Salvatore Lilla — Clemente de Alexandria
Os três significados principais da pistis segundo Clemente
A pistis representa, primeiramente, a atitude da mente humana ao acreditar nos primeiros princípios não demonstrados da demonstração.
A pistis também designa a convicção firme da mente após alcançar o conhecimento de algo por meio da demonstração científica.
Por fim, a pistis pode indicar a tendência dos crentes em aceitar as verdades das Escrituras sem buscar uma compreensão mais profunda.
A pistis como crença em princípios não demonstrados
A pistis é entendida como a aceitação de princípios primeiros e não demonstrados, fundamentais para evitar um regresso infinito nas cadeias de demonstração.
Afirma-se que toda demonstração deve ser traçada a partir de uma crença não demonstrada, que é denominada “primária” e confiável por si mesma.
Essa concepção tem origem em Platão e, especialmente, em Aristóteles, que defende a necessidade de princípios absolutos e não demonstrados.
O estoicismo e o médio platonismo, como visto em Albinus, também incorporaram esta doutrina dos princípios não demonstrados em seu sincretismo filosófico.
Clemente, dependente de manuais escolares, aproxima esses princípios do que é evidente tanto para a sensação quanto para a mente, como a sensação como fonte da fé.
A pistis como sínkatathesis (assentimento)
A pistis é definida como uma sínkatathesis, ou seja, um assentimento voluntário, um conceito que conecta Clemente ao estoicismo e ao médio platonismo de Antiochus de Ascalon.
Clemente afirma que tanto os platônicos quanto os estoicos consideravam os assentimentos como dependentes de nós.
Acredita-se que Clemente foi influenciado por Antiochus, que buscava demonstrar a concordância entre a Academia e o Pórtico.
A pistis como prolepsis (preconcepção)
Clemente aprova a definição de Epicuro, segundo a qual a pistis é uma prolepsis, ou preconcepção da mente, baseada na clareza das percepções sensoriais.
Apesar de criticar Epicuro por sua defesa do prazer, Clemente aceita essa doutrina por sua concordância com as visões estoicas e de Antiochus sobre as percepções sensoriais.
Acredita-se que Clemente tenha adotado essa noção não diretamente de Epicuro, mas de manuais escolares que reproduziam o ensino epistemológico de Antiochus.
A pistis como resultado da demonstração científica
A pistis também designa a crença firme da razão na verdade da conclusão de uma demonstração científica.
Distingue-se entre a pistis científica, produzida por demonstração a partir de premissas verdadeiras e primeiras, e a pistis baseada na opinião.
Essa distinção reflete a visão aristotélica entre silogismo científico, dialético e retórico, presente também no médio platonismo de Albinus.
Para Clemente, a pistis científica é superior ao conhecimento científico, pois a convicção firme da razão é o critério para a verdade.
A pistis religiosa como base para a gnosis
A pistis em sentido religioso é a atitude dos cristãos que aceitam a Escritura como verdadeira sem investigação, sendo suficiente para a salvação, mas imperfeita.
Clemente enfatiza a necessidade de desenvolver essa pistis simples em uma forma superior de conhecimento, a gnosis, por meio da pesquisa e interpretação da Escritura.
A aceitação da verdade da Escritura torna-se a arché (princípio) da demonstração, e a interpretação, a demonstração que leva à gnosis.
Essa abordagem permite a Clemente responder aos filósofos gregos (fundamento do conhecimento), aos
valentinianos (conexão entre pistis e gnosis) e aos simpliciores (caminho para melhor compreensão).