ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 25: A PAIXÃO
Os gnósticos, diferentemente dos eclesiásticos que consideravam a morte de Jesus um evento histórico irreversível ocorrido uma única vez, não tinham reparo em invocar a paixão, e alguns grupos, como os basilidianos, chegaram a calcular com escrúpulo as datas da paixão, atribuindo-a a diferentes dias dos meses egípcios.
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A concepção cíclica e não histórica da gnose heterodoxa, que oporia a repetição inexorável de períodos à unicidade da morte de
Jesus defendida pelos eclesiásticos, não encontra ratificação nem entre os basilidianos nem entre os discípulos de Valentim.
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Para Heracleón, a paixão de
Jesus constitui a divisória das duas vertentes do tempo, que ele reparte entre o século atual e transitório e o futuro nupcial e definitivo, ou entre o tempo que precedeu e o que segue a paixão de Cristo.
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Os basilidianos indicaram com escrúpulo as datas do nascimento, batismo e paixão de
Jesus, com alguns referindo a paixão ao ano décimo sexto de Tibério, dia 25 do mês Famenot (21 de março), outros ao dia 25 do mês Farmouzí (20 de abril), e outros ainda afirmando que o Salvador padeceu em 19 de Farmouzí (14 de abril).
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Os
valentinianos, embora se desconheçam as datas exatas que consagraram, afirmaram que o Senhor padeceu no décimo segundo mês, querendo que ele pregou por um ano após o batismo, e expressaram que assim como o nascimento do Salvador arranca o homem do devir e do hado, o seu batismo e a paixão o arrancam do fogo e da paixão.
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A paixão do Salvador, segundo a doutrina que atribui ao
pathos de
Jesus a função de livrar a humanidade das paixões a que estava submetida antes de sua vinda, teria atalhado o fenômeno da transmigração das almas de um corpo a outro, remediando-o definitivamente com a ascensão.
A distinção entre o pathos real e o pathos aparente, que marcou a controvérsia entre os eclesiásticos e os gnósticos, fundamentava-se em diferentes soluções filosóficas, como a platonizante, que negava categoria de ser aos acontecimentos do mundo visível.
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Os eclesiásticos, como Santo Inácio de Antioquia e Santo Ireneu, denunciaram uniformemente aqueles que impugnavam o
pathos real de
Jesus, afirmando que, se ele só tivesse sofrido em apariência, a fé e o martírio seriam vazios.
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Santo Inácio de Antioquia escreveu que, se, como dizem os sem Deus,
Jesus Cristo só sofreu em apariência, então ele próprio está acorrentado em vão, e afirmou aos de Esmirna que o Senhor sofreu de veras e de veras ressuscitou, não apenas em aparição como dizem os incrédulos.
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Escritos de Nag Hammadi, como a I Apocalipse de Santiago e o Zostrianos, ratificam a visão docética, com o Salvador afirmando a Santiago que jamais padeceu sofrimento algum, pois isso estava reservado a um tipo de arcontes.
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O Segundo
Logos do Grande Set afirma que “eu fui visto e castigado por eles, mas não era eu”, pois outro foi quem bebeu a hiel e vinagre, enquanto ele, nas alturas, ria-se da ignorância dos algozes.
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A solução platonizante para o problema do
pathos, ao contrapor os seres inteligíveis aos sensíveis e definir a matéria como não-ser, permite afirmar que os acontecimentos do mundo visível não têm categoria de ser, respondendo ao campo da imagem e da aparição.
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O
Evangelho segundo Filipe, ao distinguir entre a carne autêntica do Senhor e a nossa carne como mera imagem da verdadeira, sustenta que o
pathos verdadeiro do Senhor ocorreu em sua carne superior, enquanto a paixão sensível ocorreu no corpo exterior e não verdadeiro.
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Os Atos de João, ao afirmar que a cruz luminosa não é a cruz de madeira que se vê e que o Cristo na cruz não é o que era para outros, indicam que o
pathos sensível de
Jesus na cruz não tem valor de ser, sendo apenas aparencial e acessível aos sentidos.
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Na linha marcionítica, diferentemente da solução platonizante, negava-se a verdade do corpo hílico em que
Jesus sofreu, atribuindo-lhe uma sombra de corpo ou um corpo putativo, sem carne ou
soma real.
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Marção, que negou a natureza hílica de
Jesus e o fez aparecer em corpo adulto de origem superior, vestido de carne putativa, não negou a verdade da paixão e da morte, mas sim a verdade da carne, sustentando que Cristo, apesar de ter uma “caro putativa”, não teve uma “passio putativa”, mas sofreu real e verdadeiramente na cruz.
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Tertuliano, ao criticar Marção, argumentou que, se Cristo sofreu em aparência como um fantasma, poderia também ter nascido em aparência, e que seria menos indigno ter nascido do que ter morrido, se a morte foi verdadeira.
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Os marcionitas, que mantiveram no seu
Evangelho os relatos da crucificação, não disseram que Cristo sofreu em aparição, mas sim que ele não tinha verdadeira carne, embora possuísse um corpo capaz de se nutrir e conversar com os homens, como os
anjos que apareceram a Abraão.
1. BASÍLIDES
Basílides, que figura entre os gnósticos partidários de um Jesus nascido de Maria segundo a carne, sustentou que o Salvador, embora tendo a mesma substância carnal que os demais homens e contraindo por isso uma mancha objetiva, não padeceu por nenhum pecado pessoal, mas por vontade de Deus e em virtude de sua missão salvífica.
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Clemente de Alexandria atribuiu a Basílides a doutrina de que os sofrimentos desta vida, mesmo entre os inocentes, respondem a pecados reais ou a uma disposição real pecaminosa, o que levaria à conclusão de que
Jesus, tendo sofrido, também teria pecado.
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Basílides, para negar a aplicação dessa doutrina a Cristo, respondeu que
Jesus padeceu como os infantes que sofrem, isto é, sem culpa alguma nesta vida, mas a referência a
Jó 14,4 (“nenhum homem há puro de toda mancha”) levou Clemente a acusá-lo de ter dito que o Senhor foi um homem pecador.
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O Salvador não padeceu simplesmente por ter carne, mas por vontade do
Pai, e a sua paixão e morte, longe de serem um castigo, são objeto de amor da parte de Deus e positivamente queridas pelo
Pai para a salvação do mundo.
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Segundo Basílides, conforme a refutação de
Hipólito, era necessário que os elementos confundidos na amorfia fossem discriminados mediante a separação de
Jesus, que padeceu na sua parte corpórea, pertencente à amorfia, e ressuscitou na sua parte psíquica, pertencente à hebdomada.
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O
pathos e a morte de
Jesus, ao iniciar a apocatástase do universo, remediaram a “sygkysis” das substâncias, pois o Salvador, compendiando em sua pessoa todas as substâncias desde a ínfima até a divina, pôde com o seu
pathos iniciar a restituição das essências.
2. VALENTINIANOS
Os valentinianos, embora tenham teorizado pouco sobre a paixão em comparação com outros temas, distinguiram entre a pessoa impassível do Salvador e o Cristo psíquico ou Messias por ele assumido, atribuindo a este último a natureza passível, sujeita a injúrias e dores.
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O
Evangelho da Verdade denuncia o fato da paixão ao afirmar que o fiel e misericordioso
Jesus teve aguante para suportar os trabalhos até tomar o livro dos viventes, pois sabia que sua morte é vida para muitos.
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Os
valentinianos itálicos, ao discriminar entre a pessoa do Salvador e o Cristo animal por ele assumido, sustentavam que o
pathos tocava fisicamente ao Messias e não ao
Filho, afetando indiretamente também o elemento espiritual assumido pelo Salvador.
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A passagem “É preciso que o
Filho do homem seja reprovado, cheio de injúrias, crucificado” é interpretada por eles como uma fala a respeito de um outro, ou seja, do sujeito à paixão (o Messias), e não da pessoa impasível do
Filho.
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A doutrina dos três pathé, exposta por Teódoto, descreve o
pathos da Sige (que moveu o
Pai a se revelar), o
pathos de Sofia (que provocou a simpatia dos eones para sua emenda), e o
pathos de
Jesus no Calvário, ao qual responderam com simpatia as sementes dos homens espirituais contidas nele.
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Teódoto afirma que, se o Salvador padeceu, padeceram também com ele as sementes a ele inerentes, e que o Todo e o Cabal sofrem por causa dessas sementes, as quais o próprio
Jesus, portando-as a custas em seus ombros mediante o signo da cruz, introduz no Pleroma.
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A reflexão valentiniana estende o
pathos, com o auxílio do mito, a todo o universo, desde o
pathos do sumo Deus (entendido como amor de filantropia e origem da economia salvífica) até a paixão de
Jesus, que é vista como um instrumento de mediação entre o
Pai e os homens.
A confrontação entre a visão eclesiástica e a gnóstica sobre a paixão revela que, para os gnósticos, a única paixão real e verdadeira não é o sofrimento corpóreo de Jesus, mas sim a ignorância da economia divina, enquanto o pathos autêntico é a vontade de Deus de se manifestar aos homens na fé e na gnose.
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Melitão de Sardes, ao definir o paciente como o homem (Adão) e o compaciente como o
Filho, inverte o esquema
valentiniano ao afirmar que Cristo compadece para destruir as paixões da carne do homem, e não o contrário.
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Clemente de Alexandria, ecoando uma perspectiva eclesiástica mais simples, afirma que os gnósticos esquecem que o Senhor se fez homem por nós, e que o profeta reza “compadece-te de nós”, porque o Senhor provou a debilidade da carne sofrendo em sua própria pessoa.
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A acusação de docetismo lançada contra os gnósticos, especialmente contra aqueles que negavam a
Jesus a humana carne, é considerada em grande medida falsa, uma vez que tanto os basilidianos quanto os marcionitas admitiam uma “vera passio”, ainda que unida a uma “caro putativa”.
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Para os gnósticos, os sofrimentos materiais de
Jesus são dignos de consideração apenas como símbolo de sofrimentos mais elevados e, em última análise, como símbolo da ignorância, enquanto a única paixão real é a ignorância terrena de Deus e o único
pathos autêntico é a vontade divina de se manifestar.