Pouco depois, quando o discípulo sustenta, com a ajuda de uma citação pertinente do de paradiso de
Ambrósio, que mais do que negar o paraíso corpóreo,
Ambrósio parece dar-lhe uma leitura alegórica (816 b), a resposta do mestre mostra sua passagem da irritação a um relativismo circunspecto e depois novamente a um apelo à tolerância, citando são Paulo: “Disputar com aqueles que a pensam assim não é nossa incumbência. Não negamos, com efeito, nem afirmamos que haja dois paraísos, um corpóreo e outro espiritual. Estamos apenas confrontando entre nós por ora (interim) as opiniões dos santos padres. Mas não nos cabe julgar quais sejam os mais dignos de seguir: 'Cada um seja saciado pela própria percepção' (Ep. Rom. 14, 5), e escolha quem quiser, deixando perder as brigas” (816 d).
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Prossegue sugerindo que com dois paraísos
Ambrósio poderia ter querido indicar os dois estágios da criação do ser humano, como
Gregório de Nissa.
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A discussão dos dois paraísos começa com três citações de
Agostinho (814 b-815 a), sendo que a terceira delas, do de uera religione, que
Agostinho compôs no ano 390, é de teor completamente diverso do que é dito nas duas obras citadas primeiramente: o de Genesi ad litteram (composto entre 401 e 415) e o de ciuitate dei (413-26).
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No de Gen. ad litt.,
Agostinho diz que não concorda com os que pensam que o paraíso fosse só corpóreo, nem com os que pensam que fosse só espiritual, sendo favorável à ideia de que o paraíso fosse ambas as coisas.
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Porém, o que
Agostinho entende com isso, como esclarece a segunda citação do de ciuitate dei, não tem nada a ver com a alegoria: ele quer dizer simplesmente que a existência paradisíaca era ao mesmo tempo física e espiritual, uma harmonia exterior e interior.
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A situação é diversa no de uera religione: aqui
Agostinho “parece admitir apenas um paraíso, o espiritual” (814 d), sendo que a expulsão daquele paraíso significa ser lançado neste mundo “da eternidade à temporalidade, da abundância à miséria… do bem inteligível ao bem sensível, do bem mais alto ao bem mais baixo.”
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Agostinho nesse período assimilava ainda a criação à queda, derivando ainda, talvez inconscientemente, ao mito maniqueio: criação significava a queda.
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No momento em que o mestre diz que
Ambrósio está “em tudo seguindo
Orígenes, [creio,] embora não o nomeie abertamente” (815 c), a posição de
Orígenes é lembrada.
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Orígenes, cujas Homílias sobre a Gênesis chegaram apenas na versão latina de Rufino, escrevia do “nosso ser humano interior, [que] consiste de spiritus e anima: o macho é chamado spiritus, a fêmea pode ser chamada anima” (Hom. in Gen. 1, 15, p. 66), e isso foi suficiente para que
Ambrósio, e Eriúgena depois dele, proclamasse que “o paraíso não é outra coisa que o homem mesmo” (815 c).
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Para
Ambrósio (de par. I 6, p. 267) “parece que o paraíso seja a alma (anima), que multiplica a semente recebida, a alma em que toda virtude está plantada”, e nela estava também a árvore da vida, ou seja, a Sabedoria.
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De
Ambrósio, Eriúgena havia também aprendido que “em grego nous justamente assumiu a figura do homem, aisthesis aquela da mulher” (de par. II 11, p. 271), identificando Adão com a mente e Eva com a sensibilidade.
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O mestre evoca como testemunho-chave
Orígenes, que chama “o sumo comentador da sagrada escritura” (818 b), para atestar que o paraíso é uno, e que é incorporeo, sendo que
Orígenes para Origene “paradiso” denotava o “terceiro céu” em que o apóstolo Paulo foi arrebatado (2 Ep. Cor. 12, 2-4), de modo que “se está no terceiro céu, com certeza é espiritual” (profecto spiritualis est, 818 c).
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Epifânio, em seu Ancoratus LIV-LVIII, dedicou páginas ao opositor que chamava ho thilatos Origenes — “quell'Origene reso pazzo da Dio” (LIV, PG 43, 112 b) —, dizendo em seu ataque ao cúmulo de sua invectiva (Ancoratus LVIII, PG 43, 120 b-c): “Assim, se não pode haver um paraíso perceptível pelos sentidos (paradeisos aisthetos)… não pode haver um Adão. Se não pode haver um Adão, não há seres humanos, a verdade se torna uma fábula (mythos), e tudo quanto vem alegorizado. Mas Adão existia de fato, porque todos nós descendemos dele.”
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Em todo caso, mesmo que as ideias de
Orígenes sobre o paraíso sejam mais complexas de como as conhecia
Epifânio, o mestre no diálogo de Eriúgena está convicto de que para
Orígenes o “terceiro céu” de Paulo fosse espiritual e intelectual, sendo que somente
Epifânio parece ter insistido na ideia de que o paraíso fosse exclusivamente terrestre.
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Em passo sucessivo, o mestre apela ao julgamento de
Ambrósio: “Observa de que modo
Ambrósio aprova a interpretação de
Orígenes, e invalida a de
Epifânio.
Orígenes com efeito afirma que o paraíso está no terceiro céu, que é intelectual, ou seja, está no homem mesmo enquanto intelecto” (832 d-833 a).
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Epifânio, em seu literalismo, interpreta isso “com uma atitude demasiado ingênua” (nimium simpliciter sentiens).
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“A verdadeira razão ri disso” (833 a) quando
Epifânio sustenta que as árvores do paraíso são terrestres e as fontes do paraíso são físicas.
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A alegoria do paraíso mais sutil e profunda do quarto livro chega quando o mestre cita a interpretação dada por Máximo da árvore do conhecimento do bem e do mal, com Eriúgena citando da Introdução às Quaestiones ad Thalassium (CCSG 7, p. 36) em sua própria tradução, efetuada provavelmente nos mesmos anos (864-6) em que estava empenhado na redação do Periphyseon.
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Em Periph. IV 842 c-843 a, a citação de Máximo começa de forma dubitativa: “Talvez”, diz, “quem dissesse que a árvore da ciência do bem e do mal é a criação visível (uisibilem creaturam), não estaria longe da verdade.”
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Onde
Gregório de Nissa havia visto o mal mostrar-se sob as aparências do bem, Máximo, refletindo sobre os efeitos da árvore, vê seu fruto como, inseparavelmente, a humana uoluptas e a humana tristitia.
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Máximo devia conhecer dos antigos textos filosóficos a tradição que remonta a um fragmento de Safo (130), segundo o qual Eros é inseparavelmente doce e amargo (glykypikhron), tradição que quando citada pelo platônico pagão Máximo de Tiro, Orationes 18, 9, no segundo século d.C., foi aproximada ao paradoxo de Diotima no Simpósio platônico (203), pelo qual Eros é o filho de Abundância e de Pobreza.
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O platônico cristão, o Máximo de Eriúgena, vê que a árvore — ou seja, a criação visível — tem efeitos contrastantes: pode ser doadora de inteligência espiritual e “mestra de paixões” (passionum magistra, 842 c), tornando os humanos esquecidos das coisas divinas.
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Por isso, temporariamente (interim), é proibido ao ser humano comer dessa árvore; mas posteriormente dela comerão, no retorno.
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Seu fruto não será mais perigoso quando os humanos receberem a imortalidade, tornando-se “Deus por deificação… tendo por graça o mesmo conhecimento das coisas existentes que Deus tem na sabedoria, chegando à deificação graças à transmutação da mente e dos sentidos” (842 d-843 a).
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Para Máximo, o paraíso era um componente essencial daquele retorno universal, porque o paraíso havia sido reunido por, e completado em, Cristo: “com a ascensão ao céu, uniu sem dúvida o céu e a terra… uniu em torno de si insolúvelmente o paraíso e o orbe terrestre… tendo como nós corpo e sensibilidade e alma e intelecto… recapitulou em si divinamente todas as coisas” (540 c-541b).
5. Apêndice
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Os lugares em que o léxico da tradução eriugeniana do de imagine difere daquele em suas citações de
Gregório de Nissa no Periphyseon I-IV são aqui enumerados, com a coluna da esquerda fornecendo a página e a linha de referência em Cappuyns, e o texto correspondente na coluna da direita sendo o da edição baseada na Versio II do manuscrito R, com as adições entre parênteses quadrados não constituindo propriamente divergências textuais, mas precisões de Eriúgena.