ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 15: ARMONIA ENTRE OS MISTÉRIOS
Na vida terrena de Jesus presume-se maior unidade, pois os mistérios denunciam sua missão salvífica e seu próprio constitutivo domina os atos de sua existência, de modo que uma mente iluminada poderia descobrir o segredo de sua continuidade e redução a um.
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Inácio de Antioquia invoca o nascimento, a paixão e a ressurreição como mistérios cumpridos com verdade e firmeza por
Jesus Cristo, dos quais pende “nossa esperança” de salvação.
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O mesmo Inácio afirma que a virginidade de Maria, o parto dela e a morte do Senhor são “três mistérios sonoros (tris mysteria krauges)” que se levaram a cabo no silêncio de Deus, ocultos ao príncipe deste mundo.
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Justino, no Diálogo com Trifão, assinala que Cristo nasceu, foi batizado no Jordão e foi crucificado não por necessidade pessoal, mas em favor da linhagem humana que havia sucumbido à morte e ao engano da serpente.
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Irineu de Lyon declara que no corpo do Senhor quase todo o mundo ressuscitou e foi instaurado, de acordo com o decreto inicial a propósito do sacramento da encarnação, paixão e ressurreição do Senhor.
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O denominador comum dos mistérios da vida de
Jesus na primeira parusia é a humildade e a dor, sob o signo da cruz, que os orienta por caminhos não gloriosos para a paixão e a morte.
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A carne que “in forma servi” havia enlaçado os mistérios da vida terrena de
Jesus segue enlaçando “in forma Dei” os mistérios de sua vida gloriosa, desde a ressurreição pessoal até a anástase e consumação final.
Judeus e ebionitas
Os judeus e ebionitas, partidários de um advento único guerreiro e vitorioso, ignoram as duas parusias e recusam Paulo como apóstata da Lei, usando apenas o evangelho segundo Mateus e perseverando nas consuetudines da Lei.
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Irineu afirma que os ebionitas, não recebendo em sua alma a união de Deus e do homem mediante a fé e perseverando no fermento velho da geração, não querem entender que o
Espírito Santo veio sobre Maria e que o gerado é santo e
Filho do Altíssimo.
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Os ebionitas recusam o
Apóstolo Paulo, dizendo que ele é apóstata da Lei, e esforçam-se por expor curiosamente os escritos proféticos, enquanto adoram Jerusalém como se fosse a casa de Deus.
Marcion
Marcion considera os mistérios do Antigo Testamento como “velhos”, imperfeitos e próprios do criador, enquanto os verdadeiros mistérios do Novo Testamento são essencialmente novos, sem base no AT, e rompem as categorias antigas.
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Marcion eliminou de seu
Evangelho os mistérios da infância de
Jesus e a cena do batismo no Jordão, porque denunciam continuidade com os vaticínios do AT e introduzem o Messias na economia imperfeita do criador.
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Segundo
Marcion, a voz do Tabor proíbe ouvir Moisés e Elias e ordena obedecer unicamente ao Salvador (“Hunc audite”), condenando assim a Lei e os Profetas.
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A vida sensível do Salvador, para
Marcion, teria que começar pela epifania inesperada de Cristo, não nascido, nem humanamente educado, nem batizado, nem submetido a tentações que recordassem o paraíso.
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Autenticam os mistérios de
Jesus, segundo
Marcion, o rompimento com a Lei e os Profetas, e a paixão e morte de
Jesus acentuou esse rompimento, reservando para o Deus Bom a vitória invisível e definitiva.
Gnósticos
Os gnósticos, fazendo de Jesus o Unigênito do Pai, situam-se entre os antípodas do judaísmo e ensinam geralmente uma só parusia compatível com o evangelho da humana salvação, ordenada para a vitória do Filho de Deus sobre o mundo e o príncipe dele.
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A segunda vinda gloriosa dos eclesiásticos não tem sentido entre os gnósticos como parusia terrena, mas apenas como aparição escatológica no nível celeste (na Ogdóada), fora do mundo sensível, onde vivem a glória e a incorrupção.
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Os
valentinianos salvam o duplo advento mediante a vinda simultânea de dois Cristos (o psíquico-Messias e o
Filho de Deus) e duas parusias (terrena e celeste) de ambos, em ordem à dispensação do
Evangelho e à separação definitiva dos “salvos”.
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A singular estrutura de
Jesus em sua aparição como homem ao mundo constitui o melhor mistério, e
Lucas 1,35 anuncia as implicações com os fatos mais relevantes de sua existência terrestre.
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O batismo no Jordão adquire entre os gnósticos um relevo superior ao nascimento de Belém, e muitos o exibem como premisa fundamental, induzindo alguns heresió
logos a crer que antes do batismo
Jesus não era unigênito de Deus.
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A vida gloriosa de
Jesus mira à gênese divina ou gnose, que se desenvolve “em paradigma” mediante a ressurreição dos mortos, a redenção da cativeiro e a subida ao
Pai.
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O autor da Exegese da alma afirma que a alma, recebendo do Padre o divino, foi renovada, e que “esta é a ressurreição dos mortos, esta é a salvação do cativeiro, esta é a ascensão ao céu, este é o caminho ao Padre”, refletindo os mistérios da vida de
Jesus.