A dualidade ontológica ligada à concepção da realidade criada, exterior à Causa mas fundada no pensamento do Artesão divino, não afeta a unidade do Verbo no qual as razões eternas coincidem com a Razon única da produção externa.
-
A noção que se tem do Verbo divino parece se polarizar em aspectos exterior e interior, sonoro e silencioso, sem que ocorra a divisão da mesma Palavra de Deus.
-
Mestre
Eckhart nota que as águas superiores ao firmamento bendizem o Verbo de Deus de forma perfeita porque louvam em silêncio e acima do tempo o Verbo que habita no silêncio do Intelecto do Pai, como um Verbo sem verbo.
-
O ser virtual de todas as coisas possui nobreza pelo fato de o próprio Verbo subsistir no Intelecto do Pai em silêncio, sem proceder para fora como Cause produtora.
-
O Verbo silencioso, definido como palavra sem palavra superior a toda elocução, reside no silêncio do Intelecto paternel e contém todas as razões eternas ou ideias das criaturas.
-
O Verbo permanece no Intelecto divino como a razão segundo a qual o Pai o produz, mesmo procedendo Dele.
-
Mestre
Eckhart lembra que o termo grego Logos significa em latim tanto verbum quanto ratio.
-
O exemplo da arca na mente do artesão aplica-se em certo sentido ao Verbo de Deus, embora o ser exterior recebido pelas criaturas lhe permaneça alheio enquanto não se operar a encarnação.
-
O Filho ou Verbo permanece um com o Pai ou Princípio por ser essencialmente idêntico a Ele, situando-se junto a Deus e não abaixo de Deus.
-
As criaturas qualificam-se como seres analógicos que se encontram dotados de um ser exterior após a produção, sendo inferiores e situadas abaixo do princípio do qual descendem.
-
A procissão do Verbe e a da criatura a partir do mesmo Princípio mostram-se tão aproximadas na doutrina de Mestre
Eckhart que ele foi acusado de defender a eternidade da criação, apesar da distinção entre a geração que não passa para o não-ser e a criação que é uma descida.
-
O aspecto interior do Verbo sem palavra remete ao Logos imanente dos estoicos, de Fílon e de teólogos cristãos dos primeiros séculos.
-
Eckhart adota uma distinção terminológica fundamentada em santo
Agostinho entre o Logos grego e o Verbum latino, associando o primeiro à razão que sinaliza a relação da segunda pessoa da Trindade com o Pai e o segundo ao vínculo do Filho com as criaturas.
-
A distinção poderia sugerir que o Verbo proferido pelo Pai possuísse em si um modo de ser diferente daquele que mantinha no Intelecto divino como razão.
-
Nessa linha interpretativa, o Verbo teria um ser virtual no Princípio e algo análogo ao ser formal em si mesmo por constituir uma Pessoa produzida pelo Pai.
-
Mestre
Eckhart declara que o Filho não está sob a mesma propriedade no Pai e no mundo, habitando no Pai como Razão não feita e no mundo como ser, motivo pelo qual o mundo foi feito por Ele mas não o conheceu.
-
A listagem de autoridades do Evangelho de são João explicita que o Filho está no Pai como verbo e razão, mas no mundo encontra-se como ser e ser feito, o que impede o mundo de conhecê-lo.
-
A dificuldade dos textos encontra esclarecimento no Liber parabolarum Genesis, onde
Eckhart aborda a dupla produção divina abrangendo a emanação eterna do Filho e do Espírito Santo pelo Pai e a criação temporal do universo por um único Deus.
-
O caráter da criação geral assemelha-se à ação dos agentes naturais que produzem algo fora de si a partir de um certo não-ser em direção a um certo ser, como um cavalo gerado de um não-cavalo.
-
O princípio produtor define-se como causa de um certo ser, ao passo que o produto assume o sentido e o nome de feito, exteriormente feito ou efeito.
-
A definição de causa em Aristóteles assinala a alteridade do efeito ao estabelecer que a causa é aquilo a partir do qual se segue outra coisa.
-
Os traços da eficiência dos agentes naturais manifestam-se nos efeitos da Causa divina, caracterizando-os como criados ou criatura por virem a lume fora do princípio produtor.
-
A primeira produção no âmbito divino recebe um aspecto negativo em relação à criação por não ser exterior ao produtor, por não ter o não-ser ou o nada como termo inicial e por não ter o ser como termo final.
-
O Princípio produtor na emanação divina não atua como Criador ou Causa, e o produto não constitui um feito, um criado ou um efeito, tratando-se de uma procriação imanente onde o termo gerado não é outra coisa, mas um com o princípio.
-
A produção sob a razão de ser significa para Mestre
Eckhart uma ação transitiva que gera o ser a partir do não-ser.
-
O ser assume no contexto o único sentido de ser criado, produzido do nada como um tal ser determinado, diferindo do ser simplesmente comum às pessoas divinas cuja produção não é uma passagem do não-ser ao ser.
-
Esse ser exteriorizado constitui a primeira realidade criada se a razão da presença operativa de Deus em seus efeitos é o ser.
-
As coisas extraídas do não-ser recebem um ser que configura um produto imperfeito no qual o produtor não se manifesta de modo pleno, embora tudo o que é produzido por alguém represente seu verbo ou a locução pela qual se anuncia.
-
A existência de duas produções distintas permite falar também de dois verbos — o interior e o exterior.
-
O ato do dire pelo qual um produtor se manifesta é duplo, compreendendo a expressão que pertence à natureza íntima do produtor como um ato inseparável e o ato exterior que é pronunciado fora da essência produtora, a qual poderia subsistir sem ele.
-
A distinção aplica-se à palavra divina que se divide em Verbo interior, pelo qual o Pai exprime sua essência, e mundo criado, que funciona como uma palavra exteriorizada que deixa transparecer algo próprio do Pai sem dizê-lo perfeitamente.
-
O Verbo interior permanece na interioridade do Princípio e não procede fora da substância do Pai ou do Un, diversamente do verbo exterior que se efetua fora do Un e não constitui uma pessoa divina.
-
O verbo proferido representa o universo criado na medida em que este manifesta a onipotência de Deus, embora a ação divina permaneça única e perfeita em seu Verbo interior.
-
Deus diz tudo e fala a todos, mas nem todos são capazes de ouvi-lo ou só o ouvem em parte, segundo o ensinamento de santo
Agostinho.
-
Ouvir a Deus significa receber Dele o ser criado parcial e fragmentado, que se mostra insuficiente para manifestar o ser essencial que o Verbo e as razões de todas as coisas possuem no Intelecto paterno.
-
A manifestação imperfeita constitui uma ressonância externa do Verbo silencioso, cuja elocução só é sonora na medida em que é percebida pelo ouvido criado sob a razão de ser que provém da eficácia divina.
-
A criatura não conheceu o Filho presente no mundo sob a propriedade do ser em razão desse caráter da manifestação.
-
Mestre
Eckhart não explicita se essa presença do Filho no mundo designa a potência operativa do Verbo ou a Pessoa do Filho encarnado que o mundo não conheceu em sua Divindade.
-
A mente do dominicano turingiano devia unificar os dois sentidos, que aparecem fundidos em um trecho sobre a recompensa do século futuro.
-
O conhecimento da Divindade constitui o prêmio essencial dos bem-aventurados, mas estes receberão também um prêmio acidental ao conhecerem as criaturas em Jesus-Christ que foi enviado ao mundo.
-
A inclusão do conhecimento das criaturas nas promessas da vida eterna decorre do fato de que só é possível conhecê-las verdadeiramente ao reportá-las às suas razões incriadas.
-
As razões incriadas coincidem com o Verbo no silêncio do Intelecto paterno, surgindo como múltiplas e sonoras apenas relativamente aos seres produzidos externamente pela Causa divina.
-
O mesmo Verbo recebe um aspecto de multiplicidade na medida em que as razões das criaturas irradiam em todas as coisas e as tornam compreensíveis, sem que sejam compreendidas pelas trevas do ser criado.
-
A perspectiva dualista que opõe Causa divina e efeitos criados torna impossível conhecer as criaturas em suas razões eternas, assim como conhecer o Cristo na unidade do homem assumido com o Verbo.
-
O Logos proferido não se distingue realmente da Razão interior na obra de Mestre
Eckhart, a não ser quando o verbo exterior designa a criatura que louva o Senhor externamente através de uma resposta sonora e polinima ao que permanece silencioso e unido.
-
A louange interior realiza-se em silêncio e sem verbo exterior, pois em suas razões internas as criaturas só conhecem o Verbo sem palavra ou acima de todo verbo.
-
A expressão negativa levanta a questão de se o nome acima de todo nome, destinado a designar a Causa primeira em seu princípio divino, deve ser atribuído ao Verbo.
-
Indaga-se também se esse nome único que reúne todos os nomes deve aplicar-se ao princípio primeiro de toda produção divina, considerado como fonte comum da geração do Filho e da criação do mundo.