ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 23: GETSEMANI
A priori, os gnósticos deveriam manifestar muito pouco entusiasmo pela paixão, mas o análise dos escritos é a melhor garantia de interpretação sobre o significado dos padecimentos morais e físicos de Jesus.
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Os sectários foram avaros em notícias sobre a vida pública, especialmente sobre a cena do horto, sendo necessário recorrer a fontes indiretas para matéria doutrinalmente capital.
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Os ensinamentos de Silvano (códice 7 de Nag Hammadi) contêm elementos sobre as paixões de Cristo, mas sua versão alemã recente não parece aportar grandes novidades.
1. O SUOR DE SANGUE
O suor em grumos de sangue, registrado apenas em Lucas 22,44, deu lugar a muitas controvérsias e foi utilizado como testemunho da realidade corpórea de Jesus.
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Taciano introduziu o versículo lucano no Diatessaron, e seu mestre Justino o citou comentando o
Salmo 21,15, enquanto hereges docetas o faziam valer dentro de uma linha parecida à gnóstica.
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Irineu, contra os
valentinianos, usou o suor de sangue como sinal da carne, juntamente com a fatiga no caminho, a dor das chagas, o choro sobre Lázaro e a água e sangue do lado aberto.
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A Pistis Sophia descreve um mito em que
Melquisedec, o paralempter da luz, purifica as
dynamis dos arcontes e leva sua luz ao tesouro de luz, enquanto os satélites dos arcontes reúnem a matéria para fazer almas de homens, ganados, répteis, feras e aves.
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O mesmo texto explica que os cinco grandes arcontes tomam o suor de todos os arcontes de seus eões, amassam-no e o convertem na
psyche, especialmente quando se trata de uma alma nova extraída do suor.
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Irineu ironiza a origem gnóstica das águas, sugerindo que, se as lágrimas de Enthymesis são salgadas, as águas doces devem ter tido origem nos suores dela, quando caiu em grande agonia.
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Efrém relaciona o suor de Cristo com a maldição de Adão (
Gênesis 3,19), afirmando que Cristo suou para pôr remédio à enfermidade de Adão e devolvê-lo ao jardim.
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Justino, no Diálogo com Trifão, comenta o
Salmo 21,15 aplicando-o à noite em que prenderam
Jesus no Monte das Oliveiras, citando o suor como grumos e a oração para que passasse o cálice.
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Dionísio de Alexandria argumenta que o advérbio “como” (hosei) aplicado aos grumos de sangue indica que o corpo do Senhor não se umedeceu com leves gotas, mas que todo ele estava realmente empapado em suores abundantes.
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Dionísio distingue três exegeses: a literal (Irineu e
Hipólito), a que insiste no advérbio para restar sentido óbvio, e a proverbial (“suar sangue” ou “chorar sangue”) do alexandrino.
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Os escritos gnósticos Sophia Iesu Christi e UW mencionam a “gota de luz” que sai do Salvador e cai no mundo do pantocrator ou se configura como um corpo de mulher, evocando o mito pagão da queda da sangre de Urano.
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Os
peratas ensinam que as sementes de toda classe de potências foram trazidas dos dois mundos superiores (ingênito e autogenes) a este mundo, e que Cristo desceu desde o ingênito para salvar todas as coisas mediante seu descenso.
2. A TRISTEZA
Os lugares neotestamentários oferecem um catálogo sóbrio de paixões de Jesus no horto: tristeza (perilypos), espanto (ekthambeisthai), abatimento (ademonein) e agonía.
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O vocabulário evangélico inclui tristeza adjetivada ou verbal, mas não como substantivo aplicado a Cristo, enquanto
Lucas 22,44 menciona a “agonia”.
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O escrito UW descreve as reações do demiurgo (arqui gerador) ao ver a imagem de Pistis Sofia na água: entristeceu-se muito, gemeu, envergonhou-se de sua própria falta, conturbou-se e caiu em temor.
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Os
valentinianos referem as paixões de
Jesus à sabedoria inferior (Enthymesis Achamot), que, desterrada do Pleroma e abandonada pelo Lumem, sucumbe às paixões (tristeza, temor, consternação e ignorância).
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Irineu, seguindo Tolomeu, relata que as paixões de Achamot foram significadas pelo Senhor na cruz (“Deus meus, Deus meus, por que me desamparaste?”) e no horto (“Quão triste está minha alma!” e “
Pai, se é possível, passe de mim este cálice”).
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Os Excertos de Teódoto (ET 48,2s) ensinam que a matéria húmida procede das lágrimas de Enthymesis; os espíritos do mal, da tristeza; as feras irracionais, do temor; e os elementos do mundo, do estupor e consternação.
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Os
valentinianos, inspirados na Estoa, ensinam a existência de quatro paixões (tristeza, temor, aporia e ignorância) e atribuem à tristeza a geração dos seres fisicamente superiores, ao temor a seguinte, e ao estupor ou consternação a última.
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A exegese valentiniana de
Mateus 26,38 varia na leitura: Irineu latino omite “até a morte”,
Tertuliano lê “quid anxia est anima mea usque ad mortem?”, e Gregório de Elvira registra “heu, quid contristis est anima mea usque ad mortem!”.
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O
valentiniano Marcos ensina que há uma alma superior (divina, expressão do Anthropos
Logos) e uma alma inferior (dispersa no mundo, expressão de Zoe-Eva-Sofia), e que a tristeza de
Jesus se refere à alma inferior envolta em trabalhos.
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Irineu cita a tristeza da alma de
Jesus (
Mateus 26,38) como um signum carnis, argumentando que a tristeza denuncia a realidade do corpo porque provém do corpo e se comunica à alma.
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Justino identifica o cáliz com os padecimentos corpóreos, e Melitão de Sardes afirma que Cristo revestiu um corpo capaz de sofrer para destruir as paixões da carne e dar morte à morte homicida.
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A fonte valentiniana de
Hipólito afirma que
Jesus foi engendrado através de Maria para corrigir as paixões da alma (diorthosasthai ta pathe tes psyches) e para emenda da criação sensível.
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Os Excertos de Teódoto acrescentam que o Senhor desceu por causa da fêmea dispersa no mundo sensível para arrancar os homens do
pathos e ganhá-los para si.
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Orígenes distingue entre “entristecer-se” e “começar a entristecer-se” (incipere tristari), atribuindo a
Jesus apenas o princípio da tristeza e do pavor, não a paixão consumada.
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Jerônimo, transmitindo
Orígenes, afirma que
Jesus se entristeceu não por temor de padecer, mas por causa do infeliz Judas, do escândalo dos apóstolos, da rejeição do povo judeu e da destruição de Jerusalém.
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Os Atos de Pilatos (Descensus) apresentam
Satanás dizendo ao
Hades que
Jesus é puro homem e que ele o ouviu exclamar “Muito triste está minha alma até a morte” por temor da morte, ao que o Hades responde que isso era um engodo para arrebatar os cativos.
3. “O ESPÍRITO ESTÁ PRONTO, MAS A CARNE É FRACA” (MT 26,41; MC 14,38)
O logion, pouco citado na primeira antiguidade, foi aplicado tanto aos discípulos quanto ao próprio Jesus, com interpretações que variam segundo a antropologia de cada autor.
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O papiro copto de Estrasburgo situa a cena no horto de Getsemani e registra
Jesus dizendo: “O espírito (está) pronto, mas a carne (é) débil. (Quedai-vos) agora e velai (comigo)”.
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O Primeiro Apocalipse de Santiago traz o Senhor dizendo a Santiago: “não te entristeças, porque a carne é débil; receberá o que lhe está definido. Tu, porém, não te angusties nem temas por ti”.
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Irineu interpreta o logion escatologicamente: a carne é débil, o espírito está pronto (forte), e se alguém mistura o que está pronto do Espírito como estímulo à fraqueza da carne, o forte supera o fraco, absorvendo a fraqueza da carne pela fortaleza do Espírito.
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Tertuliano, quando eclesiástico, identifica spiritus com anima (as duas substâncias humanas, corpus e anima), e os epítetos respondem a suas propriedades físicas: caro infirma (matéria terrena) e spiritus promptus (matéria celeste).
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Tertuliano montanista introduz a trilogia caro-anima-spiritus: o Espírito (Paráclito) é um dom divino sobreañadido à alma para vigorizá-la, sendo capaz de fortalecer alma e carne, e sem ele nem uma nem outra valem em ordem à paixão.
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O Pseudo-
Hipólito funde
Lucas 22,42 e
Mateus 26,41, aplicando o dito diretamente a
Jesus: o espírito está pronto (razão de sua vitória) e a carne é débil (natureza humana pela qual recusava o cálice).
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Orígenes registra várias exegeses: uma que afeta todos os homens ainda não perfeitos (onde a carne é forte e o espírito débil), e outra para os perfeitos (onde o espírito está pronto e a carne é fraca).
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Orígenes, em De principiis, estabelece uma hierarquia: a alma (anima) é algo médio entre a carne débil e o espírito pronto, sendo este último incompatível com a turbação das paixões.
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O mesmo autor afirma que os sinóticos recolheram a cena do horto porque é próprio do homem, quanto à fraqueza da carne, querer evadir a paixão, enquanto João, expondo
Jesus como Deus Verbo, silencia sobre isso.
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Os Excertos de Teódoto (ET 73) aludem ao logion ao opor o bom pastor (sempre solícito) ao mercenário, que não está pronto (ou prothymos) a dar a vida pelas ovelhas por ser débil (asthenes).
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A exegese valentiniana do logion afirma que o espírito (homem pneumático) está sempre pronto e a salvo de todo temor e covardia, enquanto a carne (homem hílico e psíquico) é débil e acessível às paixões físicas e morais.
4. AS NEGAÇÕES DE PEDRO
A ideologia gnóstica dos três homens (hílico, psíquico e pneumático) convivendo em uma única pessoa foi aplicada às negações de Pedro, gerando uma exegese que se perpetuou entre eclesiásticos.
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Ambrósio de Milão afirma que Pedro negou bem o homem (hominem), porque sabia que
Jesus era Deus, e que ele não negou ser discípulo de Cristo, mas sim ser discípulo daquele homem.
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Jerônimo condena essa exegese como frívola, pois faz reu de mentira o Senhor, e
Agostinho também a rejeita, afirmando que quem nega o homem Cristo nega o próprio Cristo.
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Orígenes, atacando os
valentinianos, pergunta como Pedro, se era de natureza espiritual, pôde cometer pecado tão grave, e responde que os gnósticos alegam que não foi Pedro quem negou, mas um outro (o homem psíquico ou hílico) que estava em Pedro.
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Os
valentinianos distinguiam nos profetas do AT e nos apóstolos do NT dois níveis de atuação: um psíquico (sob influência do demiurgo) e outro pneumático (sob influência de Sofia), fenômeno que se repetia também em João Batista.
5. CONCLUSÃO
A literatura gnóstica descuida o marco da oração do horto, e a escassa documentação sugere mais do que explica, movendo-se frequentemente em campo mítico por referências a personagens como Sofia Achamot.
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Os
valentinianos conheceram o suor de sangue, embora Tolomeo o aplique a Achamot em cena preliminar à criação, enquanto
Dionísio de Alexandria amplia a exegese para os cauces normais sem afetar a ideologia gnóstica.
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Melhor referendadas estão as paixões (tristeza, temor, angústia) com fundamento na tétrada estoica, da qual provêm as esências (espiritual, animal, material) do universo hílico.
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O texto básico de
Mateus 26,38 difere do corrente (“Quão triste está minha alma até a morte!”), sendo lido de maneira similar por Irineu,
Tertuliano e Gregório de Elvira, mas a exegese varia conforme a antropologia.
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Dois textos polarizam a análise: a tristeza da alma de
Jesus (
Mt 26,38) e o contraste entre o espírito pronto e a carne débil (
Mc 14,38;
Mt 26,41), cada solução implicando uma antropologia própria.
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A solução valentiniana para as negações de Pedro (o espírito de Pedro não negou, mas sim a carne) perpetuou-se entre eclesiásticos como Hilário e
Ambrósio, sem consciência de sua origem heterodoxa.