A estrofe dedicada ao irmão Fogo louva a criatura que ilumina a noite e aparece como bela, alegre, indomável e forte.
O Cântico das Criaturas manifesta uma preferência nítida pelas imagens de luz, pois o sol, a lua, as estrelas, a água e o fogo aparecem como matérias radiantes que materializam os sonhos poéticos de Francisco.
Francisco amava o fogo com predileção entre as criaturas inferiores e insensíveis, e sua familiaridade com ele aparece de modo extremo no momento em que aceita a cauterização sem anestesia, tratando o fogo como irmão querido e pedindo-lhe cortesia em nome do Senhor que o criou.
A afeição de Francisco pelo fogo não é apenas simbólica, mas manifesta uma proximidade concreta e antiga.
Chesterton interpreta essa atitude como rara capacidade de viver poeticamente o próprio poema em situação de dor.
A comparação com Blake e o tigre sublinha que Francisco não hesita diante da criatura ardente, mas a saúda fraternalmente.
Francisco aproxima-se do fogo como amante e companheiro, chegando a impedir que fosse apagado quando incendiou suas roupas, porque reconhecia nele uma presença sagrada a ser respeitada.
O amor de Francisco pelo fogo exige esclarecimento além das razões místicas e teológicas, pois a explicação de Celano sobre a chama como símbolo da luz eterna não esgota a experiência poética, afetiva e imaginária que se exprime no Cântico.
Francisco valoriza o fogo antes de tudo como belo, alegre, vigoroso e vivo, transformando a chama que ilumina a noite numa presença fraterna, íntima e dinâmica, ligada a ele como por laços de sangue.
A imagem sonhada do fogo coloca Francisco em estado de louvação, pois a esplendorosa exuberância da chama abre sua alma ao Altíssimo e faz da experiência poética uma experiência religiosa.
O respeito absoluto de Francisco pelo fogo nasce da dimensão onírica, poética e hierofânica dessa imagem fraterna, que ultrapassa o fenômeno natural e se torna linguagem simbólica de força e luz na noite da alma.
O fogo possui ressonância profunda no ser humano porque não é apenas realidade exterior, mas símbolo da libido, da potência ardente da vida, do desejo, do apego, do amor e também do ódio.
A imagem do fogo reconduz inconscientemente ao começo da vida, ao lar inicial, ao calor materno e às primeiras impressões de intimidade, união e bem-estar.
O sonho do fogo pode atingir uma profundidade coletiva e arcaica, pois remete à humanidade primordial, aos primeiros fogos do mundo e a uma dimensão sobre-humana, mítica e transcendente.
A imagem hierofânica do fogo atravessa a
Bíblia e muitas religiões, associando-se à presença divina, às teofanias, ao fogo de Javé, ao Cristo que traz fogo à terra e à visão apocalíptica do
Filho do Homem.
O engrandecimento mítico do fogo nasce de um centro íntimo de energia psíquica, no qual a chama simboliza uma potência viva, criadora e expansiva que deseja unir-se, comunicar-se e propagar-se.
A comunhão imaginativa com o fogo põe o ser humano em contato com Eros como força afetiva primeira da alma, desejo de viver plenamente em comunhão com tudo o que existe.
A imagem arquetípica do fogo é ambivalente, pois a potência vital de Eros pode elevar o ser humano à plenitude criadora ou degradar-se em paixão cega, caótica, destrutiva e infernal.
O fogo vivo pode ser fonte de vida, luz e criação.
O fogo desviado pode tornar-se serpente, dragão, chama apocalíptica e fogo interior de perdição.
O mesmo símbolo expressa destino íntimo, escolha espiritual e risco de destruição.
O ser humano não deve apagar nem possuir o fogo fundamental da vida, mas consentir humildemente à sua potência íntima, acolhendo Eros como força criadora orientada para a comunhão e não para a satisfação egoísta.
A celebração fraterna e religiosa do fogo faz a alma mergulhar nas origens obscuras da vida, mas permite que essas forças primeiras sejam transfiguradas em luz, alegria e encontro entre Eros e Ágape.
A imagem de irmão Fogo que irradia no universo de Francisco pode significar a linguagem simbólica de uma experiência singular em que Eros e Ágape se encontram no interior da alma.
A vida de Francisco revela uma potência amorosa transbordante, carismática e milagrosa, na qual amar significa doar-se, fecundar, libertar, conquistar e comungar com todas as criaturas e com seu Criador.
A capacidade franciscana de amar não provém de uma fonte puramente sobrenatural exterior à sua natureza, mas se enraíza em forças psíquicas e vitais profundas, anteriores ao pensamento e à vontade.
A juventude de Francisco já manifesta possibilidades extraordinárias de comunhão, entusiasmo amoroso, imaginação cavaleiresca e desejo de participação cósmica, como mostram seus sonhos de palácio, armas, beleza e conquista.
O sonho juvenil do palácio transforma a loja paterna em corte senhorial e revela que a vocação espiritual de Francisco ainda se exprime sob formas arcaicas de desejo, glória, amor cortês e aventura cavaleiresca.
A ordem para retornar ao lugar de nascimento indica que a conversão espiritual de Francisco começa como retorno profundo às origens interiores, às forças afetivas primeiras e às imagens fundamentais que sustentavam seus sonhos.
A conversão franciscana não rompe com as antigas imagens de desejo, cavalaria e amor, mas as purifica e reinterpreta, permitindo que delas surja uma nova vitalidade espiritual na qual Ágape e Eros se encontram.
A tradição cavaleiresca, a poesia amorosa e o movimento provençal fornecem a Francisco um dinamismo psíquico que, ao se espiritualizar e cristianizar, converte Eros em poder de amar estendido à natureza inteira.
A imagem viva do fogo que irradia no centro do universo franciscano reúne o amor singular de Francisco pelo fogo e a transformação da paixão em força invencível de luz.
O fogo amado por Francisco já não é violento, destrutivo ou temível, mas fogo fraterno, belo, alegre, forte e indomável, no qual a potência ardente da vida se purificou e se espiritualizou.
A relação secreta entre irmão Fogo e as forças afetivas profundas de Francisco é simbolicamente ilustrada por anedotas dos Fioretti, que expressam uma verdade psíquica e espiritual independentemente de sua verificabilidade histórica.
A primeira anedota dos Fioretti apresenta Francisco diante de uma mulher que o incita ao pecado, mas ele a conduz simbolicamente ao leito do fogo, onde o desejo selvagem é chamado a descer à profundidade verdadeira da vida e a ser purificado.
O grande fogo da anedota representa a profundidade íntima na qual Eros pode ser integrado sem repressão nem condenação, tornando-se força purificada, pacífica e não destrutiva na alma de Francisco.
A segunda anedota, situada em Santa Maria dos
Anjos, mostra Francisco, Clara e seus companheiros tomados por uma contemplação tão intensa que o convento parece arder como um braseiro divino.
A visão de Santa Maria dos
Anjos simboliza a profunda amizade espiritual entre Francisco e Clara, pois o fogo gigantesco que não queima representa o amor divino que une suas almas e ilumina também a comunidade.
O encontro entre Francisco e Clara realiza-se no mesmo fogo purificado que simboliza amor humano e divino, desejo elevado e vocação comum à humildade, ao despojamento e à realidade total em Cristo.
A imagem do irmão Fogo deve ser situada no movimento geral do Cântico das Criaturas, em que a alma desce às próprias raízes cósmicas e inconscientes para depois remontar à luz por meio dos símbolos.
O movimento começa na aspiração ao Altíssimo.
A alma se volta às criaturas por humildade e por desejo de comunhão.
As criaturas tornam-se símbolos da arqueologia pessoal e universal da alma.
A sucessão das imagens traduz uma descida às forças primeiras e uma subida à louvação.
A primeira imagem cósmica do Cântico, irmão Sol, simboliza união e plenitude, transfigurando as energias vitais da alma e introduzindo a reconciliação radical de si.
O irmão Fogo é análogo ao irmão Sol por seu brilho, energia e relação com o arquétipo divino, mas se distingue por iluminar a noite e por expressar a reconciliação da alma em sua travessia noturna.
O fogo do Cântico ilumina a noite da alma, pois Francisco, no fim da vida e após sofrimentos profundos, canta uma luz interior que purifica, esclarece e abrasa por meio do
Espírito Santo.
O amor de Francisco não deve ser imaginado como êxtase fácil ou sorriso interminável, mas como sofrimento austero, grave e ardente diante de Deus, do mundo, do pecado, do juízo e do tempo.
A visão do carro de fogo narrada por Celano esclarece o Cântico das Criaturas, pois a pequena comunidade vê um clarão semelhante ao sol atravessar a casa e reconhece nele a alma resplandecente de Francisco.
A visão do carro de fogo reúne os símbolos do fogo e do sol numa mesma travessia noturna, indicando que a luz percebida pela comunidade é também revelação da alma do pai espiritual.
A imagem do carro de fogo ou carro solar pertence ao fundo mítico da humanidade e reaparece em tradições como as de Mitra, Ezequiel, Elias e Faetonte, sempre associada à ascensão, à glória e ao perigo das forças cósmicas.
A visão do carro de fogo em Francisco possui valor arquetípico, pois exprime uma mensagem universal sobre a reconciliação entre natureza animal, forças obscuras, elemento luminoso e vocação divina.
A entrada do carro resplandecente pela pequena porta e a luz que se interioriza nos corações indicam que a visão não esmaga os frades, mas aumenta sua consciência e os faz participar da mesma luz.
A interpretação dos frades reconhece na visão o desenvolvimento natural da própria imagem, pois o mito do sol evolui para o mito do herói solar e a alma de Francisco aparece como centro luminoso de iniciação.
Os discípulos reconhecem em Francisco um símbolo sensível do que deveria cumprir-se neles, uma profecia de seu próprio devir espiritual sob a forma do novo Elias estabelecido por Deus como condutor de homens.
Francisco é mestre das almas porque sua contemplação das coisas visíveis é também diálogo com o invisível, educação do desejo e itinerário da alma em direção ao sagrado.
A interpretação do Cântico do Sol deve reconhecer que a visão estética das coisas é também linguagem da alma, poética das metamorfoses interiores e símbolo de uma experiência espiritual na qual a fusão afetiva com as criaturas humildes se une à mais alta ascensão.