A estrofe dedicada à Terra louva a “irmã nossa mãe Terra” como aquela que sustenta, nutre, produz frutos variados, flores coloridas e ervas.
A louvação de Francisco desce progressivamente das alturas do céu até a terra, transformando o Cântico do Sol em canto da realidade terrestre.
A expressão “nossa mãe Terra” retoma uma imagem arcaica da Terra Mãe, na qual a terra aparece como potência materna de sustentação, nutrição, fecundidade e beleza.
A terra não apenas alimenta seus filhos, mas também os envolve com flores, verdura e graça.
As flores e as ervas manifestam a dimensão estética da maternidade terrestre.
A Terra Mãe aparece como sorriso cósmico de beleza e fecundidade.
A novidade franciscana consiste em chamar a Terra simultaneamente de mãe e de irmã, pois ela sustenta a vida, mas permanece criatura dependente da mesma origem transcendente que todas as demais criaturas.
A Terra conserva para Francisco caráter hierofânico, pois sua maternidade manifesta uma fonte superior de vida e beleza, e a comunhão com ela torna-se comunhão com Deus por meio da própria terra.
A compreensão da imagem “irmã nossa mãe Terra” exige examinar o papel concreto da terra na vida religiosa de Francisco e nas experiências espirituais mais altas que ele viveu.
A experiência mística de Francisco desenvolveu-se em contato íntimo com a terra, especialmente por meio das permanências em cavernas, do sonho da árvore e do desejo final de morrer nu sobre a terra nua.
A vida de Francisco deve ser compreendida não apenas pelo eixo pitoresco da natureza, mas pelo eixo profundo da imaginação que busca, na matéria, o primitivo, o eterno e as raízes internas do ser.
Francisco amava a natureza, mas seu movimento essencial não era contemplar a superfície brilhante das coisas, e sim subir às alturas para procurar grutas, fendas e cavernas onde pudesse descer às profundezas.
A caverna possui ressonância materna e simboliza o retorno à Terra Mãe, pois entrar nela significa participar da vida profunda da terra e encontrar uma intimidade secreta contra as distrações exteriores.
A Terra Mãe remete a uma totalidade interior formada por origens, raízes inconscientes e estruturas psíquicas fundamentais, de modo que entrar na caverna significa enfrentar o mundo subterrâneo da alma, com seu tesouro e seu monstro.
A caverna é simultaneamente lugar de combate, morte e ressurreição, pois suas trevas abrem para um mundo interior oculto e tornam possível uma nova gestação espiritual.
As grandes experiências espirituais de Francisco, desde sua conversão até a estigmatização no Alverne, ocorreram na profundidade de grutas ou cavernas, como se precisassem dessa matriz cósmica para amadurecer.
A primeira experiência de conversão de Francisco, narrada por Celano, apresenta a caverna como lugar de segredo, oração, combate interior, descoberta de um tesouro espiritual e nascimento de uma nova orientação de vida.
Francisco levava um amigo a uma caverna próxima de Assis, falando-lhe de um imenso e precioso tesouro.
Na caverna, rezava secretamente ao
Pai e pedia que lhe mostrasse o caminho e a realização de sua vontade.
O combate interior era tão forte que ele voltava fatigado e irreconhecível.
A alegria recebida após a oração só podia ser expressa por enigmas e símbolos.
A renúncia à ida para a Apúlia e a referência à esposa mais bela simbolizavam uma nova vocação espiritual.
O relato de Celano reúne os grandes temas da caverna: o tesouro escondido, o enfrentamento solitário das profundezas, a luta, a morte simbólica e a descoberta da vocação verdadeira.
O combate travado na caverna ocorre no interior da alma de Francisco.
O tesouro oculto simboliza a vocação profunda ainda encoberta.
A caverna coloca a alma em contato com sua arqueologia pessoal e com a história arcaica da humanidade.
A exploração das profundezas, iluminada pelo Deus verdadeiro, revela aquilo que o ser humano é chamado a ser.
A simbólica da caverna culmina no renascimento do herói, pois Francisco sai dela como homem novo, orientado por um amor novo e capaz de buscar sua grandeza não fora de si, mas em sua própria pátria interior.
O símbolo da noiva conclui a primeira experiência subterrânea de Francisco, indicando a união da alma com sua parte mais profunda e sagrada.
A segunda experiência subterrânea de Francisco ocorre quando ele se esconde em São Damião por medo da fúria paterna, permanecendo um mês num refúgio escuro até sair fortalecido, alegre e decidido a enfrentar perseguições.
A cachette subterrânea de São Damião funciona primeiro como abrigo materno, depois como tumba simbólica e finalmente como lugar de renascimento espiritual, onde o retorno à Terra Mãe prepara uma existência superior.
As experiências subterrâneas marcaram profundamente Francisco, pois a caverna permaneceu associada à descoberta do tesouro precioso, à fascinação pelas profundezas da terra e à reconciliação com a Terra Mãe como irmã sagrada.
A louvação de “irmã nossa mãe Terra” celebra poeticamente a transfiguração da terra e da alma, pois Francisco vê as forças obscuras que sustentam a vida transformarem-se em tesouro eterno de luz e glória.
O episódio de Greccio mostra a terra como matriz do nascimento divino, pois Francisco encena a Natividade numa gruta e torna sensível o mistério de Deus nascendo nas profundezas da terra entre os animais.
A celebração de Greccio não é mero prodígio exterior, mas símbolo do nascimento interior do Menino eterno na alma reconciliada com suas raízes profundas e com sua humanidade total.
A espiritualidade franciscana rejeita a busca de Cristo sem a manjedoura, pois encontrar o
Filho de Deus exige passar pelos caminhos humildes da Encarnação e pelas raízes obscuras da condição humana.
O caminho espiritual de Francisco passa pela descida do Cristo às profundezas da terra, de modo que Deus nasce no ser humano assumindo-o por inteiro, inclusive em suas raízes cósmicas, vitais e psíquicas.
A relação de Francisco com a Terra Mãe manifesta-se também em sua vida onírica, especialmente no sonho da árvore gigantesca, bela e vigorosa, cuja copa ele toca e dobra até o solo.
O sonho da árvore pode relacionar-se ao encontro com Inocêncio III, mas possui sentido arquetípico mais profundo, pois a árvore simboliza cosmos, vida, juventude, imortalidade, sabedoria e acesso iniciático ao sagrado.
A ascensão da árvore simboliza uma nova nascimento, pois a árvore materna e cósmica conduz ao alto e permite penetrar no céu.
A árvore do sonho de Francisco ergue-se à beira do caminho como imagem fascinante de vida, beleza e poder, assumindo caráter hierofânico e relacionando-se com o destino profundo do sonhador.
O primeiro movimento do sonho é de aspiração à copa da árvore, na qual Francisco é elevado ao alto como quem busca uma nova nascimento na vida mais elevada, sob a mediação da Mater Ecclesia e do desejo de aprovação de sua forma de vida.
O segundo movimento do sonho inclina a copa até o solo, mostrando que a vocação de Francisco une a ascensão ao Altíssimo com a descida à Terra Mãe e reconcilia a totalidade humana com Deus.
O Cântico das Criaturas exprime essa coincidência entre a altura do espírito e a profundidade da alma, pois a louvação da Terra que sustenta e nutre indica que a transcendência passa pela humildade das raízes.
O desejo final de Francisco de ser estendido nu sobre a terra nua deve ser relacionado com a louvação da Terra Mãe, pois seu gesto de morte e seu cântico exprimem a mesma experiência simbólica.
Nos últimos dias, Francisco canta o Cântico do Sol, convoca as criaturas ao louvor e pede que, quando estiver morrendo, seja colocado nu sobre a terra nua por um tempo significativo após o último suspiro.
O desejo de morrer sobre a terra exprime a mesma inspiração fundamental da estrofe sobre a Terra, embora em linguagem simbólica distinta e situada no momento extremo da vida.
A morte de Francisco é vivida como celebração pascal, pois ele reparte pão, escuta o
Evangelho da última ceia e acolhe sua morte como passagem com Cristo ao
Pai.
A nudez sobre a terra indica, em primeiro lugar, identificação radical com Cristo pobre, sofredor e nu na cruz, consumando a pobreza inaugurada desde sua conversão.
A interpretação cristológica do gesto não esgota seu sentido, pois a vontade de tocar diretamente a terra no momento da morte também expressa adesão profunda à Terra Mãe.
O gesto de Francisco une comunhão com Cristo e rito arcaico de comunhão com a terra, retomando inconscientemente práticas antigas que colocavam recém-nascidos e moribundos em contato direto com o solo.
O sentido do rito terrestre é recolocar o ser humano numa totalidade que o ultrapassa, sustenta e nutre, abrindo-o a uma vida nova e universal por meio da comunhão com a Terra Mãe.
Em Francisco, o rito arcaico é espontaneamente associado à união com Cristo, pois a adesão amorosa a
Jesus passa pela comunhão fraterna com “irmã nossa mãe Terra”.
A alegria final de Francisco nasce da união entre o canto do sol e da terra, podendo ser aproximada da experiência de Aliocha em Os Irmãos Karamázov, quando o mistério da terra se une ao mistério das estrelas.
A cena de Aliocha diante da terra ajuda a compreender a alegria sobrenatural de Francisco morrendo junto à Terra Mãe, pois nela a terra é beijada com lágrimas de júbilo, perdão e comunhão cósmica.
A palavra evangélica sobre o grão que cai na terra e morre não destrói a busca natural da alma por seu sagrado, mas assume o caminho obscuro do mito para conduzir o ser humano à sua verdade plena.
A descida à terra e a morte ao eu não são fins em si mesmas, mas ponto de partida para um renascimento evangélico num universo de comunhão.
A conversão evangélica retoma a intenção profunda do mito, mas lhe dá sentido novo, pois a celebração franciscana da Terra Mãe não retorna ao paganismo, e sim a uma aurora iluminada pelo Espírito vivificante.
A celebração da Terra Mãe significa reconciliação do sobrenatural, do natural e do humano, e por isso se acompanha de uma vontade imensa de perdão.
A estrofe do perdão segue logicamente a louvação da Terra Mãe, pois a terra já não aparece como realidade ancestral dilacerada, mas como terra reconciliada, fraterna e visitada pela esperança da glória.
Francisco é apresentado como ressuscitado porque aceita a Encarnação, assume todo o peso da terra em sua vida espiritual e acolhe a própria necessidade como irmã entre as criaturas.