Esse termo não designa o Acto puro de existir criador dos atos finitos, mas a Causa primeira que produz tudo o que é exercendo a tripla função eficiente, formal e final, sendo raros os casos em que
Eckhart aplica o termo próprio ser ao ser criado.
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No Comentário sobre a Sabedoria, menciona—se o próprio ser das coisas em relação à existência que olha para a causa externa.
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Em São Tomás, o termo próprio ser designa o ato de existir criado definido como algo comum e indefinido, enquanto para Deus utiliza as expressões ser subsistente ou ser infinito.
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No Sermão latino XXV, explica—se que o pelo qual é triplo compreende o eficiente a partir do qual é, a forma pela qual é e o fim para o qual é, segundo a fórmula de Santo
Agostinho na obra Da Verdadeira Religião e a epístola aos Romanos 11, 36 que afirma que dele, por ele e nele são todas as coisas.
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São Tomás aborda essa tripla consideração na Suma Teológica.
O termo causa só designa a eficiência e a finalidade que são causas exteriores das quais o metafísico deve fazer abstração, pois a noção de causa implica a exterioridade do efeito para
Eckhart.
Esse aspecto abstrato dos entes responde às razões ideais em virtude das quais as coisas são imutavelmente o que são em sua quididade ou causa essencial.
Estar na causa significa não ser um efeito produzido pela causa, de modo que estar na causa essencial constitui não possuir uma forma criada que define a essência de um homem, de um leão ou do sol.
Estar na causa essencial significa ser virtualmente uma razão intelectual de uma forma física, consistindo em uma razão que não possui outro princípio além de si mesma.
O mestre
Eckhart afirmava que a Causa primeira dos entes é a sua quididade ou razão ideal no princípio no qual Deus criou todas as coisas, e não o próprio Deus.
O verdadeiro ser das coisas em sua quididade exclui a ação da causa formal tomada no sentido hylemórfico de Aristóteles.
As coisas são verdadeiramente o que são onde estão sem causa, constituindo ali vida, jaizamento espontâneo e ebulimento interior na plenitude do Ser que retorna sobre si mesmo.
A imprecisão terminológica de
Eckhart torna ambígua a expressão causa formal, apresentando uma contradição para os intérpretes tomistas: para ser o que é, a coisa deve não ser o que é enquanto efeito de sua causa formal.
O papel dessa causa formal consiste em formar o o que é da coisa que constitui a sua essência criada, sendo essa a única causa interna segundo
Eckhart.
Essa dificuldade desaparece quando se reconhece que a causalidade formal atribuída ao pelo qual é divino possui um caráter paradigmático alheio à causa interior de Aristóteles e de São Tomás.
A Causa formal absoluta encontra—se além da oposição do criado e do incréu por sua intrioriadade excluir a relação em que Deus surge como Causa eficiente e final, não sendo causa mas princípio essencial ou quididade.
O papel da Causa formal nas coisas criadas traduz—se pela ação da causa exterior que cria do nada produzindo o ser.
A causa eficiente assume o caráter da causa formal ao carregá—la em seu fluxo para fora, nesse ato que é o pelo qual é divino dos seres criados.
A Causa formal incréa cumpre a função da eficiência ao se escoar para fora do Uno nessa ebulição pela qual a fermentação interior se exterioriza para produzir o ser formal das criaturas.
O princípio formal da quididade ou razão ideal não pode se manifestar nem ser conhecido sem o ato da criação que é uma doação do ser após o não—ser realizada pelo Próprio Ser ou Deus.
O mestre
Eckhart fala de Deus ou do Ser como do primeiro ato formal e como do próprio ser que atinge e penetra todas coisas ao formá—las.
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No Comentário sobre o Eclesiástico, afirma—se que as formas pelas quais agem os segundos agentes provêm de Deus que é o primeiro ato formal.
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No Comentário sobre a Sabedoria, o ser é definido como o primeiro ato formal, e Deus é o primeiro movens, o primeiro ato formal e o fim último na obra da arte e da natureza, constituindo a atualidade de todos os atos e formas.
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No Prólogo da Obra das Proposições, explica—se que o que não é atingido nem penetrado imediatamente pelo próprio ser nada é.
Essa penetração de tudo o que é pelo ser mesmo não possui o sentido existencial que receberia em São Tomás.
São Tomás designou a existência com a palavra ato por não encontrar outro termo para caracterizar o existir que ultrapassa o ato da forma na substância após descobri—lo além da essência.
O influxo existencial distingue—se da causalidade da forma em São Tomás pelo fato de não ter nada de formal, assemelhando—se a uma energia.
O primeiro ato formal de
Eckhart exprime outra ideia e provém de uma concepção diferente do ser.
O mestre turingiano busca mostrar a ação do Ser absoluto que é o Ser de todos e não o ato de existir das essências criadas.
Essa ação formal comunica—se imediatamente a cada ser singular sem se enraizar por permanecer exterior à criatura, assim como ocorre em toda forma essencial.
A alma está presente na totalidade do corpo animado que informa toda ela sem meio, e a forma do fogo investe totalmente cada parte da matéria ígnea.
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No Prólogo da Obra das Proposições, explica—se que sendo Deus simples e um em seu ser, é necessário que esteja todo imediatamente em cada singular, assim como a alma informa o corpo e a forma do fogo penetra a essência, pelo que o ser do todo é um.
A imediatidade do ato da forma na matéria assemelha—se à da ação formal de Deus nas criaturas, tratando—se de uma realidade essencial presente por informação no primeiro caso e por participação análoga à da luz no segundo.
O ser absoluto que a pedra recebe de Deus sem intermediário da forma criada não é uma energia existencial, mas uma penetração essencial realizada pelo ser pleno que a pedra possui em Deus.
A pedra estava em Deus intelectualmente e virtualmente, não existindo como pedra antes de ter sido produzida fora pela causa eficiente.
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No Comentário sobre a Sabedoria, exemplifica—se afirmando que a casa na mente não é casa e o calor no sol não é calor, recebendo o ser formal na medida em que é produzido fora pela causa eficiente. Todas as coisas estão em Deus intelectualmente como na mente do artesão, necessitando ser produzidas para ter ser formal.
Essa penetração do nível inferior do ser formal pelo nível superior que é o Ser divino deve comunicar o ser ao que é da criatura.
A situação permanece paradoxal enquanto não interveio o princípio da analogia: ou a pedra possui o ser que só pode ser absoluto e então não é pedra, ou se o é sob a sua forma própria ela não é idêntica ao Ser absoluto e constitui um puro nada na medida em que dele se distingue.
A pedra deve estar ao mesmo tempo na relação de causalidade exterior e de participação interior em relação ao princípio essencial para poder ser alguma coisa como um ente situado entre o nada e o ser absoluto.
Atribuir ao ser absoluto o sentido de ato de existir obrigaria a fazer
Eckhart dizer que a pedra existe pelo existir mesmo de Deus.
O pensamento de
Eckhart escapa a esse panteísmo por permanecer essencialista mesmo quando parece distinguir a essência criada e o existir ao situar este último em um nível superior.
Trata—se de duas essencialidades distintas: a Essência divina que se mostra no Uno como suficiente e a mendicidade das essências criadas que nunca são o que são por estarem fora do Intelecto divino.
A influência do nível superior sobre o inferior consiste em uma relação ativa da Essência divina com todas as coisas que produz sob a razão do Uno sem as despojar de sua exterioridade.
Essa Essentialidade única afeta as criaturas por sua unidade em seu fundo secreto ao criar os entes múltiplos, deixando—se participar sob as espécies e os gêneros conhecíveis na luz da quididade que brilha nas trevas.
Não existe distinção entre a essência e o ser como existir em
Eckhart, constituindo essa tese um mirage tomista perseguido através de seus textos latins sobre o que é e o pelo qual é das criaturas.
O que é criado constitui um ente que não o é plenamente por depender da Causa analógica que o faz subsistir.
O pelo qual é das criaturas é o ser que é plenamente ser, o Próprio Ente que subsiste por si mesmo e faz subsistir todas as coisas.
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No Prólogo da Obra das Proposições, utiliza—se a expressão Próprio Ente substituindo o Próprio Ser, alternando os termos ser e ente para designar o Ser que é Deus e afirmando que nenhuma entidade pode ser negada ao próprio ente ou ao próprio ser.
A relação entre o Ente absoluto e os entes estabelece—se pelo ser que é uma definição abstrata do ente, constituindo a razão pela qual ele é um estando, assim como a brancura é a qualidade abstrata que determina um ser branco concreto.
Ser um ente significa possuir a razão mais geral que consiste em ser alguma coisa através da participação na essencialidade ou no ser.
Os seres criados permanecem distintos do Ser absoluto em seu o que é, participando dele ao se apegarem exteriormente, embora o Ser divino seja o pelo qual é que determina as criaturas.
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No Comentário sobre o Êxodo, afirma—se que cada uma das coisas em si e a partir de si é um modo do próprio ser, nele se apoiando e aderindo, utilizando—se a expressão fixio herdada do Livro das Causas.
O Ser que é Deus não constitui uma autodeterminação interior pela qual Deus seria o que é, pois Deus não possui o pelo qual é por ser Ele mesmo o seu Ser e a sua própria razão de ser.
Deus é unicamente o O que é quando considerado em Si mesmo, embora seja o pelo qual é em sua relação com os seres criados, constituindo esse o seu primeiro nome segundo
João Damasceno.
Os textos do Êxodo Ego sum qui sum e de Jó Tu que és o único testemunham que Deus é o único Ente propriamente dito.
Parmênides e Melisso tinham razão quando não queriam admitir senão um único Ente no sentido absoluto.
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No Prólogo da Obra das Proposições, explica—se que apenas Deus é propriamente ente com base no Êxodo e em Jó.
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Damasceno afirma que o primeiro nome de Deus é O que é, e a isso se junta que Parmênides e Melisso na Física colocavam apenas um ente, definindo o ente isto ou aquilo como múltiplos, segundo o testemunho de Avicena na Física que chama de Suficiência.
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O Deuteronômio 6 e a epístola aos Gálatas 3 afirmam que Deus é um, patgenerictando a verdade da proposição de que o ser é Deus, pelo que se responde que Deus é o ser.
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Essa referência aos Eleatas associada às autoridades das Escrituras e da patrística supõe um conhecimento impreciso de uma ontologia que foi criticada pelo Filósofo.
O mestre turingiano aprovou esse ponto de vista por pressentir a parentela intelectual com a sua própria intuição do Ser concebido como identidade do o que é, a despeito das críticas de Aristóteles.
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Eckhart orienta o seu pensamento em direção à dialética de Platão que também fora criticada por Aristóteles.
A penetração imediata de todas as coisas pelo Próprio Ser reveste um caráter eleático de indistinção de todas as coisas no Uno quando vista a partir de Deus.
O relação entre o Ente absoluto e os entes assemelha—se àquele que existe entre o Uno e o múltiplo.
O mestre
Eckhart repete as mesmas expressões a respeito do Uno após afirmar que o que não é atingido nem penetrado imediatamente pelo próprio ser nada é.
Tudo o que não é atingido pelo uno nem formado por sua penetração não é uno, afirmando—se o mesmo sobre o verdadeiro e o bom que são conversíveis com o ser.
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No Prólogo da Obra das Proposições, explica—se que assim como ocorre com o ente em relação aos entes, ocorre com o uno em relação a tudo o que é uno, e com o verdadeiro e o bom em relação aos verdadeiros e aos bons.
Os entes criados distintos do Próprio Ser absoluto não poderiam ser concebidos em sua condição paradoxal de existência como extra—stância sem uma doutrina da analogia que emprestasse um modo de ser ao não—ser dentro dos quadros dessa ontologia essencialista.
Essa solução pareceria absurda a Parmênides de Eleia, embora fosse inevitável para um teólogo cristão como
Eckhart.
Essa transformação do eleatismo seria aceitável para o Parmênides dialético que Platão imaginou no diálogo que leva o nome do velho Eleata.
A busca por uma composição metafísica de essência e existência realmente distintas revela—se enganosa quando guiada pelas expressões pseudo—tomistas de
Eckhart.
A noção da existência criada apresentar—se—á como uma participação do o que é no Ser único e universal ao se renunciar a uma interpretação existencial do ser em
Eckhart.
Encontra—se um aspecto parmenidiano do ser concebido em termos de identidade, a despeito do caráter analógico e extrínseco que essa participação receberá.
Essa primeira intuição ontológica de
Eckhart respondia em seu espírito à revelação do Êxodo: Ego sum qui sum.