Eckhart chama com vários nomes esse fundo espiritual que torna a alma una com Deus: casa de Deus, recôndito da alma, alma nua, síntese, razão, centelha, castelo da alma, fundo da alma, mente, germe, roca do espírito, mas, apesar de muitos nomes, o fundo da alma é inominável como a Divindade.
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A identidade da alma com o Filho tornava possível o conhecimento da Verdade universal; a identidade do fundo da alma com a Divindade torna possível a união suprema.
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Se não se quer que a inata tensão ao Uno seja vã e exasperante, se não se quer que a vida do espírito falte aqui a seu fim e se consuma na espera desesperada de uma união ultra-terrena, é necessário postular a divindade da própria alma.
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A centelha de que fala
Eckhart não é uma faculdade, mas a raiz de toda faculdade, como a Divindade é a fonte das hipóstases divinas; ela é a própria essência da alma, a alma nua, e como tal não conhece nem ama.
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Na absoluta nudez interior, a alma coincide com a Divindade e a Divindade com a alma; nem Deus se infunde na alma senão nu de todo acréscimo; a bem-aventurança é posta na própria nua essência da alma, após a remoção de todo véu.
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O que
Eckhart disse da Divindade é repetido a respeito do fundo da alma: ele é sem nome como Deus; não gera e não cria, mas permanece numa imóvel e inoperosa quietude como a Essência que in divinis não gera nem profere verbo.
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Uma virtude está na alma que tem uma única operação com Deus; ela mesma cria e faz todas as coisas com Deus e com nada tem algo em comum e gera com o Pai o mesmo Filho unigênito.
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Na alma, todas as criaturas, já elevadas na inteligência à dignidade de razões geradas, incriadas e incriáveis, tornam-se uma única realidade, o próprio Uno.
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A alma é imagem de Deus porque, como Deus é Vida eterna em cujo processo se podem distinguir vários aspectos e momentos ideais (Divindade, geração, criação) que não prejudicam a unidade da essência, assim a alma é processo espiritual que se explicita do fundo essencial nas faculdades superiores e nas potências inferiores.
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O mesmo não-ser que parece constituir o destino da alma como criatura e distanciá-la infinitamente de Deus (que é a plenitude do Ser) está inserido no próprio Deus.
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A alma não é Deus e por isso é imagem e, como tal, é criada; mas a imagem não faz número com seu exemplar e é a própria vida do exemplar.
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Da não se pode sair, porque fora de Deus é o nada. O ser da alma não é um emergir do nada no tempo, mas um depender eterno, cuja manifestação no tempo é apenas aparente.
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Quando a alma estava ainda na Causa primeira, não tinha um Deus, pertencia a si mesma, não queria nada porque era um ser indeterminado que se reconhecia na divina verdade; só quando a alma saiu de seu livre querer e recebeu o ser criado, então teve um Deus.
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Antes que fossem as criaturas, Deus não era Deus, era o que era. Quando as criaturas se tornaram e se iniciou seu ser criado, Ele não era Deus em si mesmo, mas nas criaturas.
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O princípio de individuação consiste na criaturalidade como tal, no sair de Deus, no emergir no tempo e no espaço, sendo apenas o sinal da aparência e do nada, algo que deve ser superado.
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O retorno ao Uno não é retomar mais solidamente posse do próprio eu, mas é reconquista do Universal no intelecto e da absoluta Unidade no fundo essencial.
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Embora as almas, enquanto muitas criaturas, sejam múltiplas, e cada uma delas seja Uno e Tudo, nem as muitas almas constituem uma real multiplicidade nem Deus se divide nelas;
Eckhart parece não superar as dificuldades quando afirma que a multiplicidade não morre nem se extingue no Uno, mas permanece oculta.
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Não é possível sair do próprio espírito; a vida de Deus não se atua senão em nós e por nós, em nossa subjetividade; fora de nós, Deus é um vazio nome.
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A existência de outras almas fora da nossa é indiferente para os efeitos da vida espiritual: elas não aumentam o Ser nem determinam novos deveres essenciais. A única verdadeira relação é a da alma consigo mesma, isto é, com Deus.
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A Unidade não é para a alma seu ser imediato (o homem não é essencialmente intelecto), mas é a meta de uma conquista laboriosa.
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A verdadeira vida da alma se desenrola não no Uno em que está submersa desde a eternidade, mas no ato de conquista do Uno; nisso consiste sua humanidade divina, nisso ela é verdadeiramente igual a Cristo, Verbo encarnado, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.