CALISTO E INÁCIO XANTHOPOULOI — CENTÚRIA ESPIRITUAL. Resumida da Philokalia em inglês
O tratado é dividido em cem capítulos que tratam da prática hesicasta, começando com a discussão sobre o dom divino e sobrenatural da graça que habita os fiéis através do Espírito Santo.
A Escritura ensina que os fiéis, que são filhos e co-herdeiros de
Deus, trazem a lei escrita silenciosamente no coração; contudo, devido à inclinação humana desde a mais tenra idade para o engano de Belial e para o que é menor, afastando-se dos
mandamentos salvíficos, tornou-se necessária a ajuda mútua na busca da virtude, conforme os
Salmos: “Não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se desviaram e se corromperam”.
O tratado responde a uma pergunta de um irmão que desejava ser iniciado com segurança nas Escrituras, obedecendo também a uma ordem dos Padres, e foi escrito apesar da preguiça habitual do autor, por medo da condenação de quem esconde o talento e para cumprir o preceito paternal de transmitir o ensinamento a outros que amam a Deus.
Prefácio e primeiro capítulo
O plano que antecede toda obra é aprender qual é o fundamento da vida espiritual.
A finalidade do empreendimento que agrada a Deus é retornar à graça perfeita do Espírito, recebida no batismo divino, por meio da guarda dos mandamentos divinizantes do
Salvador, que implica despir o velho Adão e vestir o novo Adão espiritual,
Jesus Cristo, conforme Paulo: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” e “Todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo”.
A graça, como obtê-la, o que a obscurece e o que a faz brilhar novamente.
João
Crisóstomo explica que a graça, recebida no batismo, faz a
alma brilhar mais que o sol, participando da glória do Espírito, como prata polida que recebe raios solares, e que os apóstolos, como Paulo com suas vestes e
Pedro com sua sombra, operavam
milagres por portarem esta imagem do Rei, e Estevão tinha o rosto como o de um
anjo.
Crisóstomo lamenta que, embora desfrutemos desta glória, a apaguemos em um ou dois dias com o rio das ocupações diárias e nuvens densas, e afirma que os corpos dos que agradam a Deus são vestidos de glória, como a de Moisés e a de Cristo na Transfiguração, e que está em nosso poder aumentar ou diminuir esta graça sobrenatural devido à tempestade das coisas terrenas e à noite sem lua das paixões.
Embora recebamos a graça como um dom gratuito no batismo, nós a obscurecemos com as paixões e a fazemos brilhar novamente cumprindo os mandamentos.
No momento do batismo, recebemos o dom gratuito da graça divina, e, quando a cobrimos com o uso indevido das coisas terrenas e com as paixões, podemos nos arrepender e retornar ao esplendor sobrenatural cumprindo os mandamentos, sendo que esta visão é revelada conforme a medida da diligência na fé, como diz São Marcos: “Cristo, sendo Deus perfeito, deu a graça perfeita aos batizados; de modo algum podemos acrescentar algo a esta graça, mas ela se revela conforme nosso trabalho nos mandamentos”.
Qualquer um que deseje viver de modo agradável a Deus deve esforçar-se para guardar todos os mandamentos, mas o cuidado principal deve ser com os mais universais.
Para descobrir novamente a graça do Espírito enterrada sob as paixões, devemos nos purificar para a manifestação do Espírito, pois a lei é lâmpada para os pés e o mandamento do Senhor é resplandecente, dando
luz aos olhos, e quem guarda seus mandamentos permanece nele, pois conforme o Salvador: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu
Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”.
O início de qualquer obra de amor a Deus é a invocação do nome de nosso Senhor Jesus Cristo com fé, juntamente com a paz e o amor que dela nascem.
Para orar sem ira e sem dúvida, como diz a Escritura, precisamos de fé, pois sem Cristo nada podemos fazer, e de paz, e de amor, pois Deus é amor, e estas virtudes não apenas tornam as orações aceitáveis, mas também nascem da oração, como raios gêmeos de
divindade que aumentam até a perfeição.
Uma abundância de bens espirituais é derramada sobre nós através de cada um desses princípios e de todos eles em uníssono.
Pela invocação do nome com fé, recebemos misericórdia e a vida escondida em Cristo; pela paz, somos reconciliados com Deus e entre nós; pelo amor, cuja glória é incomparável, somos unidos a Deus, pois o amor cobre multidão de pecados, tudo suporta, tudo crê, tudo esperda, tudo sofre, e o amor jamais acaba, sendo o fim da lei e dos profetas.
O Senhor Jesus Cristo deixou a seus discípulos mandamentos finais de despedida e uma herança divina no momento de sua paixão salvífica, e fez o mesmo após sua ressurreição.
Antes da paixão, o Senhor prometeu: “Tudo o que pedirdes em meu nome, eu o farei” e “Pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja completa”; após a ressurreição, disse: “Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios”, e Pedro declarou que não há salvação em nenhum outro nome debaixo do céu.
Também antes da cruz, Ele disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” e “Amai-vos uns aos outros”, e após a ressurreição, apareceu concedendo paz e disse a Pedro: “Se me amas, apascenta as minhas ovelhas”, indicando que estas três virtudes engendram a purificação, a iluminação e a perfeição.
Todas as virtudes são unidas por estes três princípios.
Este cordão tríplice e inquebrável sustenta todo o manto púrpura das virtudes tecidas por Deus, onde uma virtude brilhante se entrelaça com a seguinte, constituindo a deificação da pessoa que sinceramente vive por elas, sendo a invocação do nome do Senhor, juntamente com a paz e o amor, a verdadeira árvore de três troncos plantada por Deus que concede vida indestrutível e eterna.
O dom e a visitação do Espírito Santo de Deus Pai aos fiéis são concedidos através de Cristo Jesus e em seu santo nome.
O próprio Senhor
Jesus disse aos apóstolos que era conveniente que ele partisse para que o Consolador viesse, o Espírito da verdade que procede do
Pai, e que o
Pai enviaria o
Espírito Santo em seu nome.
Nossos santos Padres nos ordenaram sabiamente, por inspiração do Espírito Santo que neles habitava, a orar ao nosso Senhor Jesus Cristo e buscar misericórdia dele.
Antes de toda boa obra, especialmente para os que aspiram à
quietude divinizante, devemos fazer do santíssimo e doce nome de
Jesus nossa obra e estudo incessantes, levando-o continuamente no coração, mente e lábios, pois sem ele todo mal nos domina e nada de valioso permanece, como o Senhor declara: “Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”.
Aquele que deseja andar sem tropeços no caminho piedoso da quietude deve, antes de tudo, renunciar ao mundo e escolher a obediência completa.
Após a rejeição universal do mundo conforme o rito monástico, deve-se buscar um guia inerrante, reconhecível por seu testemunho baseado nas Escrituras, por ser portador do Espírito e ter vida harmoniosa com suas palavras, e a ele se dedicar inteiramente, seguindo suas instruções como a Cristo, e, quando um pensamento desobediente surgir, deve-se repreender o enganador, lembrando que “não é o viajante que conduz o guia”, conforme João Clímaco.
Cristo, sendo Deus, tornou-se obediente até a morte para nos salvar; portanto, quem espera alcançar a glória sem andar pelo mesmo caminho de obediência está totalmente enganado, pois aquele que não tem guia facilmente se perde, e a maioria dos que vivem sem submissão colhe pouco ou joio, sendo a pior coisa a vida idiorrítmica na presunção egoísta.
Quais são os sinais da verdadeira sujeição, de modo que a pessoa verdadeiramente obediente que os possuir praticará a sujeição sem erro.
Quem pratica a verdadeira obediência deve preservar cinco virtudes: primeiro, a fé pura e sincera no diretor espiritual, como se olhasse para Cristo; segundo, a verdade em palavras, atos e na confissão exata dos pensamentos e paixões; terceiro, não fazer a própria vontade, cortando-a voluntariamente; quarto, abster-se completamente de contradizer ou discutir, pois isso advém da incredulidade e presunção; quinto, a confissão exata e honesta ao ancião, conforme a promessa da tonsura monástica, pois “as contusões que são expostas não pioram, mas são curadas”.
Estas são as características da obediência honrosa, constituindo uma espécie de raiz e fundamento; ouvi, então, quais são os ramos, os frutos e a copa.
Da obediência nasce a humildade, da humildade o
discernimento, do discernimento a intuição e da intuição a presciência, que é obra de Deus; assim, esforça-te para correr na via da obediência sem tropeços, pois a pessoa verdadeiramente obediente não pode ser prejudicada nem pelo próprio
diabo, e os Padres chamam a obediência de martírio, sem o qual nenhum dos sujeitos às paixões verá o Senhor.
Para mostrar brevemente quão grande é a sublime altura da obediência, recordaremos mais uma frase de um santo Padre.
João Clímaco, o novo Bezalel da Escada Celestial, afirma que os Padres chamam o canto de arma, a oração de fortificação e as lágrimas irrepreensíveis de banho, mas consideram a obediência bem-aventurada como martírio, e a causa da corrupção anterior foi a autoconfiança e a desobediência do primeiro Adão, enquanto a causa da incorrupção foi a submissão do segundo Adão,
Jesus Cristo, no qual a raiz de todas as bênçãos é a humildade.
Um homem sábio disse certa vez que os contrários são curas para seus contrários.
Uma vez que a insubordinação e a arrogância causam todas as tristezas, enquanto a sujeição e a humildade dão origem a alegrias brilhantes, quem deseja viver sem condenação deve viver sujeito a um pai experimentado e inerrante, cuja instrução deve ser considerada como voz e vontade de Deus, pois há salvação na abundância de conselhos, e mesmo que alguns Padres tenham atingido a perfeição sem esta disciplina, a exceção não se torna lei da Igreja.
Capítulo 1
Qualquer pessoa que deseje a genuína e piedosa quietude deve, juntamente com a fé ortodoxa, estar cheia de boas obras.
O Senhor diz que nem todo o que clama “Senhor, Senhor” entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do
Pai; portanto, se desejas a santa quietude, deves estar em paz com todos, sem distração, livre de ansiedade, silencioso, quieto, agradecido a Deus em tudo, ciente da tua fraqueza, suportando as tentações com paciência, pois a fé sem obras é morta, conforme Tiago e Gregório Teólogo.
A fé é dupla.
A primeira fé é universal, de todos os cristãos ortodoxos; a segunda, rara, é daqueles que, pelo cumprimento dos mandamentos, foram restaurados à imagem e semelhança de Deus, enriquecidos pela luz da graça e tendo certeza nas petições a Deus, como diz João Clímaco: “Se não creres, como encontrarás a quietude?”, e Isaac afirma que esta fé é mais sutil que o
conhecimento e revela os mistérios escondidos na alma.
Deves ser pacífico.
Deves estar sem distração.
Isaac instrui que, se o desejo nasce dos sentidos, então todos os que afirmam preservar a paz da mente vivendo em meio a distrações devem ser silenciados, e que não se deve ter trato com homens distraídos.
Deves estar livre de ansiedade e preocupação.
O Senhor ensina no
evangelho a não andar ansioso pela vida, pelo que vestir ou comer, pois o
Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas, e buscai primeiro o reino de Deus; e João Clímaco afirma que um pequeno cabelo perturba o olho, e uma pequena preocupação arruína a quietude.
Deves ser silencioso.
Isaac escreve que quem guarda a boca da maledicência guarda o coração das paixões, e que o silêncio é um mistério da era vindoura, enquanto as palavras são instrumento deste mundo, e a voz de Deus ordenou a Santo Arsênio: “Arsênio, retira-te, cala-te, fica quieto e serás salvo”.
Deves estar quieto.
Basílio Magno afirma que a quietude é o início da purificação da alma, e Isaac diz que o fim da quietude é silenciar sobre todas as coisas, e João Clímaco descreve que a tarefa preliminar da quietude é o desengajamento de todos os assuntos, a segunda é a oração fervorosa e a terceira é a atividade inviolável do coração.
Deves agradecer a Deus em todas as coisas.
Deves reconhecer a tua própria fraqueza.
Davi reza: “Senhor, tem misericórdia de mim, porque sou fraco”, e Isaac afirma que
bem-aventurado é aquele que conhece a sua própria fraqueza, pois este conhecimento torna-se o fundamento e a raiz de toda bondade, e a pessoa que conhece a verdadeira medida de sua fraqueza atingiu o grau perfeito de humildade.
Deves suportar bravamente as tentações.
Paulo escreve que não lutamos contra
carne e sangue, mas contra potestades, e que o Senhor castiga a quem ama, e Tiago diz que o homem que não suporta a tentação não é aprovado, e Marcos ensina que, quando vem a tentação, não se deve buscar a causa, mas como suportá-la com ação de graças, pois a tentação beneficia a todos, como testemunha o próprio Paulo.
Deves esperar em Deus e esperar dele o que é benéfico.
A Escritura diz que Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, e que a aflição produz perseverança, a perseverança, caráter provado, e o caráter provado, esperança, e o salmista afirma que esperou pacientemente no Senhor, e ele o atendeu.
O temor de Deus é duplo: o temor próprio dos principiantes e o temor próprio dos perfeitos.
O primeiro temor, próprio dos principiantes, é o princípio da sabedoria, faz com que todos se afastem do mal, e Isaac diz que nasce da fé e é semeado no coração quando a mente se afasta da distração do mundo; o segundo temor, perfeito e divino, é puro e permanente para todo o sempre, e Pedro de Damasco afirma que o sinal do primeiro temor é odiar o pecado, e o sinal do temor perfeito é amar a virtude e temer o desvio.
Devemos sacrificar as nossas próprias vidas por causa dos mandamentos e da fidelidade ao Senhor Jesus Cristo, se isso for exigido de nós.
O Senhor
Jesus Cristo diz que quem perder a sua vida por causa dele e do
evangelho a salvará, e que ele é a ressurreição e a vida, e que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu
Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Agora parece um momento bom e bastante adequado para dar uma explicação preliminar de um método natural sugerido pelo grande e bem-aventurado Nicéforo sobre como entrar no coração pela respiração pelo nariz.
Este método consiste em sentar-se em uma cela quieta, concentrar o intelecto, fazê-lo passar pelo nariz para a via respiratória onde o sopro entra no coração, forçando-o a descer junto com o ar inalado para dentro do coração, e ali dar-lhe a oração “Senhor
Jesus Cristo,
Filho de Deus, tem misericórdia de mim” como tarefa e estudo incessante.
O método natural de respirar pelo nariz enquanto se invoca o Senhor Jesus Cristo.
Quando se treina o intelecto a descer ao coração enquanto respira, ele não entra ali até que tenha renunciado a todo pensamento e se tornado simples e nu, ocupado apenas com a invocação do Senhor
Jesus Cristo, e, quando parte dali e retorna às coisas externas, emerge novamente no pensamento fragmentado.
O divino Crisóstomo, como outros santos Padres antigos, nos ordena orar em Cristo Jesus nosso Senhor dentro do coração e dizer a oração.
Crisóstomo exorta a nunca quebrar a regra de oração, gritando incessantemente “Senhor
Jesus Cristo,
Filho de Deus, tem misericórdia de mim” ao comer, beber, sentar, servir ou viajar, para que o nome do Senhor desça ao fundo do coração, humilhe o dragão e salve a alma, e que não se separe o coração de Deus, mas se persista na lembrança do Senhor
Jesus até que o nome seja plantado no coração.
Mais sobre a lembrança de Jesus dentro do coração pela respiração com atenção.
João Clímaco escreve que a lembrança de
Jesus deve se apegar a cada respiração, e
Hesíquio afirma que, se desejas envergonhar os pensamentos dispersivos e encontrar a quietude facilmente, deixe a oração de
Jesus se apegar a cada respiração.
Qualquer pessoa que deseje estar vigilante no intelecto, especialmente o principiante, deve sentar-se em uma sala quieta e escura durante o tempo de oração.
Assim como o olhar e a visão dos fenômenos visíveis dispersam a mente, quando a mente é encerrada em uma sala quieta e escura, ela cessa de ser dividida e distraída pelo sentido da visão, tornando-se calma e sem divisão, acostumando-se a ser recolhida a si mesma, como diz
Basílio: “O intelecto que não se dispersa para as coisas externas nem se difunde no mundo pelos sentidos retorna a si mesmo”.
É primeira e principalmente através de Jesus Cristo e da invocação de seu santo nome com fé no coração que a cessação da ansiedade e da divagação mental é concedida ao intelecto.
Este feito do intelecto é alcançado pela assistência da graça divina através da invocação sincera do nome de
Jesus, e os Padres divinos não inventaram os métodos naturais para outro propósito senão para auxiliar de alguma forma na concentração da mente, pois, como diz São Neilos: “O intelecto atento que busca a oração a encontrará”.
Capítulo 2
Como o hesicasta deve passar o tempo entre as vésperas e o ofício matinal; início da instrução detalhada.
Ao pôr do sol, deve-se sentar numa cela quieta e escura, recolher o intelecto de sua divagação externa, empurrá-lo suavemente para o coração pela respiração nasal e persistir na oração “Senhor
Jesus Cristo,
Filho de Deus, tem misericórdia de mim”, concentrando as palavras e unindo-as à respiração, juntamente com a lembrança do juízo, considerando-se mais pecador que todos os homens e merecedor do tormento eterno, até que venham a compunção e as lágrimas.
Como passar o tempo entre o ofício matinal e a manhã.
Ao
despertar, após glorificar a Deus, deve-se começar pela oração no coração pura e sem devaneios por até uma hora, oferecendo os primeiros frutos dos pensamentos a Cristo, depois cantar o ofício da meia-noite, e em seguida sentar e orar novamente; se não houver força para a quietude perfeita, primeiro canta-se o ofício da meia-noite com vigilância e depois ora-se por uma hora.
Como passar o tempo entre a manhã e a hora da refeição.
Desde a manhã até a hora da refeição, depois de entregar-se totalmente a Deus, deve-se começar a oração pura do coração, ler em pé as passagens designadas do Saltério, do Apóstolo e do Santo
Evangelho, e depois cantar as Horas habituais com toda a força da alma, afastando a preguiça e todas as outras paixões.
Sobre guardar-se da preguiça e como até o hesicasta deve aderir à ordem e tradição eclesiásticas.
Isaac diz que a preguiça esconde a morte dentro de si, e Deus não nos condenará pelas salmodias ou pela preguiça na oração, mas por negligenciá-las, pois isso abre caminho para os demônios; a maneira como conduzimos estas pequenas questões dentro da cela foi sabiamente estabelecida como guarda para nossas vidas, e é melhor esforçar-se para não negligenciar as pequenas coisas do que dar lugar ao pecado em sua ausência.
Mais sobre a oração. Devemos orar sempre.
Crisóstomo ensina que quem ora conversa com Deus, e a oração é o trabalho comum de
anjos e homens, que faz do homem um templo de Deus, e que assim como a água é vida para o peixe, a oração o é para ti, sendo um poderoso arsenal e uma fortaleza inexpugnável, enquanto Gregório Teólogo afirma que lembrar-se de Deus é mais importante do que respirar.
Sobre o regime corporal e como o hesicasta deve comer.
A Escritura diz que se deve comer o pão com medida e beber a água com moderação, e Isaac afirma que o fundamento de todos os bens e a restauração da alma do cativeiro do inimigo são encontrados em estabelecer-se num lugar e jejuar sempre, seguindo um regime sábio e prudente em autocontrole do ventre, sentado em quietude e meditação incessante sobre Deus.
Como o asceta deve comer às segundas, quartas e sextas-feiras.
Nestes três dias, deve-se comer uma vez por dia à tarde, com seis onças de pão, comida seca com moderação e até três ou quatro copos de água, seguindo o cânon 69 dos Santos Apóstolos que prescreve a deposição para clérigos e o afastamento para leigos que não jejuarem.
Como se deve comer às terças e quintas-feiras.
Come-se duas vezes ao dia; no almoço, seis onças de pão e comida cozida com autocontrole, além de um pouco de comida seca, e vinho misturado com água até três ou quatro copos; no jantar, três onças de pão com comida seca ou frutas, e um copo de vinho misturado, pois a sede contribui para o choro e é companheira da vigilância.
Como se deve comer aos sábados. Sobre vigílias e como se deve comer nos dias e semanas com vigílias.
Aos sábados, come-se duas vezes, como na terça e quinta, devido à decisão dos Cânones Sagrados e à necessidade de celebrar vigílias nos domingos; o trabalho da vigília noturna é sempre proveitoso, pois quase todos os assaltos das paixões começam a enfraquecer através do
jejum, e a vigília noturna contribui sobremaneira para a ascese.
Como se deve comer aos domingos. Sobre outras questões, como o trabalho e a humildade.
Aos domingos, come-se duas vezes ao dia, a menos que esteja doente, e nos dias em que os Padres designaram para não jejuar, participa-se de todos os alimentos benéficos e permitidos com autocontrole, pois os santos Padres nos ensinaram a ser matadores das paixões, não matadores do
corpo.
Como se deve comer e conduzir-se durante os santos jejuns de quarenta dias, especialmente durante a Grande Quaresma.
Durante os santos jejuns de quarenta dias, deve-se observar a mesma regra da nona hora com ainda maior rigor e sobriedade, especialmente na Grande Quaresma, que é um dízimo de todo o ano oferecido a Deus.
Sobre o discernimento e como o trabalho com moderação tem valor inestimável. Mais sobre a submissão.
É necessário aplicar estas práticas com estrito discernimento para a constituição harmoniosa da natureza dupla de corpo e alma, pois o relaxamento dos membros é seguido de dissipação e confusão de pensamentos, enquanto o trabalho excessivo é seguido de desânimo, mas o trabalho realizado com diligência e moderação é de valor inestimável.
Como o asceta deve passar o tempo entre o almoço e o pôr do sol. Devemos acreditar que os dons divinos nos são concedidos na proporção do nosso esforço e da medida do nosso trabalho.
Após a refeição, deve-se ler um pouco, especialmente os escritos népticos dos Padres, depois dormir uma hora, trabalhar um pouco em artesanato enquanto continua a oração de
Jesus, e então orar da maneira descrita, esforçando-se para ser humilde e considerar-se inferior a todas as pessoas, pois aquele que se humilha será exaltado.
A oração pura é superior a qualquer obra.
Todos os métodos e regras são designados porque ainda não somos capazes de nos envolver na oração pura do coração, mas quando a alcançamos, tornamo-nos um com o Uno e Singular de uma maneira inefável, e isto é raro, pois apenas um em mil é feito digno de avançar a este estado, como escreve Isaac: “Assim como entre miríades de pessoas é difícil encontrar uma única que cumpriu os mandamentos e leis, também apenas um em mil recebe a oração pura”.
Sobre o número de prostrações a serem feitas todos os dias.
Os Padres prescreveram trezentas prostrações a cada vinte e quatro horas nos cinco dias úteis da semana, pois aos sábados, domingos e outros dias estabelecidos, somos ordenados a fazer uma pausa nas prostrações por razões místicas e indizíveis.
Os dons divinos não são concedidos apenas na proporção do nosso esforço, mas também com base no nosso hábito mental, receptividade, fé e disposição natural.
Maximos diz que o intelecto é um órgão da sabedoria divina, e cada dom divino corresponde a um órgão dentro de nós que é adequado e capaz de recebê-lo, como alguém que purificou seu intelecto de fantasias sensíveis recebe a sabedoria.
Considerando como falamos pouco sobre o aspecto prático do discernimento, agora é uma boa oportunidade para falar brevemente sobre a virtude perfeita do discernimento geral.
Quem vive de maneira carnal e contra a natureza perdeu completamente o discernimento; quem se abstém do mal e começa a fazer o bem aproxima-se de um discernimento adequado aos principiantes; quem vive segundo a natureza e segundo a alma vê e discerne as realidades em si mesmo e naqueles que se assemelham a ele; e quem vive acima da natureza e segundo o espírito, tendo avançado para o estado perfeito, vê e discerne a si mesmo e aos outros com perfeita clareza, sendo ele próprio julgado por ninguém.
Mais sobre o discernimento por meio de exemplos.
O carnal assemelha-se a quem anda na noite escura e não sabe onde vai; o principiante, a quem anda à noite com céu estrelado, tropeçando nas pedras da indiscrição; o intermediário, a quem anda com lua cheia e se vê como em um espelho; o perfeito e espiritual, a quem anda ao meio-dia no dia mais claro, vê e discerne a si mesmo e a todos, andando sem errar e guiando os que o seguem para a verdadeira luz.
Sobre a mutabilidade e mudança humanas, e a glória superior da humildade.
Aqueles que chegaram à perfeição não são imutáveis devido à fraqueza natural e à presunção que às vezes se insinua, sendo passíveis de alterações para que sejam testados, pois a imutabilidade está reservada para a era vindoura, e Isaac afirma que a humildade, mesmo sem obras, perdoa muitas faltas, pois é o sal de toda virtude.
Sobre o arrependimento, a pureza e a perfeição.
Isaac diz que a perfeição em todos os caminhos é realizada por meio destas três coisas: arrependimento (abandonar os pecados passados e lamentá-los), pureza (um coração compassivo por toda a criação) e perfeição (a profundeza da humildade, que significa abandonar todas as coisas visíveis e invisíveis).
Capítulo 3
É tempo de explicarmos, como prometido, o método de começar a santa e divinizante quietude.
O hesicasta principiante deve passar seus dias e noites fazendo cinco tarefas: orar (lembrança constante do Senhor
Jesus pela respiração nasal, com os lábios fechados, sem pensamentos ou imaginação), cantar, ler (o Saltério, os Apóstolos, os
Evangelhos e os escritos népticos), meditar (nos pecados, no juízo de Deus, na morte, no inferno ou no deleite do Paraíso) e engajar-se em um pequeno artesanato para evitar o desânimo.
Onde devem começar aqueles que desejam viver a vida hesicasta de maneira adequada e racional? Qual é o seu ponto de partida e qual é a medida da melhoria, do progresso e da perfeição?
Começam com o temor de Deus, o cumprimento dos mandamentos, a liberdade de preocupações e a fé; depois crescem na esperança, progridem para a medida da estatura da plenitude de Cristo, com um
eros transbordante por Deus vindo da oração pura, e chegam à união com Aquele que é Sumamente Desejável, que procede do amor perfeito.
A ordem da quietude para principiantes.
O principiante não deve deixar continuamente sua cela, deve abster-se de conversas e ocupações com quaisquer assuntos, a menos que seja por certas necessidades urgentes, pois estas ocupações causam dispersão da mente, e Isaac afirma que a quietude mortifica os sentidos externos enquanto anima os movimentos internos.
Sobre a oração do coração com atenção e vigilância, e como ela funciona.
Através da frase “Senhor
Jesus Cristo,
Filho de Deus”, o intelecto é elevado de maneira imaterial ao próprio Senhor
Jesus Cristo, e através da frase “tem misericórdia de mim”, ele retorna a si mesmo, mas quando atingiu o amor pela experiência, é simples e totalmente elevado ao Senhor.
As diferentes maneiras como os Santos Padres nos transmitiram a Oração de Jesus. O que é a oração.
Crisóstomo apresenta a oração inteira, exortando a gritar incessantemente “Senhor
Jesus Cristo,
Filho de Deus, tem misericórdia de mim” em toda atividade; Paulo escreveu a parte “Senhor
Jesus”; Diádoco afirma que ninguém pode dizer “Senhor
Jesus” senão pelo
Espírito Santo;
Hesíquio recomenda a oração com as palavras “Cristo
Jesus”; e João Clímaco menciona simplesmente “
Jesus”, dizendo que não há arma mais forte no céu ou na terra.
As palavras da sagrada e divina oração foram ensinadas misticamente não apenas pelos Santos Padres, mas também pelos maiores apóstolos Pedro, Paulo e João.
Paulo diz “Senhor
Jesus”, João diz “
Jesus Cristo”, Pedro diz “Cristo,
Filho de Deus”; os Padres celestiais uniram estas palavras em uma só através do
Espírito Santo e as transmitiram como baluarte da oração, sendo que a adição da frase “tem misericórdia de mim” foi designada por Padres divinos posteriores para os mais infantis na virtude.
Os principiantes podem às vezes orar com todas as palavras da oração e às vezes com uma parte dela, mas sempre no coração. Não se deve mudar continuamente as palavras da oração.
Diádoco afirma que quem habita constantemente em seu próprio coração está alienado dos encantos desta vida, e Isaac escreve que o coração da pessoa que examina sua alma a cada hora se regozija nas revelações, mas não se deve mudar continuamente as palavras da oração, para que o intelecto não se acostume com instabilidade.
Muito tempo, luta e força são necessários para que alguém dê fruto no coração através da oração. Na verdade, nenhum bem pode ser alcançado exceto através de grande trabalho e após um longo período de tempo.
A oração incessante do coração não pode ser simplesmente realizada com um pouco de breve esforço, mas requer muito tempo e luta, e Isaac diz que quem deseja ver o Senhor inventa maneiras de purificar seu coração através da lembrança incessante de Deus, e
Crisóstomo afirma que isto não é obra de um dia ou dois, mas leva muito tempo.
Oração do coração que ainda não é pura e como entrar na oração pura e sem divagações.
Persistindo no método acima, mesmo que a oração não seja totalmente pura devido a noções apaixonadas, quem se esforça adquirirá o hábito de orar verdadeiramente e sem esforço, com o intelecto habitando no coração, e
Hesíquio afirma que
bem-aventurado é quem invoca
Jesus incessantemente no coração, pois quando o santo e venerável nome do Senhor
Jesus brilha continuamente na mente, ele traz inúmeros pensamentos esplêndidos como o sol.
Oração pura e sem divagações do coração e o fervor por ela gerado.
Esta oração traz um calor ao coração, o fogo que o Senhor
Jesus veio lançar na terra de nossos corações, e do qual Cléofas e seu companheiro sentiram o coração arder, e Isaac afirma que deste trabalho laborioso nasce um fervor imensurável que queima no coração através das memórias fervorosas, e João Clímaco diz que quando o fogo vem habitar no coração, ele revive a oração.
O fervor pode ser produzido por uma variedade de causas, mas o tipo principal é aquele que é trazido pela oração pura do coração.
Embora o fervor possa ser produzido de muitas maneiras diferentes, o principal parece ser aquele trazido pela oração pura do coração, através do qual o fervor progride constantemente e finalmente atinge um “
repouso sabático” na “iluminação enhipostática”.
Qual é o trabalho que segue o aquecimento do coração.
Este fervor afasta as coisas que antes impediam a oração de ser realizada com completa pureza, pois Diádoco explica que quem deseja purificar seu coração deve mantê-lo sempre em chamas através da lembrança do Senhor
Jesus, nunca cessando esta tarefa, pois assim como alguém que deseja purificar o ouro o perderia se deixasse o fogo da fornalha cessar por um momento, o mesmo acontece com quem se lembra de Deus apenas de vez em quando.
Sobre o anseio e o eros que nascem do fervor, da atenção e da oração.
Neste tipo de calor e oração com atenção, nasce no coração um anseio e um eros divino e amor para com o Senhor
Jesus Cristo constantemente lembrado, e Maximos diz que todas as virtudes trabalham juntas com o intelecto para inspirar o eros divino, mas nenhuma mais do que a oração pura.
Sobre as lágrimas do coração e mais sobre o anseio e o eros divinos.
De tal coração fluem lágrimas abundantes que purificam e alegram aquele que foi enriquecido com estas coisas através do amor, e então o coração entusiasmado clama: “Tu me cativaste com anseio, ó Cristo”, e juntamente com Paulo grita: “O amor de Cristo nos constrange”.
Admoestação de que se deve buscar apenas o que está na devida medida. Exortação adicional sobre a constante lembrança de nosso Senhor Jesus Cristo em nossos corações.
Deve-se esforçar para ser feito digno de tais grandes coisas, mas como diz São Marcos: “Não é benéfico saber o que vem depois antes de completar o que vem primeiro”, portanto deve-se sempre lutar para carregar a memória do Senhor
Jesus Cristo nas profundezas do coração a todo momento.
Sobre o zelo fervoroso e a manifestação divina da iluminação enhipostática a nós através da graça.
Assim, alguém se afastará facilmente não apenas de más ações e pensamentos apaixonados, mas também se afastará completamente de todo pensamento e fantasia, estando em chamas com zelo fervoroso pela virtude, e Isaac afirma que ele é terrível para os demônios e querido por Deus e seus
anjos, e retornará à dignidade original e adoção espiritual como filho.
Sobre a energia divina e a energia demoníaca.
Quando o intelecto vê a luz sem buscá-la, não deve nem aceitá-la nem rejeitá-la, como diz São Marcos: “Há uma energia da graça não facilmente reconhecida por infantes espirituais, mas há também uma energia do mal que apenas se assemelha à verdade”; portanto, deve-se refugiar em Deus através da esperança.
Sobre o mestre iluminado e inerrante.
Se alguém encontrou um guia espiritual que ensina não apenas o que sabe da Escritura, mas também de acordo com o que ele mesmo experimentou pela bem-aventurada iluminação divina, graças a Deus; mas se não, é melhor não aceitar [a luz vista], mas refugiar-se em Deus em humildade.
Sobre a iluminação verdadeira e falsa – isto é, a luz divina e a luz do maligno.
Paulo de Latros disse que a luz do poder diabólico é ardente e esfumaçada, semelhante ao fogo sensível, e a alma purificada a sente nojo e a detesta, mas a luz do Bem é boa, graciosa e pura, e quando vem, santifica a alma, enche-a de luz, alegria e contentamento, e a torna mansa e amante das outras pessoas.
Sobre imaginações indecentes e decentes e como se deve lidar com elas.
A fantasia maldita se opõe fortemente à oração pura do coração, sendo uma ponte para os demônios; portanto, é imperativo expulsar completamente a imaginação, com exceção para o arrependimento, o estudo das realidades ou para combater uma imaginação indecente com uma decente.
Tanto a imaginação indecente quanto a decente são rejeitadas pelos Santos para o propósito da oração pura e da atividade simples e unificada do intelecto.
Os avançados rejeitam inteiramente ambas as imaginações para alcançar a oração pura, pois
Hesíquio diz que todo pensamento apaixonado entra no intelecto através da imaginação de algo sensível, e
Basílio afirma que o Senhor não habita em figuras e ficções da mente.
Mais sobre as imaginações e as “muitas e várias visões e contemplações”.
As visões dos profetas não vieram através da imaginação natural, mas seus intelectos foram formados e receberam imagens de maneira divina e sobrenatural pelo poder e graça do
Espírito Santo, e a contemplação “por recepção” é superior à contemplação “por aplicação”, pois aquela brota naturalmente dentro do coração diretamente do próprio Deus.
Sobre as cinco potências da alma; similarmente, sobre as imaginações naturais da alma e do intelecto, e como é necessário evitar completamente a imaginação.
A alma possui cinco potências: intelecto, mente, opinião, imaginação e sensação; portanto, a alma deve esforçar-se para elevar e mover as potências que mais a unem a Deus (intelecto e mente) durante a oração pura, separando completamente o intelecto da imaginação.
Mais sobre o intelecto.
O intelecto, sendo uma essência indivisa, simples e independente, pura e radiante, deve guardar-se livre e separado da imaginação, possuindo o poder natural para fazê-lo, retornar a si mesmo, concentrar-se e mover-se sem impedimentos, e
Basílio afirma que o intelecto que não se dispersa para as coisas externas retorna a si mesmo e ascende à contemplação de Deus.
Mais sobre a oração pura.
Neilos diz que se deve esforçar para tornar o intelecto quieto, surdo e mudo durante o tempo de oração, e que
bem-aventurado é o intelecto que adquiriu o hábito de estar livre de formas durante a oração, enquanto
Filoteu afirma que raramente se encontram pessoas que guardam quietude em sua mente e razão.
Que a despaixão do intelecto é uma coisa e a verdadeira oração é outra, maior que a despaixão.
Maximos afirma que o intelecto não pode tornar-se desapaixonado pela ação sozinha, e Neilos explica que alguém pode tornar-se desapaixonado e ainda não orar verdadeiramente, pois pode estar distraído e longe de Deus, e que a oração verdadeira está além da despaixão, sendo um rapto do intelecto.
Mais sobre imaginações e impressões do intelecto e os sinais do engano e da verdade.
Quando estiveres quieto e desejares estar sozinho com Deus Sozinho, nunca aceites nada que vejas, sensível ou inteligível, mesmo que seja a forma aparente de Cristo ou um
anjo, até consultares os experientes; os sinais do Espírito da Verdade são amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, domínio próprio.
Sobre a diferença entre a consolação divina e a falsa consolação.
Diádoco explica que quando o intelecto começa a sentir a graça do
Espírito Santo,
Satanás também tenta consolar a alma com uma falsa doçura durante o
sono leve noturno, mas a boa e divina consolação manifesta-se enquanto o corpo está acordado ou a ponto de adormecer, apegado ao amor de Deus na lembrança fervorosa, e a falsa consolação tenta arrancar a experiência da percepção espiritual.
Sobre o prazer divino que brota do coração.
Quem pode descrever o prazer divino e a alegria sobrenatural e vivificante que brota da oração pura e verdadeira do coração, da qual o Deus-homem
Jesus diz que a água que ele dá se tornará no que a bebe uma fonte de água a jorrar para a vida eterna?
Este deleite espiritual é significado por muitos nomes, mas também é inominável.
Este deleite espiritual foi misticamente chamado de iluminação sobrenatural e vivificante e enhipostática, treva superluminosa, beleza inconcebível, visão de Deus e deificação, e
Basílio afirma que os relâmpagos da beleza divina são totalmente inefáveis e indescritíveis, não podendo ser vistos por olhos de carne, mas apenas pela alma e mente.
Qualquer pessoa que deseje viver em quietude perfeita deve ser mansa de coração.
Assim como quem deseja aprender a atirar com arco não estica o arco antes de ter alvos para praticar, quem deseja aprender a viver em quietude deve ter a mansidão constante do coração como alvo, pois o Senhor disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”.
Como podemos alcançar a mansidão e sobre as três partes da alma: a irascível, a apetitiva e a racional.
Alcançarás a mansidão facilmente afastando-te de todas as coisas e agitando a tua alma ao amor, mantendo silêncio o máximo possível, comendo com moderação e orando sempre, refreando a parte irascível da alma pelo amor, murchando a parte apetitiva pelo autocontrole e dando asas à parte racional pela oração.
Deve-se prontamente arrepender-se de quaisquer ofensas cometidas e assim estar sabiamente preparado para o futuro.
Se alguma vez fores perturbado ou caíres em alguma ofensa, deves reconciliar-te imediatamente com a pessoa que te magoou ou que tu magoaste, e arrepender-te com toda a tua alma, pois Paulo exorta a que não se ponha o sol sobre a ira.
Sobre a tropeço e o arrependimento.
Isaac diz que não nos aflijamos quando tropeçamos em alguma paixão, mas apenas quando persistimos nela, pois os tropeços acontecem frequentemente até entre os perfeitos, mas persistir no pecado é a morte total, e o arrependimento foi dado aos seres humanos como uma segunda graça, sendo a porta da misericórdia.
Mais sobre o arrependimento, o temor, o amor, o pranto, as lágrimas e a auto-culpa.
Isaac continua afirmando que o arrependimento é o navio, o temor é seu capitão e o amor é o porto celestial; Antônio Magno diz que a maior obra do homem consiste em tomar seu erro sobre si mesmo diante de Deus e estar preparado para a tentação até o último suspiro, e
Abba Poimen afirma que a virtude que o homem não pode dispensar é culpar-se sempre a si mesmo.
Sobre a precaução e a sábia circunspecção.
Paulo escreve para que se ande com circunspecção, não como néscios, mas como sábios, e Isaac diz que
bem-aventurado é quem encontrou a sabedoria, pois por meio dela um homem permanece sempre vigilante até nas menores coisas que lhe acontecem.
O hesicasta deve esforçar-se para fazer tudo o que dissemos, e acima de tudo, para estar quieto e manso e devotado a invocar o Senhor Jesus Cristo puramente dentro do coração.
Deve-se esforçar para fazer tudo o que foi dito, mas acima de tudo, para invocar em quietude, mansidão e com consciência pura o Senhor
Jesus Cristo nas profundezas do coração, pois então a sua graça divina repousará na alma, e João Clímaco afirma que quem é ainda perseguido pela raiva, presunção, hipocrisia e rancor nunca deve ousar pisar no caminho da quietude.
Sobre o belo e extático eros, e a beleza divina.
Todo o desejo de tal hesicasta, seu eros extático do coração e toda a sua disposição são direcionados para a Beleza sobremodo amável e bem-aventurada, que os Padres chamam de Desejo Final, e
Basílio afirma que quando o eros da piedade toma posse da alma, ela olha para toda espécie de guerra contra ela com desprezo.
Sobre a guerra espiritual, o afastamento de Deus para instrução e o afastamento do abandono.
Ao hesicasta é permitido ser atacado não porque Deus o abandona, mas porque o instrui pelo afastamento, para que seu intelecto não se exalte, e Diádoco explica que há um afastamento para instrução que traz grande tristeza e humildade, e outro afastamento em que Deus abandona a alma que não o quer, enchendo-a de desespero.
Sobre a despaixão. O que é a despaixão humana?
Basílio descreve a despaixão como aquele que se tornou amante de Deus e contempla o divino com olhos puros e sem nuvens; Isaac afirma que a despaixão não é de modo algum uma incapacidade de sentir as paixões, mas sim de não aceitá-las, e Maximos a define como um estado pacífico da alma no qual ela dificilmente se inclina para o mal.
Mais sobre a despaixão e a perfeição.
Efraim diz que os desapaixonados estendem-se insaciavelmente para o desejo final e fazem a perfeição sem fim, e Neilos afirma que há duas perfeições: uma temporal e outra eterna, e Paulo reconhece a mesma pessoa como perfeita e não perfeita.
Sobre o desejo apaixonado, a paixão da busca de prazer, a sensualidade apaixonada e a despaixão.
Elias, o Presbítero, afirma que o desejo apaixonado é a matéria maligna do corpo, a paixão da busca de prazer é a da alma, e a sensualidade apaixonada é a do intelecto, e que o homem de despaixão mantém-se longe de todas estas três.
Qual é o caráter do homem apaixonado, do que busca prazer, do sensual e do desapaixonado, e qual é a terapia para cada tipo de paixão.
O homem apaixonado tem sua inclinação para o pecado mais forte que sua faculdade racional; o que busca prazer tem sua tendência mais fraca que sua faculdade racional; o sensualista se rendeu voluntariamente a várias maneiras de pecar; o desapaixonado mantém-se longe de todas elas; e a terapia consiste em jejum e oração para o desejo apaixonado, vigília e silêncio para a busca de prazer, e quietude e atenção para a sensualidade apaixonada.
Sobre a fé, a esperança e o amor.
João Clímaco escreve que após tudo o que foi dito, permanecem estas três que unem e seguram a união de tudo: fé, esperança e amor, sendo o maior o amor, e Isaac afirma que a perfeição dos frutos abundantes do Espírito é alcançada quando alguém é feito digno do perfeito amor de Deus.
Sobre a Santa Eucaristia e todos os benefícios que nos são concedidos através da comunhão frequente com consciência limpa.
Não há nada que contribua tanto para a purificação da alma, iluminação do intelecto, santificação do corpo, divina transformação e
imortalidade de toda a pessoa quanto a contínua recepção e comunhão dos santos Mistérios do precioso Corpo e Sangue de nosso Senhor
Jesus, desde que feita com sinceridade e pureza de coração.
É necessário entender o milagre dos Santos Mistérios: o que são, por que foram dados e quais são os seus benefícios.
Crisóstomo escreve que Cristo não quis apenas que nos tornássemos seu corpo espiritualmente através do amor, mas também que fôssemos realmente misturados com a sua carne através da comunhão, e que aqueles que participam do santíssimo Corpo e do precioso Sangue estão junto com os
anjos, vestidos com a veste real de Cristo e armados com armas espirituais.
Conclusão de todos os tópicos que foram discutidos em detalhe e uma breve exortação ao inquiridor.
Portanto, caríssimo filho, teu pedido foi atendido com a ajuda de Deus; portanto, certifica-te de que a tua estudiosidade e diligência não param aqui, mas que proves ser estudioso e diligente também nas obras, pois Tiago afirma que aquele que é ouvinte da palavra e não praticante é como quem observa o seu rosto natural num espelho e se esquece de como era.
Deve-se obedecer e seguir os preceitos espirituais dos Padres.
É essencial que obedeças e recebas os divinos e espirituais preceitos dos Padres com fé e reverência devida, pois
Macário afirma que as realidades espirituais não podem ser tocadas pelos inexperientes, e que os tesouros celestiais do Espírito se tornam manifestos apenas à pessoa que os experimentou.
Recapitulação. Como se deve orar. Sobre a verdadeira iluminação e o poder divino.
Os Padres dizem que quem deseja ser sóbrio na mente deve sempre esforçar-se para orar com o coração puramente, concentrando-se apenas nas palavras da oração de
Jesus até o momento da iluminação do intelecto no coração, pela qual os verdadeiros crentes são guiados como por uma lâmpada inextinguível e radiante, vendo claramente realidades que estão além dos sentidos, e alguns santos Padres, ainda na carne, andaram sobre rios e mares e foram levantados da terra como por asas.
Outra recapitulação.
O início e a causa destas realidades novas e maravilhosas das quais falamos é a quietude, a atenção e a oração em completa liberdade de ansiedade, que acendem o fervor e o calor no coração, que por sua vez acendem o desejo e o eros incessante pelo Senhor
Jesus Cristo, do qual jorra um doce fluxo de lágrimas sinceras, dando origem à serenidade e paz de espírito, que trazem uma iluminação brilhante, e finalmente a despaixão, a ressurreição da alma antes do corpo e a união imediata com Deus.
A quietude com obediência é verdadeiramente o modo de vida inerrante, verdadeiro e agradável a Deus que foi transmitido pelos Padres.
Este é o caminho que agrada a Deus, a vida noética e a obra sagrada dos verdadeiros cristãos, a vida escondida em Cristo manifestada, o caminho que o Deus-homem
Jesus trilhou, que os divinos Apóstolos pisaram, e que nossos renomados guias e mestres seguiram, transmitindo a boa semente, o fermento sagrado, a herança divina, o penhor do Espírito de geração em geração até a Segunda Vinda de Cristo.
Embora existam também outros caminhos que levam à salvação, este é o principal e real caminho real e conduz à nossa adoção como filhos.
Existem certamente outros caminhos que levam a pessoa que os segue à salvação, mas este caminho é de fato o principal e real caminho real, que excede e supera todos os outros trabalhos espirituais na mesma medida em que a alma supera o corpo, recriando do pó e da cinza a pessoa que o segue fielmente, levando-a à adoção como
filho de Deus.
Este modo de vida é chamado por vários nomes devido à sua sublimidade.
Os Padres divinos exaltaram este caminho com uma grande variedade de esplêndidas denominações, chamando-o de caminho do conhecimento, prática louvável, contemplação consumada, oração além do entendimento, vigilância do intelecto, atividade angélica, vida celestial, Paraíso divinizante, o próprio céu, a visão de Deus e deificação, e assim por diante.
Exortação ética: juntamente com a ajuda e graça de Deus, é também necessário que nos esforcemos e lutemos com todo o nosso empenho para nos tornarmos dignos de dons tão grandes e sobrenaturais.
Considerando, então, que temos tão grandes bens diante de nós, não nos contentemos apenas com esperanças e promessas para o futuro, mas esforcemo-nos avidamente em verdade e em ato, começando desde este momento presente enquanto ainda temos tempo, pois Paulo clama que os sofrimentos deste tempo presente não são dignos de serem comparados com a glória que será revelada em nós.