A alma em Plotino não é uma individualidade efêmera nem idêntica a Deus de forma natural e imediata.
A alma não nasce divina, mas faz—se divina, sendo acolhida pela onipresença do Uno que abriga toda realidade substancial e fenomênica.
A alma reencontra o Uno em seu centro como sua própria unidade íntima, esquecendo a multiplicidade temporal e espacial sem aniquilar a individualidade espiritual originária.
O sistema plotiniano acolhe a exigência de alteridade entre a alma e Deus, conferindo um tom dramático à sorte da alma que vaga distante do
Pai.
O retorno ao Bem recebe um relevo marcante no sistema, no qual as expressões de alegria divina são amplamente acentuadas por Plotino.
A oscilação aparente de Plotino entre o panteísmo e a transcendência decorre da própria natureza da vida espiritual, caracterizada pelo ritmo entre vida e forma, infinito e finito, experiências inefáveis e pensamentos árduos.
O pensamento manifesta—se por meio da audácia de fórmulas para renovar o espanto diante do Numinoso, ciente de que as expressões são nomes vazios perante o Inexprimível.
A doutrina plotiniana não exerceu uma influência direta sobre o mundo ocidental, apesar de ser a expressão mais adequada do gênio helênico frente às exigências religiosas da época.
A tradução das Enéadas realizada por Mário Vitorino teve uma fortuna limitada.
Agostinho destaca—se no mundo latino por demonstrar conhecimento direto do pensamento plotiniano, enquanto no mundo grego—bizantino os escritores eclesiásticos o citam ou traem seu influxo.
Os Escolásticos conhecem Plotino apenas mediatamente, por meio de testemunhos e citações de
Agostinho ou de Macróbio.
Mestre
Eckhart menciona Plotino a respeito das quatro espécies de virtudes nos atos do processo de Colônia, mas recorre a
Tomás de Aquino, que por sua vez utilizou Macróbio.
O pensamento de Plotino atua de forma potente e invisível na especulação cristã por meio de seus continuadores, especialmente Proclo.
A doutrina plotiniana é reapresentada em Proclo sem variações essenciais, insistindo—se na teologia negativa e na teoria do centro da alma.
A doutrina das hênades em Proclo esclarece a relação dialética entre o Uno e o múltiplo, fundando um pluralismo espiritualista.
A doutrina da circularidade do real por meio da permanência, da emanação e do retorno constitui a formulation metafísica mais precisa do sistema plotiniano.
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Tradução dos termos conceituais: permanência, emanação e retorno.
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Menção ao entusiasmo posterior de Hegel por essa concepção que reúne o que a teoria das hênades parecia desligar.
Proclo afasta—se do equilíbrio místico—racional de Plotino ao conceder importância às artes mágico—teúrgicas, cedendo às exigências sentimentais de sua época.
As teorias teúrgicas de Proclo encontraram aceitação tácita no mundo cristão, oferecendo motivos para fundamentar uma teoria dos sacramentos.
As obras de Proclo traduzidas para o latim espalharam as ideias neoplatônicas no Ocidente e resgataram indiretamente o pensamento de Plotino.
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Guilherme de Moerbeke traduziu em 1268 os Elementos de Teologia, e posteriormente os tratados Dez dúvidas sobre a providência, Sobre a providência, o destino e o que está em nós e Sobre a subsistência dos males.
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Menção ao estudo de M. Grabmann sobre as traduções de Proclo por Guilherme de Moerbeke na literatura latina medieval.
As intuições neoplatônicas conservaram—se e atuaram no ambiente escolástico principalmente por meio do Livro das Causas.
O Livro das Causas consiste em uma redação livre dos Elementos de Teologia de Proclo feita por um autor árabe e traduzida ao latim por Gerardo de Cremona no fim do século XII.
O Livro das Causas recebeu atenção e comentários de Alberto Magno,
Tomás de Aquino e Egídio Colonna, além de ser conhecido por Dante, que o citou em várias obras.
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Dante citou a obra no Da Monarquia, no Convívio e nas Epístolas.
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Referência aos estudos de R. Murari sobre a fortuna do Livro das Causas, de C. Sauter sobre Dante e o Livro das Causas, e de E. Krebs sobre soluções escolásticas para problemas de Dante.
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Registro de que o Livro das Causas foi traduzido quatro vezes para o hebraico.
O pensamento neoplatônico penetrou no Ocidente também pela mediação árabe da Teologia de Aristóteles, outra obra falsamente atribuída ao Estagirita.
A versão árabe da Teologia de Aristóteles por Ibn Abdallah Naima de Emesa data de cerca do ano 800, e a reformulação de Abu Joseph Jacob Jon Jsaac Alkindi pertence ao período entre 833 e 842.
A opinião de P. Henry aponta que a Teologia seria uma seção dos cem livros de Notas, baseados nas lições de Plotino e tomados por Amélio, preservando a tradição oral do mestre.
O neoplatonismo inspirou as obras de Avicena, Al—Ghazali e Averróis por meio do Livro das Causas e da Teologia de Aristóteles, adentrando o Ocidente em síntese com a metafísica de Aristóteles.
A fusão entre aristotelismo e plotinismo tendeu a ser vista por escolásticos como uma união híbrida que precisava ser desfeita para o retorno às fontes puras do platonismo.
A filosofia judaica, principalmente com Avicebron e Moisés ben Maimon, renovou motivos neoplatônicos e forneceu materiais para as construções da Escolástica medieval.
O neoplatonismo alcançou o Ocidente cristão por meio das obras do Pseudo—
Dionísio o Areopagita.
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Menção aos tratados Dos nomes divinos, Da hierarquia celeste, Da hierarquia eclesiástica, Teologia mística e Epístolas, datados do século V.
As obras do Pseudo—
Dionísio foram traduzidas para o latim por Hilduíno e depois por João Escoto Eriúgena em meados do século IX, introduzindo o neoplatonismo sob uma elaboração cristã.
João Escoto Eriúgena demonstrou no Da divisão da natureza até onde a doutrina neoplatônica poderia servir de estrutura metafísica para a revelação e a experiência cristãs.
A influência de Eriúgena perpetuou a intuição plotiniana da vida, mas acentuou o risco de o cristianismo desviar para uma especulação puramente racional.
O fascínio de Eriúgena atuou secretamente sobre os místicos posteriores, ortodoxos ou heréticos, e sobre o próprio
Eckhart, gerando acusações de panteísmo e defesas inversas.
O mistério da exegese de Eriúgena assemelha—se ao encontrado em Plotino e ao que se verifica em Mestre
Eckhart.
A sistematização teológico—filosófica de
Agostinho contribuiu para enraizar na especulação cristã o complexo de ideias de entonação neoplatônica que permaneceu na filosofia escolástica.
A alma nova da experiência cristã vive e pulsa sob as construções filosóficas da greguicidade que parecem dominar os sistemas de
Orígenes,
Agostinho e Eriúgena.
A experiência cristã constitui prodígio e revelação, não obra do raciocínio humano, apresentando—se como superracionalidade que atinge uma Verdade reconhecida pelo homem interior.
O historiador ilude—se ao tentar explicar como fenômeno sincretístico e intelectualista o que constitui uma revelação originária e irredutível do Espírito.
O Novo Testamento expressa uma verdade irredutível à filosofia helênica ou à tradição judaica, e os primeiros dogmas da Igreja estão distantes de compromissos filosóficos com a sabedoria dos gregos.
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Indicação dos dogmas da
Trindade e da Encarnação como exemplos de originalidade absoluta da consciência cristã.
A formulação dos dogmas utilizou termos do ambiente filosófico, mas as intuições sustentadas por eles não possuíam antecedentes na filosofia grega.
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Exemplificação de termos como hipóstase, substância, essência e
logos.
O dogma da
Trindade define a personalidade de Deus em sua transcendência absoluta como um círculo espiritual autossuficiente.
A concepção trinitária recusa hierarquias de hipóstases destinadas a preencher o abismo entre Deus e o mundo, rejeitando transações com doutrinas helênicas do
logos, intelecto, demiurgo ou alma do cosmo.
O dogma trinitário afirma a Transcendência divina ao conceber Deus como personalidade concluída em si mesma, o que impõe à especulação o problema da origem do mundo.
O dogma da Encarnação fixou uma concepção teológica inequivocável que parecia loucura para a reflexão dos gregos, embora tivesse vislumbres distantes na crença indiana dos avatares.
O dogma da Encarnação unia em Cristo, na unidade de sua pessoa, a natureza divina e a humana, contrapondo—se ao isolamento sugerido pelo dogma trinitário.
A humanidade ascendeu ao Divino e estabeleceu—se no Eterno por meio de Cristo.
A lacuna sofrida pelo mundo antigo foi sanada, permitindo ao homem encontrar luz e salvação no fundo da alma redenta, sem tender em vão a um Absoluto transcendente.
O espiritualismo neoplatônico conservou a concepção dualista entre o Divino e o Humano, a poise da proclamada onipresença do Uno.
O cosmo permaneceu como o sedimento extremo da geração divina no neoplatonismo, restrito a uma história temporal sem significado e sem graça.
Agostinho e o Pseudo—
Dionísio demonstram as mudanças especulativas profundas que os dogmas da
Trindade e da Encarnação impuseram à estrutura do pensamento helênico.
A aceitação dos dogmas cristãos exigia optar entre Platão ou Cristo, entre a sabedoria ou a fé.
O dogma da
Trindade inspira diretamente a doutrina da alma em
Agostinho, acentuando as relações íntimas entre Deus e o espírito humano e exaltando a personalidade.
O Pseudo—
Dionísio confere um lugar central a Cristo na hierarquia dos seres, atribuindo—lhe uma completude e unidade ausentes no sistema plotiniano.
Mestre
Eckhart posiciona—se primordialmente como um filósofo cristão voltado para a revelação, cuja alma busca a salvação espiritual e a paz.
O posicionamento original de
Eckhart, expresso nos Ensinamentos do Discernimento, consiste na dedicação plena à Vontade absoluta para realizar a verdadeira liberdade do espírito.
A consideração dos Ensinamentos é necessária para apreender o significado genuíno e a justificativa espiritual das investigações teológicas e metafísicas de
Eckhart.
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Crítica à perspectiva de P. Denifle, que reduzia
Eckhart a apenas mais um escolástico tradicional.
A alma de
Eckhart apela para o Novo Testamento, aprofundando as fórmulas evangélicas com rigor dialético e focando—se na relação com Deus.
O ponto de partida de
Eckhart situa—se na palavra de Cristo e nos dogmas da
Trindade e da Encarnação, adaptando a eles as doutrinas dos filósofos mediante esforços interpretativos.
Toda a metafísica eckhartiana nasce da necessidade de interpretar as palavras de Cristo ou as crenças cristãs essenciais, esgotando—se no círculo dessa exegese.
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Ausência de preocupação em construir uma doutrina filosófica como preâmbulo da fé, diferentemente de
Tomás de Aquino.
O círculo místico da exegese eckhartiana expandiu—se gradualmente, envolvendo novas investigações e tornando complexas as relações entre pensamento e fé.
A revelation neotestamentária poderia conduzir a uma concepção imanentista por meio de uma interpretação audaz, embora imune ao misticismo panteísta clássico por falta de sistematização racional.
Tradução de passagens do
Evangelho de João que fundamentam abordagens sobre a filiação divina e a vida eterna.
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Passagem: deu—lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (1, 12).
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Passagem: o que nasceu do espírito é espírito (3, 6).
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Passagem: esta é a vida eterna: que te conheçam a ti só (17, 3).
A afirmação sobre a vida eterna ganha contornos específicos quando aproximada de uma passagem do
Evangelho de Mateus.
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Passagem de Mateus: ninguém conhece o
Pai senão o
Filho (11, 27).
Tradução de trechos da Primeira Carta de João relativos à condição de filhos de Deus.
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Passagem: vede que amor nos deu Deus, para que sejamos chamados filhos de Deus e o sejamos (3, 1).
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Passagem: seremos semelhantes a ele, e o veremos como ele é (5, 2).
Tradução de formulações das epístolas do apóstolo Paulo aos Coríntios, Romanos e Gálatas sobre transformação, adoção e a totalidade em Deus.
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Segunda aos Coríntios: contemplando com o rosto descoberto a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem de claridade em claridade (3, 18).
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Romanos: recebestes o espírito de adoção de filhos de Deus (8, 15).
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Romanos: se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co—herdeiros de Cristo (8, 17).
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Romanos: predestinou—os para se tornarem conformes à imagem de seu
Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos (8, 29).
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Romanos: dele, por ele e nele são todas as coisas (11, 36).
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Gálatas: porque sois filhos, enviou Deus o espírito de seu
Filho aos vossos corações (4, 6).
As fórmulas teológicas neotestamentárias recorrem com frequência nas obras eckhartianas, sendo reconhecidas pelo mestre como o núcleo do mensagem cristã.
A interpretação de
Eckhart torna—se rigorosa ao assimilar a alma redenta ao
Filho e considerar as palavras com as quais Cristo declara sua unidade com o
Pai.
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Tradução de João: ninguém jamais viu a Deus: o
Filho único, que está no seio do
Pai, ele mesmo o revelou (1, 18).
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Tradução de João: eu e o
Pai somos um (10, 30).
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Tradução de João: eu estou no
Pai e o
Pai está em mim (14, 11).
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Tradução de Mateus: ninguém conhece o
Filho senão o
Pai, e ninguém conhece o
Pai senão o
Filho (11, 27).
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Nota de que esses passos foram recolhidos do Comentário sobre João de
Eckhart, servindo de inspiração fundamental para seus demais escritos.
O sistema plotiniano estava mais distante da posição panteísta devido aos seus planos distintos de vida espiritual, hipóstases decrescentes e múltiplas mediações.
A doutrina cristã afirmou um contato mais direto entre a alma e Deus por meio da encarnação e da descida do Espírito, apesar de o dogma trinitário isolar Deus na transcendência.
Os intermediários metafísicos permaneceram especialmente no pensamento árabe, mas o pensamento cristão os rejeitou sob o influxo do renovado aristotelismo.
O cristianismo de
Eckhart preserva o método e a presunção metafísica do neoplatonismo, embora abandone este último como um sistema determinado de doutrinas para manter fidelidade ao mensagem cristã.
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Tomás de Aquino utilizou o aristotelismo para conter as presunções dedutivas da razão humana diante da fé, revendo as possibilidades do conhecimento.
A razão em Mestre
Eckhart não se detém diante das fórmulas dogmáticas como perante o inacessível, mas apoia—se nelas para construir uma metafísica da revelação.
O neoplatonismo eckhartiano funciona apenas como um meio para edificar uma doutrina teológico—mística fundamentada em uma atitude espiritual original.
A estrutura do sistema de
Eckhart prescinde de esquemas emanatísticos, de hipóstases, de teorias psicológicas do aristotelismo e do valor autônomo da natureza.
O sistema de Plotino comporta problemas cosmológicos e psicológicos e o gosto pela pesquisa racional, embora sua entonação dominante seja ético—religiosa.
A especulação de Mestre
Eckhart concentra—se na relação vital entre Deus e a alma, organizando toda a investigação em função desse vínculo.
O centramento da investigação nos dogmas da
Trindade e da Encarnação visa encontrar neles o esquema doutrinário que viabilize a justificativa confessional de seu pensamento.
O dogma da
Trindade serve a
Eckhart para destacar a posição do Verbo, no qual habitam os exemplares eternos das coisas, demonstrando a imanência e a origem divina da alma.
O dogma da Encarnação em
Eckhart não visa contar a história of Deus ou promover um culto místico a Cristo, pois isso colocaria a alma aquém do Divino e traria Deus como mero Objeto.
Cristo é entendido como o Verbo que se encarna na eternidade do presente e em cada alma espiritual, e não em um tempo e lugar determinados.
O Verbo assumiu a natureza humana para manifestar sensivelmente o que se realiza unicamente no segredo do homem interior além do tempo.
As frases evangélicas são interpretadas por
Eckhart de modo literal e rigoroso, rejeitando um sentido puramente analógico.
Os termos geração, filho, pai e espírito são repensados em relação à alma regenerada em Deus, visto que o Verbo estabelece o Eterno na natureza humana.
Eckhart reconduce o Cristo ao dogma trinitário para consagrar sua eternidade e unidade com o
Pai, evitando uma valorização excessiva da Encarnação como mero fato histórico.
A história do Homem—Deus ganha significado espiritual por tornar—se símbolo de uma geração eterna, redimindo o que é transitório de sua inferioridade metafísica.
O sistema eckhartiano estrutura—se na polaridade entre Deus e a alma e em sua dialética extratemporal, buscando no dogma o fundamento teológico de sua doutrina ético—mística.
A encarnação do
Filho significa que Deus não é Deus a não ser na alma, e a alma não é alma a não ser em Deus.
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O
Pai gera o
Filho, o
Filho é igual ao
Pai por ser dele gerado, e o Espírito de amor consagra a relação íntima.
Tudo o que se interpõe entre Deus e a alma carece de valor e equivale ao nada.
O primado da relação na qual Deus se gera na alma exige que todo conhecimento, ser e ação sejam reconduzidos a Deus, sem espaço para realidades intermediárias.
O eleatismo teológico de
Eckhart anula os compromissos entre a alma e realidades inferiores para que o círculo divino—humano se feche como o Deus Uno e Trino.
Deus constitui o único Ser, o único conhecível e o único amável, resultando que tudo o que não é Deus é nada.
A oposição entre Deus e a criatura é levada ao limite extremo, gerando uma concepção do Uno que recorda a teologia negativa neoplatônica e a mística de Shankara.
Deus atua na alteridade com o gerado, de modo que Deus não é Deus senão enquanto gera o
Filho, isto é, na relação com a alma.
A alteridade na unidade constitui a relação viva que possibilita a unificação como unidade real, diferindo tanto da identidade absoluta quanto da oposição.
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A identidade absoluta resultaria em um Uno indiferenciado, no deserto vazio e na morte do pensamento e do amor.
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A oposição geraria o desespero ou o niilismo, pois o oposto a Deus é o nada.
Transcendência e imanência integram—se no ato espiritual: a transcendência fundamenta a relação, garantindo que Deus não seja a alma e a alma não seja Deus.
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Pela transcendência, a alma fora de Deus é criatura e não—ser, e Deus fora da alma é o Nada innominável, tornando o nascimento eterno a superação da condição de criatura.
A imanência atua como fim supremo que condiciona a instauração de Deus e de sua obra na alma por meio da geração eterna.
A dialética eckhartiana renova em sentido cristão a concepção circular do espírito presente em Plotino e Proclo, definindo o processo da alma como a própria vida da Divindade.
A consideração isolada de um dos termos da relação divino—humana leva a metafísicas opostas que acusam
Eckhart de contradição entre transcendência absoluta e panteísmo.
A originalidade da intuição místico—metafísica conduz
Eckhart a incongruências e incertezas de expressão em suas obras.
As obras latinas e alemãs de
Eckhart tornam—se transparentes quando interpretadas pela dialética divino—humana que constitui a entonação original de sua personalidade cristã.
Eckhart recolhe elementos filosóficos, metafísicos e teológicos de diversas fontes, transformando—os na unidade original de seu pensamento para esclarecer sua experiência espiritual.
O mestre chega a desvirtuar doutrinas alheias, comportamento próprio de grandes gênios criadores que atuam como criadores e não como historiadores.
As obras de
Eckhart, sobretudo as latinas, são repletas de citações e referências devido ao seu vasto conhecimento da literatura filosófico—teológica da época.
Os autores que aparecem com maior frequência nas obras de
Eckhart são de entonação neoplatônica, escolhidos por afinidade eletiva por oferecerem a expressão racional menos inadequada de seu misticismo.
Eckhart conheceu as obras por meio das quais o plotinismo se difundira nas contaminações árabe e cristã no Ocidente.
As referências diretas ao Livro das Causas são frequentes em
Eckhart, especialmente no que tange ao Uno e à sua superessencialidade.
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Indicação de ocorrências no Comentário sobre João, Questões Parisienses, Sermões e Na Sabedoria.
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Menção à edição crítica do Livro das Causas por Bardenhewer em 1882.
O Livro dos XXIV Filósofos é lembrado várias vezes por
Eckhart para confirmar a teologia do Infinito e a dialética do Uno.
O nome de Platão surge repetidas vezes nas obras latinas de
Eckhart, evidenciando o uso de diá
logos específicos por meio de interpretações medievais.
A lista de autores platônicos e platonizantes que surgem no horizonte de
Eckhart abrange autoridades da patrística e da escolástica.
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Menção ao Pseudo—
Dionísio, presumindo—se o conhecimento de suas obras na tradução de Eriúgena e interpretação de J. Sarraceno, sendo o tratado Dos nomes divinos o mais citado.
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Detalhes das obras citadas: o comentário Sobre João e uma homilia de
Orígenes; tratados de
Boécio como Da consolação da filosofia, Da
Trindade, Sobre a Isagoge de Porfírio e Livro contra Eutiques e Nestório; o Da fé ortodoxa de
João Damasceno na tradução de Burgundio Pisano; o Do penhor da alma de Hugo de São Vítor; a Metafísica, Da alma e Dos animais de Avicena; o Fonte da Vida de Avicebron; e o Guia dos Perplexos de Maimônides.
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Referências a estudos de J. Koch e Reffke sobre
Eckhart e a filosofia judaica medieval.
O texto registra ecos e reflexos indiretos de outros autores neoplatônicos e escolásticos na obra eckhartiana.
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Menção a João Escoto Eriúgena, de quem
Eckhart repete motivos metafísicos fundamentais por afinidade, embora as marcas apareçam mediadas por
Tomás de Aquino.
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Menção a Macróbio com o comentário Sobre o Sonho de Cipião e a Domingos Gundisalvo com o Da unidade.
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Menção a Alano das Ilhas com as Regras Teológicas e ao tratado anônimo Das inteligências, falsamente atribuído a Witelo, cujo influxo revela traços do Livro das Causas e de Avicena.
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Referências historiográficas aos trabalhos de M. Schleder sobre Macróbio, Cl. Baeumker sobre o Das inteligências e a coletânea em homenagem aos 80 anos de F. Ehrle.
O pensamento de Aristóteles e de seus comentadores não é alheio a
Eckhart, que recorre a eles com frequência.
Eckhart conhece detalhadamente o aristotelismo cristão de
Tomás de Aquino, cujas doutrinas são citadas ou acolhidas tacitamente.
A interpretação não deve partir do preconceito de que
Eckhart seja um tomista fracassado, encarando suas divergências como desvios caprichosos.
A extração de passagens de tom tomista das obras de
Eckhart para negar a originalidade de seu misticismo constitui um procedimento fácil.
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Menção à tentativa de Karrer de limitar a originalidade de
Eckhart a intemperanças especulativas atribuídas a falta de equilíbrio ou desejo de originalidade.
O pensamento de
Tomás de Aquino serve de meio para
Eckhart construir seu próprio pensamento, que se mantém distante tanto do tomismo quanto do neoplatonismo em diversos aspectos.
A separação entre
Eckhart e
Tomás de Aquino reside no método, que se apresenta descendente, intuitivo e dedutivo no primeiro, e ascendente e indutivo no segundo.
Tomás de Aquino qualifica—se mais como filósofo e sistemático do que
Eckhart, se o filosofar for definido como o proceder cauteloso na formação de conceitos e na justificativa racional de cada pensamento.
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Eckhart destaca—se como um pensador intuitivo e criador.
A coerência sistemática pertence a
Tomás de Aquino, enquanto incongruências e contradições marcam o complexo de conceitos de
Eckhart.
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Os conceitos em
Eckhart servem para significar uma intuição original profunda que nenhum sistema racionaliza perfeitamente.
Tomás de Aquino caracteriza—se como um filósofo que crê por ter aderido com a vontade a um mistério que não se confunde com as exigências da razão demonstrativa.
Eckhart define—se como um crente que deseja raciocinar para exprimir o milagre do Inexprimível, assemelhando—se aos gênios criadores da arte que buscam irradiar uma ideia profunda em múltiplos reflexos.
Eckhart possui por intuição e experiência íntima aquilo que
Tomás de Aquino busca alcançar por investigações, demonstrações e analogias baseadas na realidade inferior.
As demonstrações racionais tradicionais mantêm Deus afastado, situado além da alma.
Eckhart não atua como um escolástico no sentido tradicional do termo nem se posiciona primordialmente como um filósofo.
As obras de
Eckhart são pensadas e estruturadas com logicidade de intenções, devendo ser submetidas ao crivo do pensamento raciocinante que rejeita a incoerência.
A estrutura teológico—metafísica das obras eckhartianas pertence à história do pensamento e à análise crítica, tendo sido reconstruída com base em fontes cristãs e metafísicas.
O significado profundo das obras de
Eckhart insere—se na história do Espírito, planando em uma atmosfera ideal na qual se reconhecem os homens eleitos de todas as eras.
As classificações pertencem ao raciocínio humano que distingue e desmembra a vida do espírito, a qual consiste em unidade com o Absoluto.
A inspiração fundamental de
Eckhart qualifica—se como cristã, ao passo que os meios de sua reconstrução especulativa revelam—se neoplatônicos.
Eckhart declarava a sinceridade de sua fé recorrendo aos dogmas da
Trindade e da Encarnação como expressões de sua experiência religiosa.
O historiador possui a prerrogativa de buscar a manifestação de uma forma fundamental da atividade espiritual humana para além das fórmulas dogmáticas e teologias inconsistentes.
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Os próprios místicos e
Eckhart parecem ter tido o pressentimento de uma verdade universal oculta sob as profissões de fé.
Eckhart mostra—se um metafísico por ser um místico, dotado de uma personalidade moral—religiosa que supera o seu pensamento estruturado.
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Referência à perspectiva de Karrer, que enxerga em
Eckhart um educador e profeta cuja dimensão mística e escolástica convivem de forma escura.
A análise do sistema eckhartiano exige reportar cada palavra expressa à intuição original do Divino que constitui o fundo de sua alma.