A discussão sobre a autoria do Corpus Dionysiacum, embora tenha superado a identificação com o Areopagita, permanece em aberto quanto às hipóteses positivas sobre sua origem, sem que nenhuma se imponha com evidência absoluta.
Os argumentos para uma datação no século IV incluem o silêncio simétrico de
Basílio e
Dionísio sobre a operação do
Espírito Santo, a fórmula idêntica sobre distinções unidas e uniões distintas, e a contemporaneidade das alusões aos magos e ao mitraísmo.
A referência às alegorias materiais e “crapulosas” da Escritura, que
Dionísio aborda, distingue-se da discussão basiliana sobre os nomes negativos de Deus, como imortal e invisível.
A influência do Corpus, independentemente de sua origem, é considerada incontestável e vasta, tendo provocado reações que vão da tentativa de depreciar seu efeito sobre a tradição cristã à veneração que leva a fechar os olhos às evidências críticas.
A inserção do Corpus numa Biblioteca Filosófica justifica-se pela sua própria concepção de teosofia, uma sabedoria divina que não opõe razão e fé, mas as integra num sistema onde a filosofia é um dom que procede de Deus.
O autor não opõe a razão à fé, nem as justapõe, pois o objeto da iluminação cristã é uma teosofia, uma sabedoria aplicada às realidades divinas.
A sabedoria que vem de Deus é chamada de filosofia, e tanto a filosofia de Jó sob a Lei Antiga quanto a perfeita filosofia dos monges sob a Nova Aliança procedem de Deus.
A Carta IX distingue duas teologias: uma que busca a clareza por demonstração no visível, e outra que procede por símbolos no domínio do indicível, supondo uma iniciação divina.
A teologia é essencialmente mística e iniciática, baseada na Escritura como um conjunto de oráculos que revelam a Deus, e sua interpretação simbólica é necessária para evitar que os profanos a entendam em sentido carnal.
A teologia não se apresenta como discussão sistemática, mas como iniciação e revelação, sendo os teólogos como Isaías, Ezequiel, Paulo e João, mais reveladores que doutrinários.
A teologia, na consagração episcopal, é imposta sobre a cabeça do iniciado como símbolo da teofania, da palavra consagratória e da operação divina (teurgia).
O símbolo teológico deve ser decifrado para conduzir à gnose dos inteligíveis, pois o profano o interpretaria em sentido carnal, sendo essa a razão da regra do segredo.
Os judeus, sob a Lei, conheciam apenas a tradição textual, enquanto os
anjos, sob a Graça, estão plenamente à vontade no universo alegórico, e a hierarquia eclesiástica constitui um intermediário entre o texto e a alegoria.
A mística dionisiana não é subjetivista nem reservada a alguns privilegiados, mas consiste no desvendamento das alegorias por toda a ordem contemplativa, que inclui todo o povo santo, excluindo apenas pecadores e penitentes.
A teologia do Corpus articula-se em métodos afirmativo (catáfase) e negativo (apófase), que são transcendidos pela verdadeira Teologia Mística na “Ténèbre”, onde todas as oposições são superadas numa experiência extática.
Os Nomes Divinos e os tratados perdidos procedem por via afirmativa, multiplicando fórmulas inadequadas e imagens dessemelhantes para falar das potências de Deus.
A via negativa define a essência divina negando nomes, mas a verdadeira Teologia Mística está além das negações, na douta ignorância que será desenvolvida por São
Boaventura e
Nicolau de Cusa.
O ápice da ascensão, que conduz ao superessencial, ultrapassa as iniciações simbólicas, os ritos e o duplo movimento da catáfase e da apófase, na Ténèbre onde se transcendem as oposições do sim e do não.
A perfeição é um estado limite, e o monge, que unifica sua alma ao máximo, aproxima-se menos dificilmente da cimeira, mas ninguém a atinge plenamente, pois é Deus quem se diz invisível.
Embora o neo-platonismo de Jâmblico e Proclo seja uma influência clara, a concepção dionisiana da
Trindade é estritamente ortodoxa, evitando qualquer degradação das hipóstases e afirmando a criação voluntária.
Dionísio evita equívocos ao falar da Tríade e da Procissão, mantendo a perfeita igualdade das três Hipóstases, com a geração do
Filho e a espiração do Paracleto.
A criação voluntária é afirmada, embora o autor não pareça ter plena consciência da oposição radical entre emanação natural e criação contingente.
Dionísio se separa da tradição platônica sobre a preexistência e migração das almas, afirmando a união perpétua da alma com o corpo material.
A doutrina do mal como privação é desenvolvida longamente, ecoando o tratado de Proclo sobre a subsistência dos males, e a primazia do Belo e do Bem sobre o Ser é de inspiração platônica.
O conceito de amor (Erós) é central e universal, implicando uma ekstasis que faz sair de si mesmos tanto os amantes quanto o próprio Deus, sendo a união deificante seu caso extremo.
O Pseudo-
Dionísio prefere o termo Erós a Agapé, especialmente para Deus, para que ninguém tome as alegorias das “pornografias” bíblicas ao pé da letra.
O Erós divino é a fonte da efusão infinita e impulsiona Deus a produzir o universo, os superiores a guiar os inferiores e os inferiores a se elevarem.
A distinção dos três movimentos (direito, circular, helicoidal) provém provavelmente do comentário de Hermias sobre o Fedro.
A rígida estrutura hierárquica, que à primeira vista parece autoritária e teocrática, é neutralizada pela imagem dos raios do círculo que tocam igualmente o centro, e pela noção de que a posição de cada ser na hierarquia é determinada por sua capacidade de participar da Luz divina.
A analogia, para
Dionísio, significa “à medida das forças ou dos méritos de cada um”, e a hierarquia resulta da diferença de esforço dos seres para se aproximarem do Bem.
O selo não é culpado pelas diferenças nas impressões, mas a alteridade do participante é que torna as reproduções dessemelhantes.
O proselitismo é essencial, pois a cada grau, os seres também auxiliam seus inferiores a se elevarem, sendo a finalidade da hierarquia o amor contínuo a Deus e a deificação.
A salvação é oferecida a todos, e a hierarquia não é um decreto arbitrário, mas a expressão da liberdade dos seres e de sua luta para alcançar o Bem.
A redenção e a encarnação, embora não sejam tratadas com a ênfase ocidental na Paixão, são afirmadas como manifestações da providência geral, oferecendo o sacrifício redentor a todos, mas a obstinação dos pecadores limita o alcance da vontade salvífica universal.
A encarnação é apresentada como uma manifestação salvífica da providência, mas sua relação com o pecado contingente não é explorada, evitando o autor penetrar no segredo da decisão divina.
O sacrifício redentor vale para todos, judeus, gregos ou bárbaros, e as instituições e símbolos eclesiásticos foram dados para a salvação e a deificação.
A vontade divina de salvação universal é limitada pela obstinação irredutível de certos pecadores, conforme o próprio autor afirma.
A ordem adotada na presente edição dos tratados, que coloca os Nomes Divinos antes das Hierarquias, visa facilitar a compreensão do leitor, seguindo as indicações do próprio texto sobre a sequência das obras.
Os Nomes Divinos remetem continuamente a Esboços Teológicos que os teriam precedido e anunciam uma Teologia Simbólica que conduz à Teologia Mística.
Após a ascensão ao inefável, a posição das duas Hierarquias, celeste e eclesiástica, se impõe naturalmente.
O leitor penetrará mais facilmente na difícil doutrina do autor pelos Nomes Divinos do que através das alegorias da angelologia.
A edição apresentada não segue a ordem tradicional dos tratados, optando por colocar os Nomes Divinos antes das Hierarquias, a fim de facilitar a compreensão do leitor.
A decisão baseou-se nas indicações do próprio texto, que refere os Nomes Divinos a Esboços Teológicos anteriores e os anuncia como precursores de uma Teologia Simbólica que leva à Teologia Mística.
Após a ascensão ao inefável, a posição das Hierarquias, celeste e eclesiástica, impõe-se naturalmente, sem necessidade de situar os outros tratados fictícios.
As cartas foram mantidas no final do volume, conforme o uso constante, por ser difícil distribuí-las ao longo dos tratados que complementam.
Acredita-se que o leitor penetrará mais facilmente na difícil doutrina do autor pelos Nomes Divinos do que através das alegorias da angelologia, que podem surpreender o espírito moderno.