A Short Treatise of Contemplation Drawn from The Book of Margery Kempe of Lynn, in KEMPE, Margery. The Book of Margery Kempe. Barry Windeatt. London: Penguin, 2005.
Ela desejou muitas vezes que sua cabeça fosse decepada com um machado sobre um cepo por amor de nosso Senhor Jesus. Então nosso Senhor Jesus disse em sua mente: “Eu te agradeço, filha, por estares disposta a morrer por meu amor; pois, tantas vezes quantas pensares assim, terás no céu a mesma recompensa como se tivesses sofrido a mesma morte, e, contudo, nenhum homem te matará.”
“Dou-te uma certeza interior de que, se me fosse possível sofrer dor novamente, como antes sofri, eu preferiria sofrer tanta dor quanto jamais sofri apenas por tua alma, a permitir que fosses separada de mim eternamente.”
“Filha, não se pode agradar melhor a Deus do que pensar continuamente em seu amor.” Então ela perguntou a nosso Senhor Jesus Cristo como melhor deveria amá-lo.
E nosso Senhor disse: “Sê consciente de tua maldade e pensa em minha bondade.”
“Filha, ainda que usasses uma cota de malha ou um cilício, jejuando a pão e água, e ainda que rezasses mil pai-nossos todos os dias, não me agradarias tanto quanto agradas quando estás em silêncio e me permites falar em tua alma.”
“Filha, rezar muitas orações é bom para aqueles que nada melhor podem fazer, e, contudo, isso não é perfeito. Mas é um bom caminho rumo à perfeição. Pois eu te digo, filha, aqueles que são grandes jejuadores e grandes praticantes de penitência querem que isso seja considerado a melhor vida. E aqueles que se entregam a muitas devoções gostariam que isso fosse a melhor vida. E aqueles que dão esmolas muito generosas gostariam que isso fosse considerado a melhor vida. E muitas vezes te disse, filha, que o pensar, o chorar e a alta contemplação são a melhor vida sobre a terra, e terás mais mérito no céu por um ano de pensamento em tua mente do que por cem anos de oração com tua boca; e, contudo, não acreditarás em mim, pois dirás muitas orações.”
“Filha, se soubesses quão doce é para mim teu amor, jamais farias outra coisa senão amar-me com todo o teu coração.”
“Filha, se quiseres estar elevada no céu comigo, conserva-me sempre em tua mente tanto quanto puderes, e não me esqueças em tuas refeições, mas pensa sempre que estou sentado em teu coração e conheço todo pensamento que há dentro dele, tanto bom quanto mau.”
“Filha, sofri muitas dores por teu amor; portanto tens grande motivo para amar-me muito bem, pois comprei teu amor por preço muito caro.”
“Caro Senhor, rogo-te que jamais me deixes ter outra alegria na terra senão lamentar e chorar por teu amor; pois penso, Senhor, que, ainda que eu estivesse no inferno, se ali pudesse chorar e lamentar por teu amor como faço aqui, o inferno não me afligiria, mas seria uma espécie de céu. Pois teu amor afasta todo tipo de temor de nosso inimigo espiritual; pois preferiria estar ali pelo tempo que quisesses e agradar-te, a estar neste mundo e desagradar-te; e, portanto, bom Senhor, como quiseres, assim seja.”
Ela sentiu grande admiração por nosso Senhor ter querido tornar-se homem e sofrer dores tão graves por ela, que era criatura tão ingrata para com ele. E então, com grande choro, perguntou a nosso Senhor Jesus como poderia melhor agradá-lo; e ele respondeu à sua alma, dizendo: “Filha, tem em mente tua maldade e pensa em minha bondade.” Então ela rezou estas palavras muitas e repetidas vezes: “Senhor, por tua bondade, tem misericórdia de minha grande maldade, tão certamente quanto eu jamais fui tão má quanto tu és bom, nem jamais o poderei ser, ainda que o quisesse. Pois és tão bom que não podes ser melhor, e por isso é grande maravilha que algum homem possa ser separado de ti sem fim.”
Quando ela via o crucifixo, ou se via que um homem tinha uma ferida, ou um animal, ou se um homem batia numa criança diante dela, ou golpeava um cavalo ou outro animal com um chicote, se ela o via ou ouvia, pensava ver nosso Senhor espancado e ferido, exatamente como o via no homem ou no animal.
Quanto mais ela crescia em amor e devoção, tanto mais crescia em tristeza e contrição, em rebaixamento e mansidão, em santo temor de nosso Senhor Jesus e em conhecimento de sua própria fragilidade. De modo que, se via alguma criatura sendo punida ou severamente castigada, pensava que ela era mais digna de ser castigada do que aquela criatura, por sua ingratidão para com Deus. Então chorava por seu próprio pecado e por compaixão daquela criatura.
“Em qualquer coisa que faças ou digas, filha, não podes agradar melhor a Deus do que crendo que ele te ama. Pois, se me fosse possível chorar contigo, eu choraria contigo, pela compaixão que tenho por ti.”
Nosso misericordioso Senhor Jesus Cristo atraiu esta criatura a seu amor e à recordação de sua Paixão, de tal modo que ela não podia suportar olhar para um leproso ou qualquer outro enfermo, especialmente se tivesse alguma ferida visível. Então chorava como se tivesse visto nosso Senhor Jesus com suas feridas sangrando; e assim o fazia à vista de sua alma, pois, mediante a contemplação do enfermo, sua mente era inteiramente arrebatada para nosso Senhor Jesus, de modo que sentia grande lamento e tristeza por não poder beijar os leprosos, por amor de nosso Senhor, quando os encontrava em seu caminho — o que era inteiramente contrário à sua inclinação nos anos de sua juventude e prosperidade, pois então os leprosos lhe eram extremamente repugnantes.
“Filha, desejaste em tua mente ter muitos sacerdotes na cidade de Lynn, que pudessem cantar e ler noite e dia para me servir, adorar-me e louvar-me, e agradecer-me pela bondade que te concedi na terra; e por isso, filha, prometo-te que terás no céu a mesma recompensa por tua boa vontade e por teus bons desejos como se os tivesses realizado de fato.”
“Filha, terás comigo no céu tão grande recompensa por teu bom serviço e pelas boas obras que realizaste em tua mente como se as tivesses realizado exteriormente com teus sentidos corporais.”
“E, filha, agradeço-te pela caridade que tens para com todos os homens e mulheres luxuriosos, pois rezas por eles e derramas muitas lágrimas por eles, desejando que eu os livre do pecado e seja tão gracioso para com eles como fui para com Maria Madalena, para que tenham tanta graça para me amar quanto Maria Madalena teve; e, sob essa condição, quererias que cada um deles tivesse vinte libras por ano para me amar e louvar. E, filha, essa grande caridade que tens para com eles em tua oração me agrada muito. E, filha, também te agradeço pela caridade que tens em tua oração quando rezas por todos os judeus e sarracenos, e por todos os povos pagãos, para que venham à fé cristã, a fim de que meu nome seja engrandecido neles. Além disso, filha, agradeço-te pela caridade geral que tens para com todos os povos que agora estão neste mundo e todos aqueles que hão de vir até o fim do mundo; pois quererias ser cortada tão miúda como carne para a panela por amor deles, para que eu, por tua morte, os salvasse todos da danação, se isso me agradasse. E, portanto, filha, por todas essas boas vontades e desejos terás altíssima recompensa no céu. Crê bem nisso e jamais duvides de modo algum.”
Ela disse: “Bom Senhor, eu aceitaria ser posta nua sobre uma grade por teu amor, para que todos os homens se espantassem de mim e me lançassem imundície e lama, e para que eu fosse arrastada de cidade em cidade todos os dias de minha vida, se com isso fosses agradado e nenhuma alma humana fosse impedida. Que tua vontade seja cumprida, e não a minha.”
“Filha, tantas vezes quantas disseres ou pensares: ‘Adorados sejam todos aqueles santos lugares em Jerusalém onde Cristo sofreu amarga dor e paixão’, terás a mesma remissão como se ali estivesses com tua presença corporal, tanto para ti mesma quanto para todos aqueles a quem quiseres concedê-la.”
“A mesma remissão que antes te foi concedida foi confirmada no dia de São Nicolau — isto é, remissão plenária — e ela não é concedida somente a ti, mas também a todos aqueles que creem, e a todos aqueles que crerão até o fim do mundo, que Deus te ama, e que agradecerão a Deus por ti. Se abandonarem seu pecado e tiverem pleno propósito de não voltar a ele, mas estiverem arrependidos e contritos pelo que fizeram e quiserem fazer por isso a devida penitência, então terão a mesma remissão que foi concedida a ti mesma; e essa é toda a remissão que há em Jerusalém, tal como te foi concedida quando estiveste em Ramleh.”
Naquele dia em que ela não sofria nenhuma tribulação por causa de nosso Senhor, não estava tão animada e alegre como naquele dia em que sofria tribulação.
“A paciência vale mais do que a realização de milagres.”
“Filha, agrada-me mais que sofras desprezo, humilhações, vergonhas e repreensões, injustiças e aflição, do que se tua cabeça fosse decepada três vezes por dia, todos os dias, durante sete anos.”
“Senhor, por causa de tua grande dor, tem misericórdia de minha pequena dor.”
Quando ela estava em grande aflição, nosso Senhor disse: “Filha, devo confortar-te, pois agora tens o verdadeiro caminho para o céu. Por este caminho vim eu e todos os meus discípulos, pois agora conhecerás muito melhor que tristeza e vergonha sofri por teu amor, e terás tanto mais compaixão quando pensares em minha Paixão.”
“Ó meu amado Senhor, deverias mostrar estas graças aos religiosos e aos sacerdotes.”
Nosso Senhor respondeu-lhe: “Não, não, filha, pois aquilo que mais amo eles não amam — e isso é vergonha, repreensões, desprezo e menosprezo por parte das pessoas —, e por isso não terão esta graça; pois, filha, aquele que teme a vergonha deste mundo não pode amar perfeitamente a Deus.”