Ambos os tratados, “De Mysteriis” e “De Sacramentis” tratam dos sacramentos da iniciação cristã: batismo, confirmação, Eucaristia. Estes sermões endereçam-se aos novos batizados e desenvolvem uma catequese pascal sobre o simbolismo dos ritos e da Escritura. Testemunham do cuidado extremo no cristianismo dos primeiros séculos, que o pastor tomava em comentar as celebrações batismais, verdadeiras iniciações.
A água vista no batismo remete ao ensinamento apostólico de que não se deve olhar o que é visível, mas o que é invisível e eterno
citação de Paulo: “não é preciso olhar o que se vê, mas o que não se vê, pois o que se vê é temporal, enquanto o que não se vê é eterno” (
2 Coríntios 4:18)
citação aos Romanos: “as coisas invisíveis de Deus desde a criação do mundo são compreendidas por meio daquelas que foram feitas” (
Romanos 1:20)
citação de
Jesus: “Se não credes em mim, crede ao menos nas obras” (
João 10:38)
A antiguidade do mistério remonta à origem do mundo, quando o Espírito pairava sobre as águas, agindo nessa criação
A corrupção da
carne afastou a graça espiritual, levando ao dilúvio e à entrada de Noé na arca, donde se soltaram o corvo que não voltou e a pomba que retornou com o ramo de oliveira
citação do Gênesis: “O meu Espírito não permanecerá nos homens, porque eles são carne” (
Gênesis 6:3)
a água sepulta o pecado carnal, o madeiro figura a cruz onde
Jesus sofreu, a pomba figura o
Espírito Santo, o corvo figura o pecado que sai e não retorna
A passagem dos hebreus pelo mar, sob a nuvem, prefigura o batismo, no qual o egípcio perece e o hebreu escapa intacto
citação de Paulo: “Nossos
pais ficaram todos sob a nuvem, todos eles atravessaram o mar e todos eles foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar” (
1 Coríntios 10:1-2)
citação do cântico de Moisés: “Enviaste o teu Espírito, e o mar os engoliu” (
Êxodo 15:10)
A boa nuvem que resfriava as paixões carnais protegia aqueles visitados pelo
Espírito Santo, assim como o poder do Altíssimo cobriu com sua sombra a virgem Maria
citação de Lucas: “A lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por
Jesus Cristo” (
Lucas 1:35)
A fonte amarga de Mara, adoçada pela madeira lançada por Moisés, figura a água que somente pela menção da cruz do Senhor se torna apta ao banho espiritual e à taça salutar
A confiança não deve limitar-se aos olhos do
corpo, pois aquilo que não se vê, discernido pelo espírito e pela mente, é o que verdadeiramente importa
A história de Naamã, o sírio leproso, conduzido por Eliseu a mergulhar sete vezes no Jordão, ilustra a purificação que não depende do próprio sujeito, mas da graça
A jovem cativa que indicou o
profeta a Naamã figura a Igreja, jovem assembleia entre as nações, antes oprimida pelo cativeiro do pecado e depois liberta pela graça
A questão sobre como afirmar receber-se o corpo de Cristo, quando outra coisa se vê, exige prova mediante grandes exemplos de que a bênção, mais poderosa que a natureza, muda a própria natureza
A transformação da vara de Moisés em serpente e de volta em vara, a mudança das águas do Egito em sangue e seu retorno, a separação das águas do mar Vermelho, o retorno do Jordão à sua fonte, a água brotada da pedra, o adoçamento das águas de Mara pela madeira, e o ferro do machado que veio à tona pela ação de Eliseu demonstram o poder superior da graça sobre a natureza
A força da bênção profética, capaz de mudar a natureza, conduz à consideração de quanto maior é a consagração realizada pelas próprias palavras do Senhor
Salvador
citação do
Salmo: “ele disse, e as coisas foram feitas; ele ordenou, e elas foram criadas” (
Salmos 32:9; 148,5)
A concepção da Virgem Maria fora da ordem natural da geração estabelece o fundamento para a verdade do mistério eucarístico, sendo o corpo produzido o mesmo nascido da Virgem, crucificado e sepultado
A proclamação do Senhor sobre o pão e o vinho — “Isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue” — opera a mudança de designação após a consagração, à qual corresponde o “Amém” pronunciado como reconhecimento de verdade
A alimentação da Igreja por estes sacramentos fortalece a substância da
alma, celebrada pelas palavras dirigidas à esposa no Cântico dos Cânticos
A Igreja, respeitando a profundidade dos mistérios, rejeita as tempestades e convida a suavidade da graça, convocando o esposo a vir ao jardim
citação: “Levanta-te, Aquilão, e vem vento sul: sopra no meu jardim para que os meus perfumes se espalhem. Que meu irmão desça ao seu jardim e coma o fruto de suas árvores frutíferas” (
Cantares 4:16-5,1)
O Senhor responde à fertilidade do jardim declarando ter colhido seus frutos, comido seu alimento e bebido sua bebida
citação: “Entrei em meu jardim, minha irmã, minha esposa. Colhi a minha mirra com os meus perfumes, comi o meu alimento com o meu mel, bebi a minha bebida com o meu leite” (
Cantares 5:1)
A Igreja exorta seus filhos a acorrerem aos sacramentos, repetindo o convite ao comer e ao beber espiritual anunciado pelo profeta
A regeneração recebida não segue a ordem natural da geração, assim como a concepção de Cristo por Maria pelo
Espírito Santo, sem intervenção de homem, rompeu essa mesma ordem
-
a vinda do
Espírito Santo sobre a fonte batismal realiza, para os que se apresentam ao batismo, a mesma verdade da regeneração