João Crisóstomo — “Da incompreensibilidade da natureza de Deus”
JOHANNES; HARKINS, Paul (ORGS.). On the incomprehensible nature of God. Washington, D.C: Catholic University of America Press, 2010.
A ausência física do pastor não impede que seu rebanho revele disciplina e seriedade exemplares, o que constitui a mais alta prova do êxito pastoral.
O bispo mencionado é Flaviano, sucessor de Meletius e pastor da comunidade cristã de Antioquia
Ovelhas mudas precisam permanecer nos apriscos quando não há quem as conduza ao pasto; se avançam sem guia, correm o risco de se perder
As pastagens referidas são a própria igreja, onde o rebanho se nutre pela palavra de Deus
Paulo escreve aos Filipenses: “sede obedientes como sempre, não somente quando estou presente, mas ainda mais agora que estou ausente”
O pastor está presente em espírito e mente, ainda que ausente em corpo, e sua presença se manifesta na ordem e disciplina do rebanho.
A ausência física do pastor revela com maior força a virtude que ele soube cultivar nos fiéis
Admira-se mais um general quando suas tropas mantêm a disciplina mesmo sem sua presença
A ausência do pastor expõe o rebanho a perigos maiores, mas permite que a virtude dos fiéis apareça como fruto próprio e não como reflexo da presença do guia.
Quando o lobo se aproxima, o pastor presente pode afastá-lo com facilidade; na ausência do pastor, o rebanho enfrenta risco mais grave
Os lobos mencionados referem-se provavelmente aos Anomoeanos, como fica explícito na homilia XI.3
Quando o pastor está presente, partilha com o rebanho a recompensa pelo zelo; quando está ausente, a ação virtuosa do rebanho resplandece por si mesma
O professor, mesmo ausente em corpo, mantém a assembleia diante de seu olhar interior, vendo os fiéis com mais clareza do que àqueles que fisicamente o acompanham.
O bispo Flaviano é qualificado não apenas como pastor, mas também como mestre, função enfatizada no tratado De sacerdotio IV.3 e IV.4 (PG 48.665) para combater heresias como o Anomoeismo ariano
O amor do pastor ferve e arde com calor incontrolável, porque compreende que o amor é a fonte e a raiz de toda bênção, sendo o sinal distintivo dos discípulos do Senhor e o selo dos apóstolos.
Cristo declara em João 13.35: “É assim que todos saberão que sois meus discípulos: pelo vosso amor uns pelos outros”
O amor de Flaviano em meio às lutas que dividiam a Igreja de Antioquia é destacado no De anathematizante (PG 48.943-52)
O amor não se manifesta pelo poder de ressuscitar mortos, curar leprosos ou expulsar demônios, pois esses são dons gratuitos vindos do alto
Os milagres são dons gratuitos concedidos pela graça divina, ao passo que o amor precisa ser cultivado pelo esforço e zelo do próprio homem, razão pela qual Cristo apontou o amor — e não os prodígios — como sinal de reconhecimento dos discípulos.
A nobreza do homem se manifesta mais nos frutos de seu próprio esforço do que nos dons recebidos do alto
Quando o amor está presente, quem o possui possui a plenitude da virtude; quando está ausente, o homem fica privado de toda bênção
Paulo exalta o amor em seus escritos, mas nunca chega a esgotar seu verdadeiro valor
Nenhuma outra realidade pode igualar o amor, que abarca toda a Lei e todos os profetas, e sem o qual nenhum dom — nem mesmo a fé, o conhecimento dos mistérios ou o martírio — salva o homem.
Paulo escreve em 1 Coríntios 13.3: “Se eu entregar meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada ganho”
Paulo afirma ainda em 1 Coríntios 13.8 e 13.13: “As profecias cessarão, as línguas se calarão, o conhecimento passará. No fim, três coisas permanecem: a fé, a esperança e o amor, e o maior deles é o amor”
O discurso sobre o amor conduz a uma questão teológica de grande profundidade: como entender o desaparecimento da profecia e o silêncio das línguas não levanta dificuldade, mas o perecimento do conhecimento sim.
Os dons carismáticos — listados em Romanos 12.6-8 e 1 Coríntios 12.8-11 — serviram aos pregadores por um tempo e cessaram, sem prejudicar a pregação da piedade
Paulo declara em 1 Coríntios 13.8: “O conhecimento passará”
Se o conhecimento perece, a condição humana não melhora, mas piora; sem conhecimento, o que há de essencialmente humano no homem se desfaz
O profeta afirma que temer a Deus é tudo o que é o homem, e o temor de Deus provém do conhecimento; se o conhecimento perece, o ser humano se veria reduzido a um estado inferior ao dos seres irracionais.
Eclesiastes 12.13 declara: “Teme a Deus e guarda seus mandamentos, pois isso é tudo o que o homem é”
O Salmo 110.10 ressoa ao fundo: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”
Em tudo o que pertence ao corpo, os animais superam largamente os homens; apenas no conhecimento os homens têm sobre eles a vantagem
Paulo não fala do perecimento do conhecimento pleno e perfeito, mas do conhecimento parcial, e esse perecer é na verdade um avanço rumo a algo superior.
O conhecimento parcial, ao perecer, não desaparece no nada, mas se transforma em conhecimento completo e perfeito
O texto de referência é 1 Coríntios 13.8: “O conhecimento passará”
A infância passa sem que a essência da criança desapareça; ela cresce e se torna homem pleno, e assim também o conhecimento parcial, ao perecer, não se extingue, mas amadurece.
Paulo em 1 Coríntios 13 não entende “perecer” como dissolução, mas como crescimento e progresso em direção a algo melhor
Após dizer “passa”, Paulo acrescenta que o conhecimento imperfeito cessa e o perfeito permanece, confirmando que o perecer é um cumprimento e avanço para algo melhor.
Paulo escreve em 1 Coríntios 13.9-10: “Nosso conhecimento é imperfeito e nossa profecia é imperfeita. Quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito passará”
Paulo não diz “conhecemos em parte”, mas “nosso conhecimento é imperfeito”, revelando que se apreende apenas a fração de uma fração — e essa fração é ínfima, não a maior mas talvez a centésima ou a dez-milésima parte.
A distinção entre conhecimento perfeito e imperfeito assume importância central para refutar a pretensão arrogante dos Anomoeanos de possuírem a plenitude do conhecimento
Paulo em 1 Coríntios 13.9 escreve: “Nosso conhecimento é imperfeito”
Antes de citar as palavras do Apóstolo, propõe-se um exemplo capaz de tornar concreto, para a mente, quão vasta é a parte que escapa ao conhecimento humano: a distância entre o conhecimento futuro e o presente é comparável à que separa um homem pleno de um lactente.
O conhecimento vindouro supera o presente na mesma medida em que um adulto maduro supera uma criança ainda no seio
Paulo mesmo confirma essa desproporção ao comparar o conhecimento presente ao estado de infância e o conhecimento futuro ao estado de homem pleno e perfeito.
Paulo escreve em 1 Coríntios 13.11: “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei homem, deixei de lado as coisas de criança”
O conhecimento presente é equiparado à condição da criança; o conhecimento futuro, à maturidade plena
Paulo não diz “quando eu era rapaz”, mas “quando eu era criança”, termo que designa o infante ainda em amamentação, ainda nutrido pelo leite materno.
O Salmo 8.2-3 confirma esse uso: “Senhor nosso Senhor, como é glorioso o teu nome em toda a terra! Da boca de crianças e lactentes fizeste brotar o louvor”
A Escritura usa “criança” para referir-se ao infante ainda no seio materno
Paulo, prevendo pela potência do Espírito a impudência dos homens dos tempos futuros, não se contentou com um único exemplo, mas reforçou a tese com um segundo e um terceiro, à semelhança de Moisés, que recebeu três sinais para persuadir os judeus.
Os três sinais dados a Moisés estão em Êxodo 4.1-9: o cajado transformado em serpente, a mão coberta de lepra e a água do rio transformada em sangue
Caso os judeus não acreditassem no primeiro sinal, poderiam ainda ceder ao segundo; se desprezassem o segundo, quem sabe ao terceiro
Paulo apresenta três exemplos da limitação do conhecimento presente: o da criança, o do espelho e o da imagem indistinta, mostrando que o conhecimento atual é incompleto e imperfeito.
Paulo escreve em 1 Coríntios 13.11: “Quando eu era criança, raciocinava como criança”
Em 1 Coríntios 13.12 Paulo continua: “Agora vemos como por um espelho, em imagem indistinta”
A criança vê e ouve muitas coisas e emite muitos sons, mas nada do que percebe ou exprime é claro e distinto; pensa, mas seus pensamentos não são articulados
O conhecimento de coisas divinas é real, mas intransponível em palavras: sabe-se que Deus é onipresente, eterno, gerador do Filho e origem do Espírito, mas o como de tudo isso permanece inacessível à razão.
Nem mesmo o funcionamento dos próprios alimentos ingeridos — como se separam em fleuma, sangue, suco e bile — é compreendido pelo homem
O texto entre colchetes pode ser uma glosa, mas comparação com a Homilia II.49-50 torna isso incerto
A incapacidade de compreender coisas cotidianas torna absurdo investigar a essência de Deus
Quem afirma possuir a plenitude do conhecimento nesta vida cai na ignorância mais profunda, pois se priva do conhecimento perfeito reservado à vida futura; reconhecer a imperfeição do conhecimento presente é avançar rumo a um estado mais perfeito.
O conhecimento parcial, uma vez passado o que é imperfeito, torna-se conhecimento mais pleno
Quem declara ter conhecimento inteiro, perfeito e completo, ao admitir que esse conhecimento passará, prova que ficará privado de todo conhecimento, pois nenhum outro mais perfeito o substituirá — segundo a lógica de quem afirma já possuir a perfeição.
A distinção entre conhecimento perfeito e imperfeito é usada para refutar a pretensão dos Anomoeanos
Quem insiste em possuir a plenitude do conhecimento nesta terra perde simultaneamente o conhecimento parcial próprio desta vida e o conhecimento mais perfeito reservado à vida futura, à semelhança de Adão, que ao aspirar a honra maior perdeu a que tinha.
A referência a Adão remete a Gênesis 2.16-17 e 3.4-5, onde a desobediência levou à perda
Os avarentos que desejam mais do que têm perdem frequentemente o que já possuíam
O grande mal consiste em não permanecer dentro dos limites que Deus fixou desde o princípio
Buscar conhecer a essência de Deus é a mais extrema loucura, demonstrável pelos próprios profetas: eles não conhecem nem sequer a vastidão da sabedoria divina, que deriva da essência, não o contrário.
Quem citará a geração divina? — pergunta Isaías em Isaías 53.8 (LXX), usando o futuro para excluir qualquer declaração futura
Os Anomoeanos pretendem sujeitar a essência de Deus aos seus processos de raciocínio, o que Eunômio, sucessor de Ário, exemplifica ao basear-se exclusivamente na própria razão
O profeta reconhece a sabedoria divina como maravilhosamente terrível e inatingível, e sua reação de tremor diante do abismo insondável da sabedoria de Deus é o modelo de toda relação criatural com o Criador.
Salmo 138(139).6 (LXX): “Teu conhecimento é por demais maravilhoso para mim”
Salmo 138(139).14 (LXX): “Render-te-ei graças porque és maravilhosamente terrível; maravilhosas são as tuas obras”
Salmo 138(139).6 (LXX): “Teu conhecimento é por demais maravilhoso para mim; é demasiado elevado e não posso alcançá-lo”
Maravilha-se com terror quem se inclina sobre a profundidade do mar e contempla o abismo; foi assim que o profeta contemplou a sabedoria de Deus e recuou em tremor
O profeta é prudente e grato precisamente por reconhecer ter um Mestre que não pode ser compreendido, e o que ele descreve não é a essência divina, mas a onipresença de Deus, que tampouco compreende.
Salmo 138(139).8: “Se subo ao céu, tu estás lá; se desço ao abismo, tu estás presente”
O termo “incompreensível” aparece aqui pela primeira vez nas homilias; originalmente filosófico, tornou-se usual na teologia cristã do século IV para designar Deus como aquele que está além das faculdades de apreensão humana
Se o profeta, a quem foram revelados os segredos ocultos da sabedoria divina, declara essa sabedoria inacessível e incompreensível, quanto mais insano seria para homens muito abaixo dele em graça investigar a própria essência de Deus.
Salmo 146(147).5: “Grande é o nosso Senhor e poderoso em força; à sua sabedoria não há limite”
A grandeza de Deus não tem limite, e os hereges pretendem encerrar sua essência nos limites de uma definição
Isaías, Davi e Paulo convergem no mesmo testemunho: nenhum deles conhece a geração ou a essência divina, e Paulo admite que seu conhecimento imperfeito não diz respeito à essência de Deus, mas à sabedoria manifestada na providência.
Isaías 53.8 (LXX): “Quem declarará a sua geração?” — usando o futuro para excluir toda declaração possível
Salmo 138(139).6: “Teu conhecimento é por demais maravilhoso para mim”
Paulo em 1 Coríntios 13.9: “Nosso conhecimento é imperfeito e nossa profecia é imperfeita”
Paulo não examina a providência completa de Deus, que abarca anjos, arcanjos e potências celestes, mas apenas uma pequena porção da providência voltada para os homens na terra — mais precisamente, aquela pela qual Deus rejeitou os judeus e acolheu os gentios.
A referência é às cartas de Paulo em Romanos 9, 10 e 11, conforme comentado por Fitzmyer (JBC 53.95-115)
Paulo deixa de lado a providência que faz nascer o sol, infunde almas nos homens, modela os corpos, nutre a terra e governa o mundo
Ao contemplar apenas essa pequeníssima porção da providência divina, Paulo recuou como diante de um mar sem fundo e exclamou com espanto a inscrutabilidade dos juízos e a imperscrutabilidade dos caminhos de Deus.
Paulo em Romanos 11.33: “Ó profundidade das riquezas, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos!”
Paulo usa “insondável”, não “incompreensível”: se os juízos não podem ser sondados, muito menos podem ser compreendidos
Se os caminhos de Deus são imperscrutáveis, como poderia Deus mesmo ser compreensível?
Não apenas os caminhos e os juízos de Deus são incompreensíveis: também as recompensas que preparou para os seus amados ultrapassam toda compreensão, toda descrição e todo entendimento humano.
Paulo cita em 1 Coríntios 2.9: “Olho não viu, ouvido não ouviu, nem ao coração do homem ocorreu o que Deus preparou para aqueles que o amam”
2 Coríntios 9.15: “Graças a Deus pelo seu dom indescritível”
Filipenses 4.7: “A sua paz supera todo entendimento”
Se tudo isso é incompreensível, afirmar que apenas Deus mesmo pode ser compreendido seria loucura excessiva
O herege que invoca Paulo para escapar da refutação acaba reforçando a tese ortodoxa: se a providência divina é incompreensível, com muito mais razão o é o próprio Deus.
Paulo em 1 Coríntios 13.9: “Nosso conhecimento é imperfeito”
O herege replica que Paulo fala da providência, não da essência — mas isso apenas confirma que a providência já é incompreensível, tornando a essência ainda mais inatingível
Paulo, ao afirmar que “meu conhecimento é imperfeito agora; então conhecerei como fui conhecido”, revela que o sujeito que o conhece é Deus — não a providência —, e que seu conhecimento presente de Deus é imperfeto e parcial; Deus, porém, é simples e não tem partes.
Paulo em 1 Coríntios 13.12: “Meu conhecimento é imperfeito agora; então conhecerei como fui conhecido”
O conhecimento é imperfeito não porque se conheça uma parte da essência e não outra, mas porque se sabe que Deus existe sem saber o que Ele é em sua essência
O conhecimento humano de Deus é real no que afirma — que Deus existe, é sábio, grande, onipresente e providencial —, mas radicalmente limitado no como, que permanece inacessível em todos esses atributos.
Paulo em 1 Coríntios 13.9: “Nosso conhecimento é imperfeito e nossa profecia é imperfeita”
Sabe-se que Deus é sábio, mas não quão vasta é sua sabedoria; sabe-se que é grande, mas não como nem o que é sua grandeza; sabe-se que está em todo lugar, mas não como isso é possível
Propõe-se subir ao céu para verificar se os próprios anjos conhecem a essência de Deus, pois a distância entre homens e anjos é grande e convém saber se os seres celestiais possuem esse conhecimento.
Crisóstomo desenvolve a angelologia em extensão nas Homilias III e IV, bem como na série de seis homilias Vidi Dominum (PG 56.97-142)
A conclusão antecipada é que nenhum poder criado — nem mesmo no céu — conhece Deus em sua essência
Os anjos não investigam a essência divina: dão glória a Deus, o adoram e entoam incessantemente hinos triunfais e místicos com profundo temor religioso, velando os olhos diante da presença divina.
Os anjos cantam em Lucas 2.14: “Glória a Deus nas alturas”
Os serafins entoam em Isaías 6.3: “Santo, santo, santo”
Os querubins proclamam em Ezequiel 3.12 (LXX): “Bendita seja a sua glória deste lugar”
“Acomodação” e “condescendência” (sunkatabasis) são os termos-chave com que Crisóstomo explica como as criaturas podem ver Deus; ele os define na Homilia III.15
Os querubins não afirmam que Deus está circunscrito por um lugar, mas falam à maneira dos homens, como se dissessem “onde quer que ele esteja”
O contraste entre o sagrado tremor dos anjos no céu e a arrogante presunção dos hereges na terra é o abismo mais eloquente: aqueles velam os olhos, estes os fixam descaradamente na glória inefável de Deus.
Os anjos honram e louvam a Deus; os hereges na terra realizam investigações impertinentes
Quem não gemeria, quem não choraria diante de tão extrema loucura e insensatez?
Por ser a primeira vez que o combate é travado diretamente contra os adversários, convém não ir além do que já foi dito, para que a multiplicidade de argumentos futuros não apague da memória os presentes.
O adversário mencionado implicitamente são os Anomoeanos e sua pretensão de conhecer a essência divina
Por longo tempo houve o anseio, semelhante ao de uma parturiente, de expor esses argumentos, mas a contenção foi necessária para não afugentar aqueles que, ainda enfermos com a heresia, encontravam prazer nas palavras ouvidas.
A metáfora da mãe em trabalho de parto descreve a urgência interior de proclamar a verdade
Quando os adversários clamaram desafiando ao debate, o momento chegou de tomar as armas para destruir os sofismas e toda pretensão orgulhosa que se levanta contra o conhecimento de Deus — armas que não ferem, mas curam os enfermos.
Paulo em 2 Coríntios 10.4-5: “para destruir os sofismas e toda pretensão orgulhosa que se levanta contra o conhecimento de Deus”
As armas do pregador têm duplo poder: golpear os obstinados e cuidar zelosamente dos que têm prudência para ouvir
A gentileza e a bondade são as forças mais eficazes no trato com os adversários, pois nada supera em poder o tratamento suave e benévolo, como Paulo mesmo instruiu.
Paulo em 2 Timóteo 2.24: “O servo do Senhor não deve ser litigioso, mas bondoso para com todos”
Paulo em Filipenses 4.5: “Que a vossa mansidão seja conhecida de todos os homens”
De nada vale amar apenas os que nos amam
Quando o amor alheio arrasta para a impiedade — ainda que venha dos próprios pais —, é preciso fugir, pois Mateus usa a imagem do olho direito não para falar do corpo, mas do amigo mais caro: se ele te induz ao pecado, é preciso cortá-lo.
Mateus 5.29: “Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o”
Mateus não fala do olho corporal; se falasse da natureza do corpo, a acusação recairia sobre o próprio autor da natureza
Cortar apenas um olho seria inútil se o outro permanecesse; o qualificativo “direito” indica o amigo mais íntimo, não o órgão
Se as amizades nos prejudicam, é preciso fugir delas; se não prejudicam a piedade, deve-se conquistá-las; se causam dano sem trazer benefício, deve-se romper a associação — e Paulo recomenda a paz, não o combate.
Paulo em Romanos 12.18: “Se possível, enquanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens”
Cristo, Senhor dos anjos, ao ser acusado de possessão demoníaca, respondeu com mansidão sem lançar raios sobre seus caluniadores; ao ser golpeado na face pelo servo do sumo sacerdote, defendeu-se apenas com palavras, tornando-se modelo de domínio próprio.
João 8.49: “Não estou possuído por um demônio, mas honro aquele que me enviou”
João 18.23: “Se disse algo errado, apresenta a prova; mas se falei a verdade, por que me bates?”
A referência às acusações de possessão está em Mateus 9.34 e João 8.48
Cristo suportou tudo isso para que os homens aprendam de seu supremo domínio próprio a controlar a si mesmos
É necessário gravar essas palavras no coração e evocá-las no momento da necessidade, pois elas têm o poder de refrear a língua, reduzir o inchaço da mente e fazer habitar em nós uma paz perfeita.
João 18.23: “Se disse algo errado, apresenta a prova; mas se falei a verdade, por que me bates?”
Essas palavras são como um encantamento divino e incessante: acalmam e reduzem toda inflamação da alma
O atleta treina na palestra para mostrar nos combates o proveito obtido no treinamento; do mesmo modo, quando a ira sobrevier, deve-se mostrar o fruto de ter ouvido e meditado
Que essa paz habitada por Cristo seja desfrutada pela graça e amor de Jesus Cristo, ao qual seja glória com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Esta exortação à paz era particularmente urgente em Antioquia, onde a Igreja estava dividida em facções, cada uma com seu próprio bispo, como registra o In epistulam ad Ephesios II.4 (PG 62.86)