Isaac o sírio, Tratados Místicos
XLIX SOBRE A ESCURIDÃO OPACANTE QUE, DURANTE A SOLIDÃO, SE ABATE SOBRE AQUELES QUE PERCORREM O CAMINHO DO CONHECIMENTO
Nos momentos de obscuridade, nada é mais útil do que ajoelhar-se. E até mesmo o fato de tu não seres capaz de oferecer isso [a Deus] e de te apegares a isso é |um ato de guerra] por parte de Satanás. É teu dever lutar contra isso. Pois Satanás conhece a ajuda [proporcionada] pelo ato de ajoelhar-se; por isso, ele se esforça com toda a sua força para impedir que tu o ofereças. E quando estiveres prestes a prostrar-te, ele te perturbará. E mesmo que tu o venças e ajoelhes, ele te forçará a não perseverar nisso.
Mesmo que nossas emoções estejam frias e sombrias, devemos perseverar no ato de ajoelhar-nos. Mesmo que nosso coração esteja morto nesses momentos; mesmo que estejamos desprovidos de oração, de modo que não saibamos o que dizer, a ponto de nem mesmo palavras de súplica nos virem à mente — mesmo assim, devemos ser encontrados prostrados constantemente, mesmo que em silêncio.
Se precisamos de qualquer ajuda de Deus, mas permanecemos desprovidos dela, não a obtemos com razão, porque não nos aproximamos de Deus em oração com zelo e fervor, noite e dia, clamando a Ele em dor, pois esperamos que Ele nos conceda isso espontaneamente. Mas Ele dispõe de uma causa intermediária para que nos aproximemos Dele, deixando-nos em apuros. E, ao abster-Se de nos livrar, Ele produz nosso socorro ao fazer com que prolonguemos nossa permanência à Sua porta em oração.
Mas nós, quando coisas úteis nos chegam, ficamos atordoados e hesitantes, e nos entregamos ao desânimo, à aversão e à desolação, e ficamos mais frios do que a água. Diante de todos os males e tentações que te atingem, tanto do exterior quanto do interior, o caminho da oração se apresenta diante de ti. Prostra-te com o rosto no chão, mesmo que seja apenas por um dia e uma noite, e implora a Deus com um coração apaixonado. E Deus, que é misericordioso e bom, não hesitará em conceder consolo e alívio quando vir que tu O imploras na dor do teu coração, a menos que tu não peças da maneira [correta].
Durante toda a tua vida, deves agir assim. Ganharás e perderás. E então implorarás em dor, e Ele te concederá. E novamente Ele se afastará de ti — e então te depararás com algo que te fará pensar que chegou o fim de tudo. E quando Lhe pedires, na hora seguinte isso terá desaparecido. Assim foi determinado esse curso; não te desanimes.
Durante esse tempo de profunda escuridão que se abate sobre a alma, temos de estar atentos contra o desânimo. Escuta-me, ó meu irmão, luta contra [a inclinação] de deixar tua cela, como uma mulher em trabalho de parto contra suas dores, e como um homem que suporta torturas. Pois o inimigo se propõe, acima de tudo, a fazer com que deixes tua cela, sob o pretexto de não ser capaz de suportar, no momento da luta. E com todo o seu poder ele te obrigará a sair ao ar livre, para que, ao permanecer, tu não busques refúgio na adoração de joelhos. Muito, mais do que qualquer outra coisa, ele teme esse ato.