Gnose

Clemente de Alexandria — Stromata

A Gnose Cristã

A gnosis é, por assim dizer, um aperfeiçoamento do homem enquanto homem, que se realiza plenamente por meio do conhecimento das coisas divinas, conferindo às ações, à vida e ao pensamento uma harmonia e coerência consigo mesmo e com o logos Divino. Pela gnosis a fé se aperfeiçoa, de modo que somente por ela o fiel alcança a sua perfeição. Pois a fé é um bem interior, que não investiga sobre Deus, mas confessa a sua existência e adere à sua realidade. Por isso, é necessário que a pessoa, partindo dessa fé e crescendo nela pela graça de Deus, busque o conhecimento que lhe for possível a respeito Dele. No entanto, afirmamos que a gnosis difere da sabedoria que se adquire pelo ensino: pois, na medida em que algo é gnosis, será certamente também sabedoria, mas na medida em que algo é sabedoria, não será necessariamente gnosis. Pois o nome de sabedoria se aplica apenas àquela que se relaciona com o Verbo explícito (logos prophorikós). No entanto, não duvidar de Deus, mas crer, é o fundamento da gnosis. Mas Cristo é ambas as realidades, o fundamento (a fé) e aquilo que se constrói sobre ele (a gnosis): por meio dele está o começo e o fim. Os extremos do início e do fim — refiro-me à fé e à caridade — não são objeto de ensino: mas a gnosis é transmitida por tradição, como se entregasse um depósito, àqueles que se tornaram, segundo a graça de Deus, dignos de tal ensino. Pela gnosis resplandece a dignidade da caridade «da luz para a luz». De fato, está escrito: “A quem tem, mais lhe será dado” (Lc 19, 26): a quem tem fé, será dada a gnosis; a quem tem a gnosis, será dada a caridade; a quem tem caridade, será dada a herança… (Strom. VII, 10, 55, 1).

A fé é, por assim dizer, como um resumo do conhecimento das coisas mais necessárias, enquanto a gnosis é uma explicação sólida e firme das coisas que foram aceitas pela fé, construída sobre ela por meio dos ensinamentos do Senhor. Ela conduz ao que é infalível e objeto da ciência. A meu ver, há uma primeira conversão salvadora, que é a passagem do paganismo para a fé, e uma segunda conversão, que é a passagem da fé para a gnosis. Quando esta culmina na caridade, chega a tornar aquele que conhece amigo do amigo que é conhecido… (Strom. VIl, 10, 57, 3).