O interesse principal de Hermas, em toda a sua obra, concentra-se quase que exclusivamente na questão da penitência, sendo todas as demais informações fornecidas em função dela e consideradas secundárias.
Uma primeira teoria, amplamente aceita por algum tempo, sustentava que o batismo remetia os pecados anteriores, mas que a Igreja primitiva exigia uma pureza perfeita após o batismo, não havendo penitência para os pecados cometidos posteriormente, sendo esta a posição rigorista corrente entre os anos 100 e 140.
Segundo essa mesma teoria, o
Pastor de Hermas traria uma revelação celestial que afirmava a possibilidade de uma penitência pós-batismal, reagindo contra o rigorismo ambiente, mas essa penitência seria excepcional, com data fixa, funcionando como um jubileu, após o qual se retornaria ao rigorismo anterior até a Parusia iminente.
Essa teoria foi contestada em todos os seus pontos, principalmente por autores que consideram o rigorismo mencionado como um fantasma sem consistência e que interpretam a penitência de Hermas não como uma inovação, mas como uma simples admoestação para uma última penitência, tornada urgente pela proximidade da Parusia.
A posição mais adequada parece rejeitar ambas as teorias em sua forma pura, mas reconhece que a primeira contém mais elementos de verdade, especialmente porque o rigorismo existia em textos apócrifos e porque a mensagem de Hermas se torna incompreensível sem admitir que ele combatia essa corrente rigorista.
A penitência anunciada por Hermas configura-se como um jubileu excepcional, com data fixa e de caráter coletivo, pois textos como o da Visão III indicam que a construção da torre, que simboliza a Igreja, seria interrompida para permitir a todos a penitência antes de seu término iminente.
A doutrina de Hermas sobre a remissão dos pecados é incoerente, pois ora afirma explicitamente que até os apóstatas podem fazer penitência, ora parece negar-lhes esse benefício, sendo sua hesitação restrita ao pecado de apostasia-blasfêmia, sem conhecer os três pecados irremissíveis do montanismo.
A dificuldade em definir se a apostasia é irremissível por sua gravidade ou pela falta de disposição do pecador é evidenciada pela contradição nos textos, o que provavelmente reflete a existência de duas atitudes contemporâneas em Roma, com Hermas inclinando-se para a posição mais branda, mas tentando ocasionalmente satisfazer os rigoristas.
A remissão dos pecados é concedida unicamente por Deus, mas está condicionada ao arrependimento sincero, que deve ser acompanhado de uma expiação, embora o papel da Igreja como mediadora e detentora do poder de perdoar ou não seja claramente reconhecido por Hermas.
O
Pastor de Hermas exerceu uma influência considerável no mundo cristão, embora a data fixa para a penitência logo tenha sido suprimida, e a obra foi por muito tempo tida como inspirada, até ser declarada apócrifa pelo decreto gelasiano, após um período de hesitação e perda de crédito a partir do século IV.