Os seres intelectuais são constituídos de ser e essência, ou de ser e inteligir.
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No manuscrito da Obra dos Sermões, explica—se que os entes materiais são um e não um por serem quantos ou compostos de forma e matéria, enquanto os entes imateriais são não um porque a sua essência não é o ser ou porque o seu ser não é o inteligir.
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Eles são compostos de ser e essência, ou de ser e inteligir, remetendo—se ao comentário da última proposição do Livro das Causas.
Essa distinção entre o ser e o inteligir expressa pela conjunção ou poderá ser compreendida de duas maneiras por marcar tanto a assimilação quanto a alternativa.
A essência distinta do ser representará a quididade incréa das criaturas no primeiro caso, constituindo a sua razão inteligível que em Deus nada mais é do que o próprio inteligir.
O ser designará a primeira coisa criada que é o supósito sensível ou inteligível produzido fora do Intelecto divino.
Essa interpretação possui o inconveniente de estender a todos os seres criados um modo de não—identidade que devia caracterizar de modo especial os seres intelectuais, embora enquadre com as linhas da doutrina de
Eckhart.
A primeira distinção exprimirá a dualidade de ser e essência que define todo ser criado no segundo caso se houver alternativa entre as duas distinções, enquanto a segunda se reportará à não—identidade das naturezas intelectuais cujo supósito existente permanece distinto do inteligir.
O intelecto ou a intelecção designará uma faculdade de se desprender de seu próprio ser determinado que permite alcançar a identidade com Deus na região do intelecto onde não há distinção e tudo está em tudo, como na segunda hipóstase plotiniana.
A distinção entre o inteligir e o ser nas criaturas superiores deve ser entendida nesse último sentido proposto por
Eckhart.
O inteligir constitui uma faculdade de união, uma virtude do ser um com Deus concedida aos seres criados à imagem de Deus.
O ser marca a divisão e a não—identidade que afeta as criaturas intelectuais na sua distinção em relação ao inteligir.
O mestre
Eckhart interroga—se sobre a identidade ou não—identidade do ser a partir da pureza do inteligir no mesmo sermão.
Pergunta—se se existe intelecto ou intelecção em um determinado ser.
Os seres privados de intelecto foram produzidos pela Causa primeira que os determinou naturalmente ao ordená—los a fins certos.
Trata—se das criaturas inferiores ao homem governadas por suas formas substanciais e privadas de meios para se elevarem em direção à identidade do ser.
Será necessário indagar se existe algo outro além de seu inteligir quando se está diante de um ser intelectual capaz de se determinar por si mesmo.
Esse ser não é simplesmente um como Deus se possuir um ser diferente do inteligir e se não for o seu próprio ato de intelecção, constituindo um composto de inteligir e ser, de incriável e de criado.
Deus sozinho é propriamente, sendo Ele o Intelecto ou a Intelecção, e constituindo unicamente inteligir por exclusão de qualquer outro ser.
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No manuscrito da Obra dos Sermões, explica—se que se pergunta de cada um se nele há intelecto ou inteligir. Se não há, consta que não é Deus ou a causa primeira de coisas ordenadas a fins certos que carecem de intelecto.
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Se nele há intelecto, pergunta—se se nele há algum ser além do inteligir. Se não há, tem—se o que é um simples, incriável, primeiro, e este é Deus.
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Se possui outro ser além do inteligir, é composto e não simplesmente um.
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É manifesto que apenas Deus é propriamente sozinho, sendo Ele o intelecto ou inteligir, e constituindo o só inteligir sem outro ser.
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Apenas Deus produz as coisas no ser pelo intelecto, porque apenas nele o ser é inteligir.
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Nada além dele pode ser puro inteligir, pois de outro modo não seria criatura, tendo as criaturas um ser diferente do inteligir tanto porque o inteligir é incriável quanto porque a primeira das coisas criadas é o ser.
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Nicolau de Cusa acompanhou essa passagem com quatro notas: em Deus não há outro ser além do inteligir; Deus é propriamente sozinho; produz as coisas pelo intelecto; o inteligir é incriável.
O ato de intelecção pelo qual uma criatura pode atingir a identidade do ser em Deus é oposto ao ser não—idêntico das naturezas criadas no sermão Deus unus est.
O inteligir e o ser excluem—se mutuamente e denotam a falta de verdadeira unidade nas criaturas douadas de intelecto, o que não significa que o ser deva ser entendido apenas como razão de criabilidade e recusado a Deus considerado como Inteligir puro.
O ser e a intelecção surgem como idênticos em Deus neste sermão, diferindo das Questões Parisienses e não deixando lugar à oposição que obrigaria a excluir o ser da noção de Causa primeira: em Deus o próprio ser é o que é o só inteligir.
Essa identidade encontra a sua razão no Uno, definido como Intelecto paternal, que manifesta a indistinção do Ser inefável na essência divina.
O Uno concerne essencialmente ao Ser—mesmo ou à Essência nas palavras de
Eckhart.
O Uno é mais simples do que as outras propriedades transcendentais sobre as quais possui primazia por sua imediatidade em relação ao Ser—mesmo e a Deus.
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Na Obra dos Sermões, explica—se que o uno é mais alto, primeiro e simples do que o próprio bem, sendo mais imediato ao próprio ser e a Deus, ou constituindo um só ser com o próprio ser.
O Uno é o ser—un com o Próprio Ser conforme indica o seu nome, e nenhuma outra propriedade divina é amada por si mesma.
A potência, a sabedoria, a bondade e o ser só são amados em razão da união identificificante.
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Na Obra dos Sermões, explica—se que nem a potência, nem a sabedoria, nem a bondade seriam amadas se não estivessem unidas a nós.
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Quem ama verdadeiramente só pode amar o uno, e após a frase Deus é um, segue—se que amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração.
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Deus não quereria ser senão o uno que se ama por inteiro.
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Nicolau de Cusa anotou à margem que Deus não quereria ser senão o uno que se ama com todo o seu ser.
O que se ama verdadeiramente é o Uno que representa a identidade do ser.
O ser convém a Deus pelo fato de Ele ser um, sendo necessário que Deus seja o seu próprio ser, o Ser primeiro e o ser de tudo o que é.
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Na Obra dos Sermões, afirma—se que Deus é um porque pelo próprio fato de ser um compete—lhe o ser, de modo que seja o seu ser, o primeiro ser e o ser de todos.
Esse Deus é o ser—identidade de Parmênides com a diferença de que o ser—un de
Eckhart é reservado apenas ao Intelecto.
Nada além de Deus é verdadeiramente um, pois nada criado é puro ou puramente o que é por sua quididade estar misturada com a alteridade em uma substância particular.
A criatura deveria ser intelecto em sua totalidade para possuir a pureza do ser, constituindo um ato puro de intelecção subsistente por si mesmo onde o conteúdo inteligível é o próprio inteligir.
A criatura deixaria de ser criável nessas condições.
As criaturas não—intelectuais estão cindidas em duas em seu ser na medida em que a sua verdadeira essencialidade permanece dividida da natureza própria que possuem sob as formas substanciais.
A situação é diferente para as criaturas intelectuais por estarem dotadas em sua natureza de um princípio dinâmico de unidade que consiste na faculdade de se ultrapassarem para atingir a identidade com Deus.
Esse privilégio que torna deificáveis as criaturas superiores não supõe que a sua natureza seja composta de uma parte criada e outra incréa.
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O mestre
Eckhart protestou contra essa interpretação estática de sua doutrina da alma humana durante o processo de Colônia, afirmando que constitui erro pensar que alguma partícula da alma seja incréa e incriável.
A incriabilidade do inteligir pode ter um sentido negativo em
Eckhart, respondendo ao abandono do ser determinado, à saída deste mundo e de si mesmo, e ao desprendimento sem o qual não se alcança o ser um com Deus.
Esse sermão latino deve ser interpretado levando em conta a doutrina eckhartiana da união mística se for esse o caso.
Os seres feitos à imagem de Deus poderão se apresentar como totalmente criados e totalmente incriáveis sob relações diferentes nessa perspectiva dinâmica onde a identidade e a não—identidade são visadas simultaneamente.
A dualidade que os afeta traduz—se pela oposição de seu ser parcial como supósito criado determinado a ser apenas isto ou aquilo e de seu inteligir como princípio de indeterminação que é fonte de liberdade.
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Na Obra dos Sermões, afirma—se que ascender ao intelecto e submeter—se a ele constitui unir—se a Deus, e unir—se e ser um significa ser um com Deus, pois Deus é um.
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O texto prossegue indicando que todo ser fora do intelecto é criatura, é criável e é outro em relação a Deus. Em Deus não há outro, e o ato e a potência são divisões do ser criado universal.
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O ser é o primeiro ato e a primeira divisão, enquanto no intelecto ou em Deus não há nenhuma divisão.
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M. Grabmann analisa essa passagem e atribui a
Eckhart a tese do caráter incréu do intelecto, mas a sua leitura omite termos que tornam a frase inteligível.
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O ato criador ao dar lugar à dualidade de ação e paixão implica para o ser criado um momento de separação de Deus que constitui a primeira divisão na base do ser divisível.
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Esse princípio de divisão e alteridade que se vincula ao ser só pode ser superado no intelecto onde a criatura não é outro.
Um ser dotado de intelecto é um e não um em maior grau do que qualquer outra criatura: ele participa da Unidade nos gêneros e espécies da qual se separa em sua natureza própria, e possui em sua particularidade a faculdade de se desprender de si mesmo para atingir a unidade do ser com Deus.
A dualidade de ser primeiro e segundo que caracteriza as criaturas encontra—se presente na própria estrutura dos seres intelectuais.
As criaturas superiores são as únicas a mostrar uma espécie de composição metafísica nesse sentido, pois o inteligir e o ser estão reunidos nos seres criados à imagem de Deus embora sejam idênticos no Próprio Inteligir divino.
A sua condição é paradoxal porque os dois princípios que as compõem parecem se excluir mutuamente: uma natureza intelectual pertence a todas as coisas que formam o universo enquanto ser, integrando esse todo criado que cai sob a causalidade da causa primeira.
O indivíduo destaca—se do todo por seu inteligir ao sair do universo e deixar de integrar a criação na medida em que alcança na união com Deus a identidade de todas as coisas com o Uno.
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Na Obra dos Sermões, explica—se que a Escritura exorta à saída deste mundo e de si mesmo, a esquecer a casa de sua geração e a sair de sua terra para crescer em uma grande nação, o que se realiza na região do intelecto onde todas as coisas estão em todas as coisas.
A região do intelecto onde todas as coisas estão em todas as coisas identifica—se com a esfera intelectual infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum.
Um ser individual dotado de intelecto pode encontrar a sua coincidência com o Centro omnipresente da esfera infinita se possui a faculdade de atingir o ser—um—com—Deus, reunindo todas as coisas em si mesmo na união com o Uno.
A identidade de todas as coisas com o Uno e a unidade das coisas entre si não podem ser encontradas fora do Intelecto no todo do universo que é maior do que as suas partes.
O ser idêntico é acessível em uma região secreta transcendente ao criado onde cada ser parcial está em outro, o maior no menor, o todo na parte e o fruto na flor.
Maria escolheu a melhor parte porque não preferiu o mais e o todo em relação ao menos e à parte, sabendo que Deus está totalmente em cada criatura tanto em uma só quanto em todas juntas.
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Nos Sermões sobre o Eclesiástico, explica—se que nas coisas divinas qualquer uma está em qualquer uma, o máximo no mínimo e o fruto na flor, porque Deus é uma esfera intelectual infinita cujo centro está em toda parte com a circunferência, existindo tantas circunferências quantos pontos.
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O Êxodo 16 afirma a respeito do maná divino que quem havia colhido menos não encontrou menos, e Lucas 10 menciona que Maria escolheu a melhor parte porque o ótimo e o todo estão na parte. Deus está todo em qualquer criatura, em uma como em todas, e a obra de Deus frutifica na flor.
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No Comentário sobre João, repete—se que o todo e o ótimo estão na parte, sendo Deus a esfera inteligível cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum.
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No Comentário sobre Ezequiel, nota—se que em Deus não há mais nem menos, e as coisas que possuem mais e menos em si tornam—se um e recebem o ser um nele.
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O homem justo que ama a Deus em todas as coisas usufrui do mínimo possuindo nele o Deus todo a quem ama por Deus ser todo e tanto no mínimo quanto no máximo, não buscando nada maior além dele.
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O maior e o menor não caem em Deus nem no uno, estando aquém e fora do uno, pelo que quem busca o mais e o menos não é divino.
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No livro dos 24 Filósofos, afirma—se que Deus é uma esfera intelectual infinita que possui tantas circunferências quantos pontos, cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum, estando todo em seu mínimo.
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D. Mahnke analisa essa imagem geométrica em
Eckhart observando que ela não visa as partes da Divindade, mas as partes mínimas do mundo criado em cada ser particular onde toda a esfera divina está presente.
Essa esfera sem circunferência e sem exterioridade criada constitui a Omni—unidade divina, representando a identidade de todas as coisas com o Uno na região da transcendência interiorizada que é mais íntima a cada um do que o seu ser próprio de criatura.
O intelecto criado possui por objeto o ser—un de todas as coisas no Uno, visando a sua essencialidade incréa ou quididade que não é distinta do Verbo no Intelecto paternal.
A inteligência criada deve transcender a si mesma e ultrapassar no inteligir o seu ser intelectual para atingir a razão de tudo o que existe em sua verdadeira interioridade como o Logos silencioso que não procede para fora.
A inteligência pode alcançar a identidade absoluta de Aquele Que É ao se reconhecer como nada de criatura na negatividade de uma intelecção desprendida de todo ser determinado, unindo—se ao Acto puro do Próprio Inteligir.
O sermão Deus unus est devia ocupar um lugar importante no conjunto dos escritos latinos de
Eckhart.
O Mestre dominicano referiu—se a essa peça de sua obra exegética ao complementar o seu primeiro comentário sobre o Gênesis quando teve de abordar o problema da unidade divina e da dualidade criada.
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No Comentário sobre o Gênesis, adverte—se que Deus criou no princípio o céu e a terra como duas coisas e não mais, não criando o uno porque o que é criado decai da unidade e da simplicidade. A unidade e a simplicidade são propriedades de Deus, conforme anotado sobre o trecho Deus é um.
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H. Bascour analisa a dupla redação do primeiro comentário sobre o Gênesis identificando nesse texto uma referência ao sermão latino Deus unus est ao qual atribui grande importância doutrinal.
Esse sermão sobre o Uno—intelecto reúne os elementos essenciais da especulação metafísica de
Eckhart com a sua doutrina da união mística onde culminam a ontologia e a noética do turingiano.
Divisam—se as grandes linhas do retorno pelo intelecto e pela graça em direção à identidade do ser em Deus de onde todas as coisas saíram pela criação.
O homem possui a faculdade da união por ser criado à imagem de Deus na medida em que é douado de intelecto, embora não seja verdadeiramente um.
O inteligir será a engrenagem de sua conversão, dessa epistrophé que ultrapassa a dualidade de Criador e criatura para descobrir a identidade inicial de todas as coisas consigo mesmas e com Deus além de sua oposição.
O termo da união coincide com o princípio da procissão no fundo secreto da transcendência interiorizada onde a Mônada engendra a Mônada e retorna sobre si mesma.
Esse operação triádica reconduz tudo o que produz em direção à indistinção da Essência inoperante, inexprimível e incognoscível.
Reencontra—se o Ser inominável da apófase mística que constitui o aspecto supremo da teognose de
Eckhart que havia sido perdido de vista ao se estudar os nomes divinos predicáveis a partir das criaturas.
A via negativa cedia o passo a uma correção dos conceitos formados por nossa mente e a uma purificação do que pode ser afirmado por eminência a respeito da Causa primeira nesse nível inferior do conhecimento de Deus aquém da causalidade criadora.
O nome do Uno colocado acima de todos os nomes reconduzia todos os atributos à unidade indistinta do Principe da ação divina.
A negação de toda multiplicidade real ou de razão no Uno concebido como negação da negação do ser orientava em direção a uma noção parmenidiana do ser—identidade revelada na afirmação pura do Eu sou quem sou.
O Ser—Deus surgia com o caráter absoluto de identidade do o que é nessa nova perspectiva alheia ao tomismo, opondo—se ao nada das criaturas que estão marcadas pela não—identidade ou nulidade ontológica.
Divisou—se a via do retorno em direção ao ser—um—com—Deus ao se encontrar a tensão entre a identidade e a não—identidade nas criaturas superiores nas quais o inteligir e o ser se opõem mutuamente.
Será necessário considerar o momento de oposição dialética antes de resolver essa tensão em uma apófase mística que transcende a dualidade Criador—criatura.
Esse momento introduzirá no conhecimento da Causa primeira uma vida negativa concebida sob um modo novo e marcará com uma pegada particular a doutrina da analogia que é própria de
Eckhart.