A segunda leitura associa a busca do nome admirável à expressão Aquele que é ou o que é.
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Eckhart relaciona a frase ao texto do Êxodo sobre o Deus que é, preferindo manter-se no registro da elevação negativa em vez de preencher o nome com a plenitude do Ser.
A terceira maneira de ler o texto apresenta o paradoxo de um nome que é espantoso por estar acima de todo nome, estabelecendo concordância com a epístola aos Filipenses.
O caráter sublime do nome o torna inefável, exigindo a união de termos contraditórios expressa na fórmula do nome inominável.
Santo
Agostinho apontou esse paradoxo do Inefável como uma aporia, visto que o inefável deixa de sê-lo quando se diz algo ao nomeá-lo dessa forma.
O silêncio é considerado preferível para evitar o combate verbal antes que se tente acalmá-lo pelas palavras.
Mestre
Eckhart afasta-se da verdadeira intenção de santo
Agostinho ao citar a passagem do De doctrina christiana.
O bispo de Hipona pretendia reduzir ao absurdo a inefabilidade de Deus interpretada em sentido absoluto.
Santo
Agostinho renuncia à acepção absoluta do termo inefável para reservar a ele um sentido relativizado, indicando que as palavras humanas não convêm à excelência da natureza divina.
A limitação prudente da apófase direciona a teologia para a via eminentiae, onde as negações afastam as imperfeições do entendimento humano em vez de excluir a noção positiva da natureza divina.
Mestre
Eckhart não rejeitou a utilização da via das negações que encontrou expressão clássica em são
Tomás de Aquino.
O dominicano turingiano aprova e se refere a essa concepção da apófase, mas admite simultaneamente outra acepção da teologia negativa em que a inefabilidade de Deus guarda um sentido absoluto.
Eckhart preserva o alcance do termo inefável no texto analisado.
A citação truncada de
Agostinho serve para enfatizar o paradoxo da inefabilidade, sem a intenção de renunciar ao conflito verbal.
O teólogo alemão não se intimidou com a aporia assinalada por santo
Agostinho e reconheceu o próprio gosto por expressões paradoxais.
O conflito verbal foi fixado por
Eckhart na definição contraditória do nome inominável.
A quarta leitura proposta por Mestre
Eckhart acentua o caráter objetivo da inefabilidade divina, apontando que é espantoso buscar o nome de quem é inominável.
A investigação não encontra o nome de uma realidade que não pode ser nomeada e cuja natureza consiste em ser escondida.
A ambiguidade do nome inominável permite duas traduções para a fórmula eckhartiana sobre a natureza do ser escondido, dependendo do valor verbal ou substantivo atribuído ao termo esse.
A primeira interpretação traduz a frase como o nome Daquele cuja natureza é a de estar oculto.
A segunda interpretação adota o termo esse como substantivo e traduz a frase como o nome Daquele cuja natureza é o Ser oculto.
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O paradoxo encaminha para a doutrina do ser própria de
Eckhart, na qual reside o fundamento da inefabilidade do Deus que é o Ser escondido por natureza.
O exame remete à segunda leitura do texto sagrado, onde o nome admirável recebia o sentido de o que é, identificado com o Deus do Êxodo.
A aproximação com a segunda interpretação permite afirmar que, se Deus pode ser nomeado Ser, é justamente como ser que Ele é um Deus escondido cujo verdadeiro nome escapa.
Mestre
Eckhart afirma explicitamente em outra obra que Deus, sob a razão de ser e de essência, está como que dormindo e latente, escondido em si mesmo.
Deus não pode ser nomeado enquanto Ser.
O impulso apofático de
Eckhart passa a ser guiado pela noção de ser como condição da inefabilidade divina, sem encontrar um limite intransponível para a busca do nome inominável.
O caminho em direção ao Deus desconhecido exige que o sujeito que busca retorne a si mesmo, pois Deus não é exterior a quem procura seu nome sob a razão de ser.
A última modificação da quarta leitura do texto afirma ser espantoso buscar fora o nome de Quem não está no exterior, mas na profundidade íntima.
O Ser oculto permanece inefável enquanto Ser, mas não é estranho a quem o busca.
O acesso ao mistério do nome inominável exige um retorno para si mesmo, configurando uma instase em direção à intimidade do ser, em vez de uma êxtase.
A ORIGEM DO NOMEN INNOMINABILE
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Santo
Agostinho é a única autoridade teológica invocada por
Eckhart no trecho do primeiro comentário sobre o Gênesis, sendo citado para manter o paradoxo do inefável e para interiorizar a busca apofática.
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A intenção de santo
Agostinho difere daquela manifestada por Mestre
Eckhart.
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Santo
Agostinho propõe que o homem se transcenda ao entrar nas profundezas do homem interior para encontrar a Verdade de onde se acende a luz da inteligência.
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O mestre dominicano utiliza santo
Agostinho para fundamentar o recolhimento interior, mas permanece em um caminho sem promessa de término, focado no inefável e no oculto, enquanto o bispo de Hipona se orienta para um fim preciso.
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A citação de santo
Agostinho feita por
Eckhart não fornece a chave para compreender o problema que ocupava o dominicano ao comentar o texto do Gênesis.
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Outra autoridade patrística não citada por Mestre
Eckhart pode ser reconhecida por trás do comentário bíblico.
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O oxímoro do nome inominável foi encontrado por
Eckhart no primeiro capítulo do tratado sobre os Nomes Divinos de Denys.
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Jean Scot Erigène e Jean Sarrazin apresentam a mesma versão latina que reúne os termos de nome admirável, acima de todo nome e inominável.
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Thomas Gallus omite o termo inominável, mas indica a referência bíblica da epístola aos Filipenses para o nome que está acima de todo nome.
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O agrupamento dos textos da Escritura apresenta—se quase idêntico em Denys e em Mestre
Eckhart.
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A substituição do texto de Gênesis pelo de Juízes ocorreu porque o autor do tratado sobre os Nomes Divinos utilizou as palavras dirigidas a Manoé ao tratar do nome anônimo, em preferência à repreensão feita a Jacó.
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A inspiração em um trecho de Denys explica a confusão cometida por
Eckhart sobre as passagens bíblicas.
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Mestre
Eckhart comentava um texto dos Nomes Divinos em vez de se deter estritamente em um texto da Bíblia.
ANONYMAT ET POLYNYMIE
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Denys introduz o tema do nome inominável ao abordar as duas vias próprias da teologia.
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A Tearquia suressencial pode ser louvada a partir de seus efeitos por ser a Causa de todos os seres aos quais confere a existência, embora permaneça desconhecida em si mesma.
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Os autores sagrados exaltam a divindade como não tendo nome e como capaz de ser louvada por todos os nomes.
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A exaltação de Deus como inominável ocorre quando as visões místicas mostram a Tearquia repreendendo quem perguntava pelo seu nome.
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A resposta divina afasta o interlocutor do conhecimento nominativo ao declarar que o nome é maravilhoso.
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Os teólogos celebram Deus como possuidor de nomes múltiplos quando as Escrituras registram as expressões Eu sou Aquele que sou, a Vida, a Luz, Deus e a Verdade.
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Outros nomes decorrentes dos efeitos da Causa divina são atribuídos a Deus, tais como Bom, Belo, Sábio, Amado, Deus dos deuses e Senhor dos senhores.
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A oposição entre a polinímia e o anonimato corresponde às duas vias contrárias da teologia baseadas nas posições e nas negações.
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A via negativa é considerada mais perfeita por visar a natureza inefável e as uniões que prevalecem sobre as distinções ou procissões da Divindade.
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Thomas Gallus ampliou a frase de Denys aludindo a que todas as coisas existentes pertencem a Deus causalmente, mas nenhuma delas o define pela propriedade da substância.
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A causalidade implica uma presença reveladora de Deus em tudo o que produz, sendo inseparável da manifestação do Deus—Bonté.
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O nome de Ser designa uma virtude manifestadora e uma procissão produtora de essências em todos os seres, em vez de indicar a Essência suressencial em si mesma.
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Deus permanece fora de tudo o que é, segundo sua natureza inacessível, embora seja a Causa dos seres na medida em que se manifesta e se faz participar.
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Pode—se afirmar que Deus não é, ou que está além de toda posição ou negação, situado acima da oposição entre o ser e o não—ser.
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A conscientização dessa transcendência radical exige a superação de todas as manifestações divinas na existência.
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A negação de todos os nomes aplica—se Daquele que é desconhecido e inominável.
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O ser também deve ser negado para se atingir o Transcendente anônimo em uma ignorância superior a todo saber, visto que o nome do ser indica a Causa universal em sua primeira manifestação.
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Denys considerava que Deus não havia entregado seu nome inominável na revelação do Êxodo, pois nenhum nome convém à natureza divina considerada além de toda procissão externa.
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O nome do ser é o nome da Causa de tudo o que existe, figurando em primeiro lugar entre os nomes múltiplos com que as Escrituras honram a Deus em sua economia.
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Mestre
Eckhart tinha presente o texto do De Divinis nominibus ao comentar a passagem do Gênesis onde Deus recusa revelar seu nome.
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A primeira via da elevação para a natureza indicível foi o único foco de interesse de
Eckhart nesse momento.
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Eckhart desconsiderou a questão dos nomes múltiplos para declarar com Denys que o nome situado acima de todo nome é inominável por não poder ser expresso.
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O acordo entre os dois teólogos não é total devido à divergência quanto à razão da inefabilidade.
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Denys apresenta Deus recusando o conhecimento nominativo para afastar o homem de tal pretensão.
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O nome inominável equivale à ausência de nomes aplicáveis a Deus na transcendência absoluta de sua natureza.
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O nome além dos nomes não constitui um nome, assim como o conhecimento que transcende os saberes constitui ignorância.
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Mestre
Eckhart mantém o nome inominável como um paradoxo fascinante que reforça mediante o uso de citações de santo
Agostinho.
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A abordagem apofática de
Eckhart revela uma atitude diferente daquela de Denys.
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Eckhart espanta—se com a busca do nome de algo inominável, mas fundamenta a inefabilidade em termos opostos aos de Denys.
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Denys explicaria a inefabilidade porque Deus em sua natureza suressencial transcende tudo o que é e o próprio ser.
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A apófase de Denys eleva—se até a exclusão do ser para atingir a natureza anônima, enquanto a de Mestre
Eckhart inclui o ser na noção negativa e faz do esse o fundamento da inefabilidade divina.
ESSE INNOMINABILE