ser o próprio amável, desejável e escolhido.
  88. Deus seduz e move à união amorosa no Espírito, mediando a união de cada ser com ele segundo a razão própria de cada criatura.
  89. O movimento amoroso do bem procede do bem e retorna a ele sem princípio nem fim, explicando o movimento contínuo do desejo divino.
  90. O amor, em todos os níveis, é potência unitiva que move os superiores a prover os inferiores, os iguais à comunhão e os inferiores à conversão para o mais alto.
  91. A ciência une conhecedor e conhecido, enquanto a ignorância divide; por isso a verdadeira fé conserva o crente imóvel e imutável no fundamento da verdade.
  92. Os santos foram bons, compassivos e humildes, mantendo uma única disposição para com a humanidade e vencendo tentações voluntárias pela continência e involuntárias pela paciência.
  93. A prática perfeita das virtudes nasce da fé reta e do temor de Deus, a contemplação natural nasce da esperança e da inteligência, e a deificação nasce do amor perfeito.
  94. A filosofia prática purifica o intelecto das fantasias passionais, a contemplação natural o torna experiente nas razões dos seres, e a teologia mística o assemelha a Deus pela graça.
  95. Os elementos do mundo sensível correspondem às virtudes no mundo da mente: éter à prudência, ar à fortaleza, água à temperança e terra à justiça.
  96. Quando a carne se fortalece, a alma se obscurece pelas paixões; quando a alma resplandece em virtude e conhecimento, o homem exterior se enfraquece.
  97. O homem só poderia tornar-se filho de Deus e deus por graça mediante uma geração voluntária no Espírito, que o primeiro homem negligenciou ao preferir o prazer sensível.
  98. O primeiro homem deveria mover-se apenas para Deus, sem ser distraído por paixões, artes necessárias ou investigação da natureza.
  99. O primeiro homem não possuía mediação entre si e Deus, pois era impassível por graça, livre de necessidade e superior à consideração da natureza.
  100. Deus semeou em cada ser racional o conhecimento dele e concedeu aos homens desejo e eros naturais por si, para que buscassem na criação a verdade, a sabedoria e a ordem que conduzem a ele.