Como
Crisóstomo argumenta que sua recusa ao sacerdócio não foi por arrogância, demonstrando que, se fosse um cargo menor como general ou rei, sua atitude poderia ser questionada, mas, sendo o sacerdócio superior a um reino, ninguém deveria acusá-lo de desdém, pois seria insano desprezar algo pequeno, mas não algo grandioso.
A defesa de
Crisóstomo de que, se buscasse glória, teria aceitido o cargo, já que isso lhe traria fama por sua juventude e rápida ascensão, mas, ao recusar, poucos sabem da verdade, e muitos pensam que ele foi rejeitado, o que afasta qualquer acusação de vaidade.
A observação de
Basílio de que os que sabem da verdade se admirarão, e
Crisóstomo rebate que esses mesmos o acusam falsamente, questionando de onde viria o elogio, já que a maioria ignora os fatos e a minoria os distorce, mas mesmo que todos soubessem, não deveriam condená-lo por orgulho, sob risco de grande perigo.
A descrição da majestade do sacerdócio, instituído pelo próprio Paráclito, que faz os homens representarem o ministério dos
anjos na terra, superando em glória as antigas práticas da lei, pois o sacerdote oferece o Senhor sacrificado, invoca o
Espírito Santo em vez de fogo, e realiza mistérios tão aterrorizantes que só um louco os desprezaria.
A autoridade divina concedida aos sacerdotes, superior à dos
anjos e arcanjos, pois eles ligam e desligam almas no céu, perdoam pecados e administram coisas celestiais na terra, sendo que sem eles ninguém pode obter a salvação, o batismo ou a vida eterna, escapando do fogo do inferno.
A comparação entre pais naturais e sacerdotes, mostrando que estes últimos geram para Deus através do batismo, perdoam pecados não apenas após a regeneração mas também por meio da oração dos presbíteros, e reconciliam com Deus quando sua ira está acesa, de modo que desprezá-los é pior do que a rebelião de Datã.
A referência a Paulo, que, apesar de sua santidade e visões celestiais, temia e tremia pelo governo espiritual, desejando até ser anátema por seus irmãos, e conclui que, se um militar, artesão ou capitão de navio fugisse de um cargo perigoso, ninguém o culparia, mas sim a quem o aceitasse sem competência, como no caso do sacerdócio.
O pedido de
Crisóstomo para não ser condenado, pois conhece sua alma fraca e a magnitude do ministério, cujas tempestades são mais violentas que as do mar.
A descrição do rochedo da vaidade, mais perigoso que o das sereias, onde habitam feras como a ira, a inveja, a hipocrisia, o desejo de honra e a bajulação, que escravizam o sacerdote a ponto de agradar mulheres, as quais, excluídas do ministério por Deus, dominam a nomeação e deposição de padres, invertendo a ordem.
A alegação de que nem todos os sacerdotes são culpados desses males, pois muitos são superiores, e a culpa não é do sacerdócio em si, mas dos que o manejam mal, escolhendo homens indignos e inexperientes, o que gera os problemas nas igrejas, sendo que Deus preservou
Crisóstomo ao mantê-lo na posição de pés, pois ele não cobiça o cargo e sabe que o apego a ele leva a maiores pecados.
A distinção entre desejar a obra do episcopado, que é boa segundo Paulo, e desejar a autoridade e o poder, que é terrível, pois quem não deseja o poder não teme ser deposto e age com liberdade, enquanto o medo da deposição causa amarga servidão; assim, deve-se extirpar qualquer faísca desse desejo, e
Crisóstomo confessa tê-lo em alto grau, o que o levou a fugir.
A admissão de
Crisóstomo de que é lento e frouxo, incapaz de cuidar de uma multidão, pois, embora jejuns e vigílias sirvam para quem vive só, para um sacerdote dividido entre muitos é necessária uma alma robusta e vigorosa, qualidades que ele não possui.
A observação de que suportar insultos e zombarias é mais difícil do que privações físicas, e a ira descontrolada causa grandes desastres, sendo que o sacerdote deve evitar essa paixão, pois enquanto falhar em jejum não há ameaça divina, mas a ira sem causa leva ao inferno.
A explicação de que a ira obscurece a razão, destrói os prudentes e tiraniza a alma, tornando o homem arrogante e inimigo irracional, de modo que
Crisóstomo, que alcançou a tranquilidade pelo amor ao retiro, não deve ser lançado no abismo dos cuidados pastorais, onde seu defeito se tornaria público e prejudicaria muitos.
A descrição das divisões e intrigas nas eleições eclesiásticas, onde os eleitores escolhem por parentesco, riqueza ou bajulação, não por mérito, e os sacerdotes são assediados por acusações, sendo que
Crisóstomo pergunta se o enviariam a tamanha guerra, pois confia mais em seu próprio julgamento sobre suas forças do que no alheio.
A advertência de que nem a piedade nem a idade avançada bastam para qualificar um sacerdote, pois muitos monges, quando entram na vida pública, fracassam ou abandonam a ascese, e a eleição de homens maus ou inúteis, expulsando os capazes, provoca a ira de Deus, sendo que a inveja é a raiz de todos esses males.
A exigência de que o bispo seja digno, formidável, gentil, forte, imparcial e hábil para resistir às tempestades e administrar a igreja, mas
Crisóstomo ainda não enumerou todas as razões de sua recusa, incluindo o cuidado com viúvas, virgens, doentes, estranhos e o ofício judicial, cada qual com suas ansiedades e perigos.
O cuidado com virgens, que é ainda mais difícil, pois elas buscam a vida angelical e precisam de proteção contra o inimigo, sendo impossível ao pai natural guardá-las como o bispo deve fazer, enfrentando acusações e o risco de causar dano espiritual se algo der errado.
O ofício judicial do bispo, que envolve perda de tempo, dificuldades e perigo, pois os fracos, ao não obterem patrocínio, podem naufragar na fé, e as visitas, o modo de falar e até o uso dos olhos são rigorosamente criticados, gerando desânimo.
A angústia ao ter que cortar alguém da comunhão, com medo de que a tristeza excessiva o devore, exigindo precisão máxima, pois o médico que aplica mal o remédio responde pelos pecados posteriores do doente, e como os bispos devem dar conta das almas, essas considerações provam que
Crisóstomo fugiu por medo e pelo peso do ofício, não por orgulho ou vaidade.