A INICIATIVA DE DEUS NO BEM E A COMPARAÇÃO COM AS COISAS HUMANAS
Deus concede seus benefícios mesmo àqueles que ainda não realizaram nenhuma ação meritória, o que leva a crer que ele concederá ainda mais sua graça ao homem que acolhe com gratidão a graça primeira.
O raciocínio de
Crisóstomo baseia-se na ideia de que Deus honra com seus benefícios aqueles que nada fizeram para merecê-los, reforçando a lógica da concessão divina.
A mesma construção gramatical de uma condicional com sentido concessivo na subordinada e outra condicional na principal é encontrada na Homilia 28 sobre o Gênesis.
No segundo membro da comparação, retoma-se o princípio moral de que Deus previne a boa vontade humana com seus benefícios.
A MISERICÓRDIA DIVINA APÓS A QUEDA DO PRIMEIRO HOMEM
Apesar da desobediência do primeiro homem, que por intemperança foi enganado pela mulher e violou o mandamento, Deus não o considerou indigno de todo perdão, mas agiu como um pai afetuoso que modera a lição para não fazê-lo sucumbir ainda mais no mal.
A intemperança (akrasia) é entendida por
Crisóstomo simplesmente como a intemperança do ventre, e não como uma fraqueza ou imperfeição da natureza, ao contrário da interpretação de
Irineu ou
Gregório de Nissa.
Era justo excluir o homem dos planos da Providência por sua ingratidão, mas Deus não só deixou de fazê-lo como também apenas o excluiu do estado
bem-aventurado.
Deus condenou o homem a trabalhar e penar para reprimir seu orgulho e impedir que se revoltasse ainda mais, como se lhe dissesse que a ociosidade é a mãe de todos os vícios.
Deus disse: “Tu és terra e à terra retornarás” (Gênesis 3, 19), para que, cultivando a terra, o homem tivesse contínua lembrança de sua desobediência e da pequenez de sua própria natureza.
O ENSINAMENTO E A PROVIDÊNCIA POR MEIO DO CASTIGO
Para que a dor do homem fosse mais aguda e ele sentisse mais vivamente sua queda, Deus não o fixou em lugar distante, mas próximo ao paraíso, barrando-lhe a entrada para que a cada instante considerasse de quais bens se havia decaído por sua negligência.
Se enquanto se desfruta de uma vantagem não se sente como seria necessário o benefício que ela representa, quando se é privado dela, então se a sente muito mais devido à sua perda e se sofre proporcionalmente, como ocorreu com o primeiro homem.
Para que se conheçam tanto a armadilha do demônio perverso quanto as sábias disposições tomadas pelo Mestre, vê-se o que o
diabo quis fazer do homem por meio de seu engano e qual benevolência, ao contrário, o Mestre lhe testemunhou em sua previdência.
O demônio perverso, invejando a morada do paraíso ao homem, fê-lo esperar no fruto proibido algo maior do que lhe fora outorgado, sendo justo que recebesse mais.
A NECESSIDADE DOS OLHOS DA FÉ PARA PERCEBER AS REALIDADES ESPIRITUAIS
É preciso uma fé generosa e uma robusta resolução para as coisas que se realizam, utilizando os olhos da alma para não se ater apenas ao que se vê, mas para representar a partir disso o que não se vê.
Os olhos da fé são tais que, assim como os olhos do corpo só podem ver os objetos que caem sob os sentidos, eles, ao contrário, nada veem das coisas que estão sob o olhar, mas enxergam aquelas que lhes escapam como se estivessem diante de si.
O próprio da fé é ater-se ao que não se vê como se se visse, pois a fé é a substância das coisas que se esperam e a prova irrecusável das coisas que não se veem (Hebreus 11, 1).
A ATITUDE EXTERNA E A AÇÃO DA GRAÇA NO BATISMO
Ao ver a piscina das águas baptismais e a mão do sacerdote estendida sobre a cabeça, não se deve crer que é a água pura e simplesmente, nem somente a mão do pontífice, pois o que se realiza não é o homem que o faz, mas a graça do Espírito que santifica as águas e se estende sobre a cabeça com a mão do sacerdote.
O batismo é sepultamento e ressurreição: “O velho homem é sepultado com o pecado e o homem novo ressuscita, renovado à imagem daquele que o criou” (Colossenses 3, 10).
Despoja-se da velha veste suja pela massa de pecados e veste-se a nova, limpa de toda mancha, ou melhor, veste-se o próprio Cristo, pois “todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes” (Gálatas 3, 27).
A FINALIDADE DOS EXORCISMOS E A PREPARAÇÃO PARA RECEBER O REI CELESTE
Como se está prestes a receber como hóspede o Rei celeste, após a instrução, aqueles que foram designados para esse ofício recebem os catecúmenos e, como quem prepara uma casa para o rei, purificam inteiramente o espírito com palavras terríveis que expulsam todos os ardis do maligno e o tornam digno da vinda do Rei.
É impossível que o demônio, por mais feroz e intratável que seja, após essas palavras terríveis e a invocação do comum Mestre de todos os seres, não os abandone em toda a pressa.
Esse rito imprime também à alma uma grande piedade e a conduz a uma profunda compunção.
A IGUALDADE PERANTE AS REALIDADES ESPIRITUAIS
Toda distinção e diferença de dignidades são eliminadas nas realidades espirituais, onde se buscam apenas as boas disposições da alma, de modo que o que está nas honras ou na riqueza se encontra no mesmo nível que o mendigo, o cego ou o aleijado, sem que por isso se indigne.
O termo “pompa de
Satanás” refere-se a toda espécie de pecado, aos espetáculos ímpios, aos hipódromos, às adivinhações, aos augúrios, às observâncias dos tempos, aos símbolos, às faixas e às encantações.
A RESPONSABILIDADE DOS PADRINHO (ANADOCHOI)
Aqueles que se responsabilizam pelos catecúmenos devem saber que, se demonstrarem muito zelo, merecerão recompensas, mas se forem negligentes, incorrerão em grave condenação, pois, assim como os fiadores de dinheiro se tornam responsáveis pela integridade da quantia, muito mais aqueles que se responsabilizam no espiritual por um balanço de virtude.
Um sábio aconselha: “Se deste fiança, considera-te obrigado” (Eclesiástico 8, 13).
É costume chamá-los de pais espirituais para que aprendam efetivamente a ternura que devem testemunhar a seus filhos espirituais, instruindo-os nas coisas espirituais.
Os padrinhos devem saber que o bom nome recairá sobre eles se conduzirem seus afilhados na via da virtude, mas que se estes forem negligentes, os próprios padrinhos sofrerão uma grave condenação.
A FORMULAÇÃO DO CONTRATO COM DEUS MEDIANTE O RENÚNCIO E A ADESÃO
Assim como nos negócios deste mundo é necessário redigir atos entre quem confia o depósito e quem o recebe, do mesmo modo, visto que da parte do soberano Mestre estão para ser confiados bens espirituais e celestes, é necessário que a troca das convenções se faça, não com tinta sobre papel, mas em Deus pelo Espírito.
O sacerdote faz com que os catecúmenos pronunciem as palavras terríveis: “Renuncio a ti,
Satanás, e às tuas festas, e ao teu serviço, e às tuas obras”.
Os
anjos presentes e as potências invisíveis, que se regozijam com a conversão, recolhem as palavras pronunciadas pela boca e as elevam até o comum Mestre de todas as coisas, onde são inscritas nos livros celestes.
Após o re-núncio ao Maligno, o sacerdote faz dizer: “E uno-me a ti, Cristo”, mostrando a insondável bondade de Cristo, que se contenta com essas breves palavras e confia um tão grande tesouro de realidades, esquecendo toda a ingratidão anterior.
O SIGNIFICADO DO RITO E A AÇÃO MINISTERIAL DO SACERDOTE
Após a unção com o crisma espiritual na fronte, que é o sinal da milícia de Cristo, o candidato é conduzido às águas sagradas pelo sacerdote, que, quando pergunta se crê no Pai, no Filho e no Espírito Santo, recebe a tripla confissão e então realiza o mergulho, mostrando pelas próprias palavras que é apenas o ministro da graça e empresta sua mão.
A ALEGRIA DA COMUNIDADE PELOS RENASCIDOS NO BATISMO
Assim que saem das sagradas piscinas, toda a assembleia os abraça, saúda, beija, congratula e se alegra porque aqueles que outrora eram escravos e cativos se tornaram, num instante, homens livres, filhos convidados para a mesa real, onde provam do corpo e do sangue do Senhor e se tornam morada do Espírito, andando como que vestidos do próprio Cristo.
Imediatamente após subir das piscinas, são conduzidos à mesa terrível, fonte de mil favores, provam o corpo e o sangue do Senhor e se tornam morada do Espírito.
Tendo revestido o próprio Cristo, aparecem por toda parte como
anjos terrestres, irradiando tanto quanto os raios do sol.
A EXORTAÇÃO À ORAÇÃO E À SOLICITUDE PELOS IRMÃOS
Estando no limiar do vestíbulo real e prestes a se aproximar do trono onde o Rei distribui seus dons, deve-se fazer uma petição digna do doador, pedindo sua aliança para guardar os dons recebidos, orando pela paz das igrejas, suplicando pelos que ainda vagueiam e caindo de joelhos pelos pecadores para que se mereça ser de algum modo poupado.
Nada alegra tanto a Deus quanto ver os fiéis afetuosos para com seus membros, cheios de ternura para com os irmãos e vivamente preocupados com a salvação do próximo.
Quem concedeu tamanha confiança, inscrevendo os que eram prisioneiros e escravos no primeiro posto dos amigos e elevando-os à adoção filial, não recusará seus pedidos, mas concederá tudo, imitando neste ponto a bondade que lhe é própria.