ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 4: O “GRANDE LUTADOR”
Desde a mais remota antiguidade, recorreu-se à ideia de luta para um dos aspectos mais profundamente religiosos do homem, e a Escritura abunda em imagens agonísticas que foram aplicadas tanto aos mártires e ascetas quanto ao próprio Cristo.
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Os cristãos preveniam com a graça divina a concupiscência para não cair nela, conscientes de sua debilidade, enquanto a filosofia grega comparava a vida do homem com as justas dos atletas, e o estoicismo via no sábio o ideal do atleta invencível, como Hércules e Ulisses.
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Justino, o gnóstico, exaltou sem escrúpulo a figura de Hércules, com inspiração em Heródoto, enquanto Filão de Alexandria apresentava Abraão coroado como um lutador que havia reportado vitória.
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Cristo é chamado de “estrategista” (strategos) ou “estrategista supremo” (archistrategos) dos
anjos, “magno general nosso” por
Clemente de Alexandria, e “atleta verdadeiro” e “invencível” nos Atos de Tomé.
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Os gnósticos, embora não usem habitualmente o epíteto de “atleta” para Cristo, aplicam-lhe o de “agonista” (agonistes), e
Clemente de Alexandria denomina Cristo de “verdadeiro lutador” (gnesios agonistes) e “companheiro de luta do homem” (synagonistes tou plasmatos).
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Os atos dos mártires de Lyon apresentam Santa Blandina revestida do “magno e invencível atleta Cristo”, enquanto o tratado de Nag Hammadi intitulado O livro de Tomás, o atleta, atesta o uso do termo em contexto gnóstico.
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O
Logos Authenticos afirma que o
Pai fez esta “grande luta” (
agon) no mundo para que se manifestassem os lutadores (agonistai), os quais abandonam o que está sujeito ao nascimento e o menosprezam com um saber elevado.
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As Doutrinas de Silvano apresentam Cristo, a Sabedoria, como paradigma e ajuda no combate, exortando: “Confronta o grande combate, enquanto dura o certame, a vista de todas as potências; não só santas, mas ainda potências todas do inimigo”.
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Basílides e seu filho
Isidoro ensinavam que os sofrimentos desta vida denunciavam faltas anteriores, e que a própria morte dos mártires era justa retribuição de pecados cometidos em existências precedentes.
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Os
valentinianos apresentam os indivíduos espirituais como satélites ou soldados de Cristo que guerreiam junto com Ele (syn Christo katastraτεusesthai) contra o Thanatos para salvar as almas que o demiurgo era incapaz de redimir.
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Os Excerpta ex Theodoto (ET 58,1) apresentam, depois do reino do Thanatos e da falência dos principados e divindades, “o grande Lutador (ho megas agonistes),
Jesus Cristo”.
2. O “GRANDE COMBATE” NA FILOSOFIA PAGÃ
O paganismo havia se adiantado aos cristãos ao aplicar a expressão “grande combate” (megas agon) à vida, como se vê em Platão, Plutarco e Hierocles.
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Sócrates, no Fédon, afirma que aqueles que se purificaram pela filosofia “vivem sem corpos para toda a eternidade”, e que “é belo o galardão, e a esperança é grande” (kalon gar to athlon kai he elpis megale).
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Na República, Sócrates declara que “grande luta, querido Gláucon, maior do que se pensa (megas gar ho agon… megas, ouch hosos dokei), decide da bondade ou da maldade”, e que nem pelos honores, riquezas ou cargo algum se deve descuidar do trato com a justiça.
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Hierocles, comentando os Versos áureos, afirma que “se, deixado o corpo, chegares ao éter livre, serás deus imortal e incorruptível”, e que este é “o grande combate e a grande esperança” (ho megas agon kai elpis he megale).
3. ISAÍAS 7,13
A expressão “grande lutador” (megas agonistes) denuncia suas raízes escriturárias em Isaías 7,13, conforme a leitura de Tertuliano e São Cipriano, que vinculam o “não pequeno certame” ao signo da virgem que conceberá e dará à luz o Emanuel.
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Tertuliano cita
Isaías 7,13-14: “Ouvi, casa de Davi. Não pequeno certame tendes com os homens, porque Deus oferece o combate; por isso o próprio Deus vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamar-se-á seu nome Emanuel, que se interpreta Deus conosco”.
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São
Cipriano, comentando o martírio de Mapálico, afirma que “este é o combate (
agon) que o profeta Isaías predisse dizendo: ‘Não pequeno certame tendes com os homens, porque Deus oferece o combate’”, e que “este é o combate da nossa fé, pelo qual lutamos, pelo qual vencemos, pelo qual somos coroados”.
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Irineu de Lyon lê Isaías 7,13 de maneira semelhante (“Não pequeno certame vos oferece aos homens, e como o Senhor oferece um combate”) e relaciona o “não pequeno certame” com o “sinal” da geração virginal, perguntando: “Que grande coisa haveria ou que sinal se faria no fato de uma jovem concebendo de um varão tivesse dado à luz?”.
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Os Atos de Pedro com Simão (Actus Petri cum Simone) contêm um florilegio
valentiniano que cita Isaías 7,13-14: “Não mínimo certame vos ofereço; eis que no ventre conceberá uma virgem”.
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O Protoevangelho de Tiago (Natividade de Maria) alude a Isaías 7,13 quando a parteira diz a Maria: “Inclina-te, porque não pequeno altercado (ou combate, ouk mikros agon) há em torno de ti”.
4. SENHORIO E NÃO MINISTÉRIO DA MORTE
O “grande lutador” Jesus Cristo se apresenta diante do fracasso da Lei e do demiurgo, que, apesar da grande e sedutora promessa de reinar sobre a morte (basileia tou thanatou), converteram-se em “ministério da morte” (diakonia thanatou), conforme 2Coríntios 3,7.
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Os Excertos de Teódoto (ET 58,1) afirmam que, depois da “basileia da morte, que tinha feito grande e sedutora a promessa, e que, não obstante, veio a converter-se em diakonia da morte, apresentou-se o grande Lutador”.
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Basílides, em Refutação VII 25, comenta Romanos 5,13-14 dizendo que “até Moisés reinou o pecado desde Adão, porque reinou o Magno Arconte (o demiurgo), que tem suas fronteiras até o firmamento, na crença de ser único Deus e que sobre Ele nada havia”.
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A Lei (encarnada no demiurgo), que desde Adão prometeu ser dona e rainha da morte, converteu-se em joguete e servidora do Thanatos, ao passo que
Jesus Cristo, o grande Lutador, empreendeu o que nenhum
anjo nem potestade celeste havia logrado: o domínio sobre a morte e o pecado dos homens.
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Os
valentinianos concebiam as fases do grande combate como a destruição do reino da morte na cruz (pela ressurreição e ascensão) e, finalmente, a destruição do próprio Thanatos “no fim do século” (in fine saeculi), conforme
1Coríntios 15,26.
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O Salvador denominou “inimigo” (antithekon) a esta espécie de carne, e Paulo chamou-lhe “lei que milita contra a lei da minha mente” (
Romanos 7,23), exortando a que a atemos e lhe quitemos os vasos como ao forte (
Mateus 12,29).
5. CONCLUSÃO
O epíteto “grande lutador”, aplicado a Cristo, sintetiza um dos aspectos mais relevantes de sua atividade terrena e responde exatamente ao “certame não pequeno” anunciado por Isaías 7,13, vinculado ao signo da virgem.
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A resposta valentiniana (ET 58,1) despeja a incógnita sobre a qual magno certame se trata: um combate e vitória de que só é capaz o
Filho de Deus, e não um legado,
anjo, potestade arcóntica ou mesmo o próprio Javé criador e legislador.
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Trata-se da luta com a morte e o pecado, na qual a Lei mosaica e o demiurgo fracassaram, convertendo-se em servidores da morte (diakonia thanatou), enquanto o profeta vaticinava a aparição de um homem (Cristo, nascido de mãe virgem) que empreenderia o “magno combate” da humana saúde.
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O conceito agonístico da obra de Cristo supera, entre os
valentinianos, a tonalidade ascética e faz valer a teologia de Paulo sobre a insuficiência da Lei, pois a Lei prometeu adueñar-se da morte e acabou em diakonia do Thanatos, enquanto a gnosis de Cristo levanta o homem da diakonia ao senhorio sobre a morte e o pecado.