CAPITULO III – Terceiro degrau, que trata da verdadeira peregrinação.
A peregrinação é o abandono constante de tudo o que impede o propósito e o exercício da piedade — que é honrar e buscar a Deus —, e consiste num coração vazio de toda vã confiança, numa sabedoria desconhecida, numa prudência secreta, numa fuga do mundo, numa vida invisível e num profundo silêncio de alma.
A peregrinação inclui ainda: amor ao desprezo, apetite de angústias, desejo do amor divino, abundância de caridade e aborrecimento da opinião de sábio ou de santo
No início, essa maneira de vida árdua e o fogo do desejo de afastar-se da pátria e dos seus costumam fatigar os servos de Deus
Esse desejo provoca também o querer ser, por amor de Deus, afligido e desprezado
Quanto maior e mais louvável for a peregrinação, tanto maior atenção ela requer ao ser examinada, pois nem toda peregrinação feita superficialmente é digna de louvor, correndo o risco de tornar-se ocasião de vanaglória.
Se, como diz o Salvador, não há Profeta que seja honrado senão fora de sua terra e entre os seus, é preciso vigiar para que a fuga da pátria não se converta em ocasião de vanaglória
A verdadeira peregrinação é um perfeito apartamento de todas as coisas, com a intenção de que o pensamento nunca — quanto possível — se afaste de Deus
O verdadeiro peregrino é amador do pranto perpétuo, arraigado nas entranhas pela memória do Criador
Peregrino é o que afasta e repele sempre a memória e o afeto de todos os seus, na medida em que esses constituem impedimento para ir a Deus
Quando se determina peregrinar e retirar-se à solidão, não se deve demorar no mundo esperando levar consigo as almas dos que estão nele enredados, pois o inimigo pode aproveitar esse tempo para roubar o bom propósito.
Muitos, pretendendo levar consigo alguns negligentes e preguiçosos, pereceram juntamente com eles, vendo a chama da inspiração divina apagar-se com a demora
Ao sentir em si essa chama e inspiração divina, é preciso correr apressadamente, pois não se sabe se ela se apagará tão depressa, deixando a alma às escuras
Nem todos são obrigados a salvar os outros, pois, como diz o Apóstolo, cada um dará por si conta a Deus — e em outro lugar ele mesmo acrescenta: Tu que ensinas a outros, por que não te ensinas a ti mesmo?
As necessidades e obrigações dos outros não são conhecidas por todos, mas cada um conhece as suas próprias e assim é obrigado a atender a elas
O peregrino deve guardar-se do demônio guloso e vagabundo — isto é, do que, sob o título de peregrinação, pretende alimentar a curiosidade dos sentidos e o apetite da gula, que em diversos lugares encontra diversos convites e hospedarias.
A peregrinação costuma dar ocasião a esse demônio
É coisa grande ter mortificado o afeto de todas as coisas perecíveis, e a peregrinação é mãe dessa virtude — por isso os que por amor de Deus andam peregrinando devem deixar todos os afetos do século e estar como mortos às suas coisas.
Não devem parecer, por um lado, apartados do mundo e, por outro, enlaçados com os afetos dele
Os que se afastaram do século não deveriam mais querer ter conta com ele, pois os vícios adormecidos há muito tempo facilmente costumam despertar
Eva saiu do Paraíso contra a sua vontade, mas o monge se desterrou da pátria pela sua — ela foi expulsa para não voltar a comer da árvore da desobediência; ele foge da vizinhança dos lugares do mundo como de um grandíssimo açoite e perigo, porque o fruto que não se vê com os olhos não move tanto o coração
Há outro modo de engano dos ladrões espirituais: eles aconselham a não se apartar dos seculares, dizendo que será maior coroa viver limpamente no meio dos laços e vencer as paixões lutando com elas — e a esses não se deve obedecer em nenhuma forma, mas sempre fazer o contrário.
Depois de alguns anos de peregrinação e de ter alcançado alguma religiosidade, compunção ou abstinência, os demônios começam a combater com pensamentos de vaidade, incitando ao regresso à pátria para edificação e exemplo dos que antes viram o peregrino viver desordenadamente no século.
Se o peregrino tem alguma instrução ou graça ao falar, os demônios o pressionam ainda mais a voltar ao século para ser mestre e guardião das almas alheias, a fim de que a fazenda adquirida com trabalho no porto se perca em alto mar
Não se deve imitar a mulher de Ló, mas o próprio Ló — pois a alma que voltar ao lugar de onde saiu se dissolverá como sal e ficará como estátua imóvel, dificilmente voltando a Deus
Os corações que voltaram ao Egito não gozaram daquela quietíssima e pacífica terra de Jerusalém
Não é mau, porém, que os que no início de sua conversão deixaram a pátria e tudo com ela, depois de confirmados e adiantados na virtude e perfeitamente purificados, voltem a ela para fazer outros participantes da saúde que alcançaram.
Aquele grande Moisés, que viu a Deus e foi escolhido para procurar a salvação de seu povo, passou muitos perigos no Egito e muitas aflições neste mundo por causa dele
Vale mais entristecer os pais do que ao Senhor — pois este nos criou e redimiu, enquanto aqueles muitas vezes destruíram os que amaram e os entregaram aos tormentos eternos
Peregrino é aquele que, como homem de outra língua morando entre gente estrangeira que não conhece, vive só no conhecimento de si mesmo — e o abandono da pátria e dos parentes não se faz por ódio a eles, mas para fugir do dano que por sua parte pode vir.
O Salvador é mestre e exemplo nisso, pois muitas vezes se ausentou da Virgem e do santo José, tido por seu pai
Quando lhe disseram: Eis aqui tua mãe e teus irmãos, o Bom Mestre ensinou esse santo ódio e liberdade de coração, dizendo: Minha mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus
Deve-se ter por pai aquele que pode e quer trabalhar junto e ajudar a descarregar a carga dos pecados — e toda a família espiritual do peregrino é reconfigurada segundo vínculos de virtude e salvação.
A mãe deve ser a compunção, que lava as máculas e impurezas da alma
O irmão deve ser o que juntamente trabalha e combate no caminho do céu
A esposa e companheira que nunca se afasta deve ser a memória da morte
Os filhos muito amados devem ser os gemidos do coração
O servo deve ser o próprio corpo
Os amigos devem ser os santos Anjos, que na hora da morte poderão ajudar se agora se procurar torná-los familiares
Essa é a geração espiritual dos que buscam a Deus
O amor de Deus exclui o amor desordenado dos pais, e quem crê que esses dois amores podem coexistir se engana a si mesmo, pois o Salvador afirma que ninguém pode servir a dois senhores.
Em outro lugar o mesmo Senhor disse: Não vim trazer paz à terra, mas espada — porque vim apartar os amadores de Deus dos amadores do mundo, os terrenos e materiais dos espirituais, os invejosos dos humildes
O Senhor se alegra quando vê essa contenda e apartamento feitos por seu amor
É preciso estar atento para não ser tomado secretamente pelo amor dos parentes e, vendo-os naufragar no dilúvio das misérias do mundo, ir despreparado socorrê-los e perecer juntamente no mesmo dilúvio.
Não se deve ter pena dos pais e amigos que choram a saída do mundo, para não ter de chorar para sempre
Quando os parentes cercam como abelhas — ou melhor, como vespas — e começam a fazer lamentações, deve-se fortalecer o coração com a consideração da morte e dos pecados, para que com uma dor se afaste outra dor
Os parentes prometem enganosamente que se farão à vontade do peregrino em tudo e que não impedirão seus bons propósitos — mas fazem isso com intenção de barrar o caminho e trazê-lo à sua vontade
Ao apartar-se do mundo, o apartamento deve ser nos lugares mais humildes, menos públicos e mais afastados das consolações do mundo — e quem for nobre deve esconder, quando puder, a claridade e nobreza de seu linhame.
Não se deve parecer nas palavras um e nas obras outro — pregando humildade nas palavras e ostentando vaidade nas obras
Ninguém peregrina de maneira tão plena quanto o grande Patriarca Abraão, a quem foi dito: Sai da tua terra e de entre os teus parentes e da casa de teu pai — sendo por essa via chamado a andar entre gente bárbara e de língua estrangeira
O verdadeiro humilde deve fugir da glória e defender-se dela com o escudo da humildade, mesmo que lhe seja divinamente concedida
Quando os demônios louvam a virtude da peregrinação ou outra insigne virtude, deve-se recorrer com grande atenção à memória do Senhor que peregrinando desceu do céu à terra por nós — e então se verá que, ainda que se vivesse todos os séculos, não se poderia imitar a pureza dessa peregrinação.
Todo afeto desordenado de parentes ou estranhos que paulatinamente arrasta ao amor das coisas do mundo e amortigua o fogo do amor de Deus deve ser evitado com grandíssima diligência.
Assim como é impossível olhar com um olho ao céu e com outro à terra, assim também é impossível estar no corpo e com a alma afeiçoada às coisas do céu
Com grande trabalho e fadiga se alcançam a virtude e os bons costumes, e pode acontecer que o que com muito trabalho e em muito tempo se alcançou se perca num instante
Quem depois de renunciar ao mundo quer viver e conversar com os homens do mundo, ou morar perto deles, certamente cairá nos mesmos perigos e enlaçará o coração nos pensamentos deles
Se assim não se enlaçar, ao menos julgando e condenando os que se enlaçam, também ele se enlaçará
Dos sonhos com que costumam ser tentados os principiantes
O conhecimento humano é imperfeito e cheio de toda ignorância — pois, como está escrito, o paladar julga a qualidade dos manjares e o ouvido a verdade das sentenças — e assim como o sol descobre a fraqueza dos olhos, as palavras declaram a rudeza dos entendimentos, mas a caridade obriga a tratar de coisas que excedem a própria faculdade.
Considera-se necessário acrescentar algo sobre os sonhos, para que não se ignore esse gênero de engano de que se servem os adversários espirituais
Sonho é movimento da alma em corpo imóvel, pois tal costuma estar o corpo quando se sonha
Fantasia é engano dos olhos interiores na alma adormecida — quando o que não é se representa como se fosse, por estar impedido o uso da razão
Fantasia é também alienação da alma estando o corpo desperto — quando a alma está como fora de si pela apreensão veemente em alguma coisa
Fantasia é ainda apreensão ou imaginação que passa depressa e não permanece
Depois que se deixa por amor de Deus a casa e os parentes e se entrega à peregrinação, os demônios começam a perturbar nos sonhos, representando os pais e parentes tristes, aflitos, mortos por causa do peregrino ou em necessidade e perigo de morte.
Quem dá crédito a tais sonhos é semelhante ao que corre atrás de sua sombra para alcançá-la
Os demônios tentadores da vanaglória se fazem às vezes profetas enganosos, revelando nos sonhos algumas coisas que, como astutíssimos, podem conjecturar — para que, vendo cumprido o que se sonhou, o peregrino se espante e pense estar muito próximo da graça dos Profetas, ensoberbecendo-se.
Por secreto juízo de Deus, o demônio pode sair verdadeiro para com os que lhe dão crédito, assim como sai mentiroso para os que não fazem caso dele
Como espírito, o demônio vê tudo o que se faz dentro deste ar — e quando adivinha que alguém vai morrer, diz-no nos sonhos aos mais crédulos, enganando-os
Nenhuma coisa futura o demônio sabe com ciência certa, mas apenas por conjecturas — tanto que até as crianças por esse meio às vezes adivinham a morte
Muitas vezes os demônios se transfiguram em anjo de luz e tomam figura de mártires, apresentando-se nos sonhos — e quando se desperta, enchem de alegria e soberba, o que é um sinal de seus enganos.
Os bons Anjos, ao contrário, representam tormentos, juízos e apartamentos — e quando se desperta, deixam temerosos e tristes
Os que começam a dar crédito ao demônio nos sonhos acabam por ser por ele enganados fora dos sonhos
É próprio de loucos e maus dar crédito a tais vaidades — o verdadeiro Filósofo é o que nenhum crédito lhes dá
Deve-se dar crédito somente àqueles que pregam pena e juízo — e se isso move à desesperação, deve-se entender que essa desesperação também vem da parte do demônio