Clemente de Alexandria — Stromata
Afirmamos que a fé não é ineficaz nem infrutífera, mas que deve progredir por meio da investigação. Não afirmo, portanto, que não se deva investigar de forma alguma. Está escrito: «Buscai e encontrareis» (cf. Mt 7, 7; Lc 12, 9)… É preciso aguçar a visão da alma na investigação, e é preciso purificar-se dos obstáculos da rivalidade e da inveja, e é preciso rejeitar totalmente o espírito de contenda, que é a pior das corrupções do homem… É evidente que investigar sobre Deus, se não for feito com espírito de contenda, mas com ânimo de encontrar, é algo que conduz à salvação. Pois está escrito em Davi: «Os pobres se saciarão e ficarão satisfeitos, e louvarão ao Senhor aqueles que o buscam: o seu coração viverá pelos séculos dos séculos» (Sl 21, 27). Aqueles que buscam, louvando o Senhor com a busca da verdade, serão saciados com o dom de Deus que é o conhecimento, e sua alma viverá. Pois o que se diz do coração deve ser entendido da alma que busca a vida, pois o Pai é conhecido por meio do Filho. No entanto, não se deve dar ouvidos indiscriminadamente a todos os que falam ou escrevem… “Deus é amor” (1 Jo 4, 16), e se revela àqueles que amam. Da mesma forma, “Deus é fiel” (1 Cor 1, 9; 10, 13), e se entrega aos fiéis por meio do ensinamento. É necessário que nos familiarizemos com ele por meio do amor Divino, de modo que, havendo semelhança entre o objeto conhecido e a faculdade que conhece, cheguemos a contemplá-lo; e assim devemos obedecer ao logos da verdade com simplicidade e pureza, como crianças obedientes… «Se não vos tornardes como essas crianças, não entrareis no reino dos céus» (Mt 18, 3): ali aparece o templo de Deus, construído sobre três fundamentos, que são a fé, a esperança e a caridade… (Strom. V, 11, 1ss.)