JUSTIÇA

Raimundo Lulio

Sobre a justiça.

A justiça é aquela virtude pela qual os homens dão a cada um o que lhe é devido. A justiça é uma das raízes da árvore e, acima de tudo, da igualdade; por essa razão, a bondade e a grandeza, etc., concedem a si mesmas, de forma igual e recíproca, suas semelhanças; e nessa igualdade de dar nasce e reside a justiça; pois é justo que a grandeza conceda sua semelhança à bondade, razão pela qual a bondade lhe concede a sua semelhança. E é bom que as semelhanças sejam igualmente concedidas, e isso é igualmente grande e duradouro, na medida em que concedem a si mesmas, de forma igual e recíproca, suas semelhanças; e por isso a justiça é boa, grande e duradoura na igualdade das doações que são feitas dessa maneira.

E nesta passagem percebe-se que a doação feita fora da igualdade não perdura; como quando Martinho se cansa de dar a Pedro coisas grandes, enquanto o próprio Pedro lhe dá apenas as pequenas.

E isso ocorre porque a grandeza e a pequenez são opostas, e nessa oposição a injustiça está em concordância com a injustiça, a qual provém de causas grandes e iguais e de pequenas e iguais. A justiça é a virtude pela qual a memória deve recordar com justiça, o entendimento deve compreender com justiça e a vontade deve amar com justiça. E por essa razão, a vontade ama naturalmente a justiça, para que, por meio dela, possa amar com justiça, e para que a memória possa recordar nela, e o entendimento compreender. Por causa da justiça, a vontade ama a lembrança justa na memória e o entendimento justo no entendimento; por isso, ela move os homens à lembrança, ao entendimento e ao amor justos. E o mesmo fazem a memória e o entendimento, para se revestirem mutuamente, juntamente com a vontade, do hábito da justiça, e para que todos os três defendam a justiça contra seus inimigos, que são a lembrança, o entendimento e o amor injustos; os quais se opõem à justiça quando os homens são ociosos e negligentes ao adotar as semelhanças das naturezas primitivas, e adotam suas dissemelhanças; como o homem mau, que adota injustamente a semelhança da malícia em vez da semelhança da verdade; e aquele que adota uma pequena semelhança da bondade em vez da grande semelhança da bondade. E assim também acontece com as outras coisas das quais nasce e se manifesta a injustiça, que é a privação da justiça.