A primeira estrofe do Cântico do Sol apresenta a louvação inacessível ao Altíssimo, todo-poderoso e bom Senhor, a quem pertencem louvor, glória, honra e bênção, embora nenhum ser humano seja digno de nomeá-lo.
A primeira estrofe, inspirada numa doxologia do Apocalipse de São João, constitui um canto à transcendência divina inteiramente dominado pela imagem do Altíssimo.
O Altíssimo, também chamado todo-poderoso e bom Senhor, aparece como o polo supremo da alma, mobilizando e orientando todas as energias de adoração e louvor para o Bem total e absoluto.
Essa visão é familiar nos escritos de Francisco, especialmente nas Laudes recitadas nas horas canônicas, nas quais Deus é reconhecido como digno de honra, louvor e glória, soberano bem e único bem.
A homenagem à transcendência divina manifesta o interesse fundamental da alma pelo Altíssimo, isto é, por aquele Bem único ao qual ela aspira e em direção ao qual deseja chegar.
A primeira estrofe do Cântico do Sol traduz o movimento ascensional da alma de Francisco em direção ao objeto supremo de seu desejo, mas esse impulso encontra imediatamente a consciência profunda de que nenhum ser humano é digno de nomear o mistério de Deus.
O verso final da primeira estrofe exprime uma limite absoluto, vivido e aceito, pois Deus permanece como mistério próprio que escapa ao ser humano e não pode ser situado no mesmo plano da existência humana.
A alma experimenta uma espécie de flutuação entre céu e terra, pois não pode renunciar ao desejo de alcançar o Altíssimo, mas também não pode pretender realizá-lo por posse, nomeação ou apropriação.
A aparente contradição entre o impulso da alma para Deus e a consciência da inacessibilidade divina desaparece quando se percebe que Francisco recusa a tentação espiritual de identificar-se com Deus ou apropriar-se do divino.
A vontade de possuir ultrapassa os bens materiais e exteriores, alcançando também o desejo íntimo de apropriação espiritual, no qual a alma pode transformar a busca do Altíssimo em vontade luciferina de autocriar-se e ser como Deus.
O pecado de origem é interpretado como apropriação da própria vontade e orgulho do bem realizado.
A tentação de ser como Deus consiste em depender apenas de si mesmo e escapar da condição criatural.
A apropriação do divino transforma a aspiração mais alta em projeção do próprio eu.
A invocação de Nietzsche ao céu profundo revela a profundidade ambígua dessa tentação de altura.
Francisco percebeu que até o ser humano religioso pode ser conduzido pela paixão de possuir o infinito sob a aparência do ideal mais puro e elevado.
Nos escritos de Francisco, a luta contra a possessão espiritual aparece no apelo constante para que os irmãos não se apropriem do bem realizado por Deus neles, mas devolvam toda honra ao Altíssimo como fonte de tudo.
Francisco conhecia a força inconsciente da vontade possessiva e procurou desmascará-la em seus irmãos, indicando como sinais seguros dela a perturbação, a irritação, a impaciência e a agressividade diante das contrariedades.
A análise franciscana revela ao mesmo tempo grande acuidade espiritual e preocupação essencial com a purificação radical da aspiração humana ao divino, pois o Deus nomeado pela vontade de posse pode ser apenas outro nome do próprio desejo de poder.
Francisco abriu-se a uma purificação cada vez mais profunda do desejo do divino, pois sua aspiração juvenil à grandeza e à glória foi transformada progressivamente numa relação com Deus cada vez menos possessiva.
A pobreza espiritual de Francisco consistiu em renunciar não ao chamado do Altíssimo, mas à posse do Altíssimo, permanecendo disponível ao céu mais alto e reconhecendo-se indigno de nomear Deus.
A primeira estrofe do Cântico do Sol concentra todo o desejo ascensional da alma em louvação única, mas esse desejo aparece purificado de ambiguidade e de vontade possessiva pela pobreza radical diante de Deus.
A mais alta visada da alma e a consciência mais viva da inacessibilidade divina coexistem serenamente na primeira estrofe, pois o louvor ao Altíssimo nasce justamente da aceitação de que somente a ele pertencem louvor, glória e honra, enquanto nenhum ser humano é digno de nomeá-lo.
O consentimento profundo à transcendência de Deus governa todo o Cântico do Sol e abre o caminho da louvação das criaturas como caminho de humildade e encarnação, à imitação do
Filho altíssimo de Deus.