Acredita-se que Isidoro começou a compor sua enciclopédia por volta de 615, movido por sua preocupação pastoral e pela convicção de que a língua manifesta o mundo, sendo fundamental para a compreensão e transmissão da mensagem de salvação.
A carta de dedicatória da obra, endereçada ao rei Sisebuto, indica que uma versão inicial, provavelmente mais curta, estava concluída antes de 621, ano da morte do monarca.
A correspondência com Braulio, bispo de Zaragoza, revela que este pediu os livros das Etimologias, que já circulavam de forma incompleta e com defeitos. Isidoro, após anos de insistência, enviou-lhe um exemplar, ainda sem a correção final, justificando-se por seu mau estado de saúde.
Braulio, em sua “Renotatio”, afirma que a obra ficou inconclusa com a morte de Isidoro, que a deixou sem divisão em livros, tendo ele próprio procedido a essa divisão. A insistência de Braulio parece decorrer do fato de a obra, composta a seu pedido, ter sido enviada ao rei antes que ele próprio pudesse obter uma cópia.
O final da obra é marcado por problemas, pois, apesar do envio a Braulio, a tradição afirma que ficou inacabada. A divisão em vinte livros, atribuída a Braulio, pode ter sido uma forma de alinhar a obra a modelos de Aulo Gélio e Nônio Marcelo, visando sua valorização.
O conteúdo atual das Etimologias está distribuído em vinte livros, que abrangem desde gramática e retórica até medicina, direito, teologia, geografia, agricultura, guerra e outros temas, conforme um esquema apresentado detalhadamente.
A análise da tradição manuscrita revela que a divisão original não era em vinte livros. Uma reconstrução proposta sugere que a primeira parte da obra se dividia em três livros, abrangendo as ciências profanas, a lei humana e divina, e os nomes de pessoas, o que conferiria à obra uma estrutura mais sólida que a divisão atual, embora não se saiba se essa estrutura remonta ao próprio Isidoro.
Existem também indícios de que certos livros, como o VII e o XIX, apresentam elementos que sugerem uma elaboração independente anterior, com prefácios que os introduzem como compêndios de outras obras, e o livro XIII é introduzido de forma a sugerir uma edição anterior isolada.
As Etimologias são uma enciclopédia que visa facilitar uma visão científica integral com base no conhecimento linguístico do mundo clássico. Braulio definiu a obra como apropriada aos métodos do saber mais profundo, assegurando que seu leitor frequente não ignoraria nenhum conhecimento.
A técnica de abreviação é central na obra, reduzindo o saber a fórmulas concentradas e memorizáveis, o que era um procedimento comum de vulgarização escolar. Isidoro aplica esse método por meio da leitura e seleção de passagens, agrupando materiais em uma espécie de fichário.
Os métodos de tratamento das fontes incluem a “elaboração”, em que Isidoro atribui importância relativa aos elementos extraídos de suas fontes; a “autocombinação”, que consiste em contaminar um texto com a sua própria fonte anterior; e a “acumulação”, que é a justaposição de definições diversas de diferentes escolas.
A apresentação final do texto é influenciada pela visão etimológica, onde o critério de ordenação da matéria é predominantemente didático-escolar, encadeando-se os temas por associação de palavras.
Apesar da vastidão da obra, nota-se uma falta de última mão em alguns capítulos, além de classificações cientificamente discutíveis e a ausência de uma ordem interna clara que distinga o fundamental do secundário.
A hipótese de que Isidoro contou com a ajuda de colaboradores, que teriam preparado parte dos materiais, surge para explicar os erros e falhas de compreensão presentes na obra, atribuíveis a uma revisão final que não foi realizada.
A difusão das Etimologias foi imensa, com mais de mil referências manuscritas entre os séculos VIII e XV. Existem duas grandes famílias de manuscritos: uma com texto mais curto, derivada da versão dedicada a Sisebuto, e outra com texto mais longo, a “recensão hispânica”, que inclui elementos de última hora.
A influência da obra foi imediata e profunda, sendo citada e utilizada por autores como Braulio, Eugênio de Toledo, Julião de Toledo, e, mais tarde, por Elipando de Toledo e Beato de Liébana. Na Península Ibérica, seu uso continuou em ambientes moçárabes.
Fora da Península, a obra alcançou grande sucesso na Gália a partir do século VII, sendo utilizada por Teodofredo de Corbie, e teve forte influência na literatura exegética insular entre os séculos VIII e IX. A difusão foi impulsionada por monges peregrinos e por compilações como o “Liber Glossarum” (ou Glossário de Ansileubo), que extraiu milhares de glosas da obra isidoriana.
A difusão no continente se deu por várias rotas, tanto marítimas diretas entre a Península Ibérica e a Irlanda quanto terrestres através da Gália. A partir do século IX, a obra já se encontrava em todos os centros culturais da Europa, e a preocupação dos eruditos em obter textos mais completos levou a frequentes contaminações entre diferentes famílias de manuscritos.