ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 8: COMPONENTES DE CRISTO E SALVAÇÃO DO MUNDO
As posições sobre o advento de Cristo são comparadas entre judeus, marcionitas e eclesiásticos, enquanto os gnósticos se afastam de todos eles ao propor múltiplas vindas e múltiplos cristos.
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Segundo os eclesiásticos, os profetas de Israel teriam previsto para o Cristo dois adventos: um humilde, em forma de servo, ocorrido em
Jesus com origem virginal, e outro glorioso, em forma de Deus, que se cumprirá no juízo final como juiz de vivos e mortos.
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Os gnósticos, diferentemente dos judeus (que esperavam um único advento glorioso futuro) e de
Marcion (que distinguia dois cristos), ensinavam que o Cristo não era único, podendo ser dois ou, talvez, três.
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O texto apresenta um esquema comparativo: para os judeus (Trifão) há um Cristo único com um único advento glorioso ainda no futuro; para
Marcion há dois Cristos (filho de Javé e
Filho de Deus) com dois adventos; para os eclesiásticos há um Cristo único com dois adventos (o humilde já ocorrido e o glorioso por vir).
1. TRÊS VINDAS
Os gnósticos legaram curiosos elementos sobre as vindas do Salvador, concebendo três parusias ou descidas da metropator ao mundo, anteriores à lei de Moisés e aos profetas.
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O
Evangelho dos Egípcios menciona que o grande Set coroou as três parusias com o dilúvio, o incêndio e a condenação dos arcontes, poderes e dominações, eventos que encobririam o dilúvio de Noé, o incêndio da Pentápolis e o juízo dos arcontes.
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O
Apócrifo de João descreve, sem chamá-las de parusias, três descidas da providência (pronoia) do universo ao mundo das trevas, onde ela se transforma em sua semente, suporta a prisão do corpo e clama: “O que ouve, levante-se do profundo sono”.
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O
Apocalipse de Adão conhece três aparições do Deus supremo: a primeira ante Adão e Eva em figura de três homens (como em Mambré), a segunda com o retorno dos três à presença de Noé, e a terceira em que o Luminar da gnose passa em grande glória para que subsista a semente divina de Noé e dos filhos de Cam e Jafé.
2. TRÊS CRISTOS
Em rigor, pode haver muitos cristos como todos os ungidos do Antigo Testamento, mas o que interessa são os personagens internamente vinculados ao Salvador, que algumas seitas gnósticas caracterizavam como Gerião, o de três cabeças ou corpos.
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Os naassenos dividem o Anthropos (Cristo) em três partes: o intelectivo, o animal e o de barro, que se compenetraram e desceram juntos em um só homem,
Jesus nascido de Maria, falando os três homens a partir de suas próprias essências.
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Os
peratas falam de um homem de três naturezas, três corpos e três virtudes (triphes, trisomaton, tridynamon), chamado Cristo, que continha em si as primícias das três regiões do universo: a ingênita (angélica), a autogênita (psíquica) e a particular ou gênita (cautiva).
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Os
peratas ensinam que existem três deuses, três
logos, três intelectos e três homens, e que Cristo desceu desde a região ingênita para que fossem salvas todas as coisas do universo tripartido, conforme
João 3,17: “Porque não veio o
Filho do homem ao mundo para perder o mundo, mas para que o mundo se salve por seu meio”.
3. TRÊS FILIEDADES
Basílides desenvolve a economia das três filiedades escondidas por Deus na semente do universo, dividindo a filiação tripartida em leve, espessa e falta de purgação.
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Para Basílides, a primeira filiação é leve (angélica), a segunda é espessa (psíquica, situada acima do espírito fronteiriço) e a terceira é impura (material, cativa no mundo terreno).
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O sectário introduz um Cristo sentado à direita do Magno Arconte, que recebe o
evangelho vindo da filiação superior e o predica ao próprio Magno Arconte, um Cristo animal que serve de catequista.
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Basílides descreve a separação das naturezas ou substâncias assumidas pelo
Filho de Deus na pessoa de
Jesus na paixão: a parte somática ou material, a animal (tomada da Hebdomada e da Ogdóada) e a parte espiritual recebida do
pneuma fronteiriço.
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Os docetas de
Hipólito falam de três
logos e três eões (princípios) nascidos a partir do primeiro princípio do universo, invocando
Deuteronômio 5,22 (“Trevas, nuvem escura, tormenta”) e a exegese da semente que frutifica como 100, 60 e 30.
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Os docetas ensinam que três eões inconmensuráveis, nascidos do trigênito (ek trigeneos), engendraram de uma virgem o fruto comum, o Salvador de todos, de igual poder à semente da figueira, sendo ele engendrado enquanto a semente inicial era ingênita.
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Os
ofitas de Irineu acentuam a ideia inicial dos três homens: o
Pai (primeiro anthropos), o Unigênito (segundo anthropos) e o terceiro anthropos, que seria o Cristo visível e terreno.
TRÊS CRISTOS NOS VALENTINIANOS
O Evangelho de Filipe, entre os escritos de Nag Hammadi, afirma que o Cristo o possui tudo em si: seja homem, seja anjo, seja mistério e o Pai.
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Hipólito distingue três Cristos
valentinianos: o sobreemitido (eão) pelo Intelecto e a Verdade com o
Espírito Santo; o comum (fruto do Pleroma, consorte da Sabedoria externa, também chamada
Espírito Santo); e o terceiro, engendrado mediante Maria para emenda da criação que nos rodeia.
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Ptolomeu e o setor itálico chamam a atenção sobre o Cristo animal, filho do criador, diverso do
Filho de Deus triplamente concebido, um Cristo psíquico inferior a Javé como filho seu, mas superior a ele como eleito para evangelista dos arcontes.
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O Cristo visível é a manifestação terrena do Salvador Cristo, revelação extra Deum do Cristo eão, constituindo três aspectos de uma mesma pessoa: o
Filho de Deus (Unigênito, Primogênito,
Jesus), que assume as primícias das essências criadas: espírito, alma e barro.
4. O MUNDO
Os gnósticos repartem o universo com arreglo a duas perspectivas complementares: uma diádica (reino da luz e reino das trevas) e outra triádica (limitada à criação).
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A perspectiva diádica coloca acima o reino da divindade (luz, conhecimento, verdade) e abaixo o da criação (trevas, ignorância, sombra), sendo comum a todas as gnoses.
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A perspectiva triádica divide o mundo criado de distintas maneiras: naassenos e
peratas o dividem em ingênito (reino da luz), autogênito (alma racional) e gênito ou mundo particular sensível.
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Os
setianos propõem a tríade luz-espírito-tinieblas, enquanto os
ofitas de Irineu repartem o universo criado em três zonas: a de Prunicos (espiritual, estrelas fixas), a arcóntica planetária (alma racional) e a terrena (matéria, onde vivem em cativeiro os espíritos e almas).
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Os
valentinianos distinguem a Ogdóada (região de Sofia,
Espírito Santo, mãe dos espirituais), a Hebdomada (região do criador e sua alma racional) e a terra (pátria da hyle e desterro dos homens espirituais e psíquicos).
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Os basilidianos de
Hipólito reservam à luz a zona superior infinita e atribuem a tríade ao universo criado: o
Espírito Santo (zona fronteiriça), os céus arcónticos (morada da alma racional) e a terra (lugar de cativeiro para a terceira filiação e sede da matéria).
5. A SALVAÇÃO
O Filho de Deus, constituído como Cristo tricórpore, assume em unidade de pessoa as primícias das três partes do universo (espírito, alma e corpo) porque a todas elas quer salvar, devolvendo cada natureza à sua região de origem.
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O conceito de salvação entre os gnósticos é físico e cósmico, inspirado na lei de natureza: cada espécie persevera e se salva em sua esfera própria (o espírito no reino do espírito, a alma no reino da psique, a matéria na hyle), sendo a vida na matéria uma corruptela e morte para o espírito e a alma racional.
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Os
setianos afirmam que a separação e divisão das substâncias em mistura é a salvação, conforme
Mateus 10,34: “Não vim trazer paz à terra, mas espada” (para separar e dividir as substâncias em mistura).
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Os basilidianos e Justino colocam na paixão e morte de
Jesus o ponto crucial da economia, não pela redenção humana habitual, mas como arranque do rompimento e dissociação de substâncias que continua até a final synteleia.
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Apesar do governo do mundo por leis físicas inexoráveis, todos os gnósticos estimam indispensável a intervenção do
Filho de Deus para levar a cabo a salvação, sendo a mediação de Cristo necessária para o conhecimento do
Pai conforme
Mateus 11,25ss.
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Irineu atesta que os
valentinianos usam
Mateus 11,27 para mostrar que antes do advento de Cristo ninguém manifestamente conheceu o
Pai da verdade, sendo ele o único a revelá-lo.
6. O GEMIDO DA CRIAÇÃO (Rm 8,19-23)
A expectação ansiosa da criação (ktisis) aguarda a revelação dos filhos de Deus, pois foi submetida à vaidade com esperança de ser liberada da servidão da corruptela.
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Marcion omite a passagem de Romanos 8,19-23 por julgar que ela identificava o demiurgo hebreu com o
Filho de Deus, autor imediato do mundo, o que ia contra sua premissa da separação entre o mundo sensível e a salvação dos filhos do Deus ignoto.
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Os basilidianos explicam que a terceira filiação, deixada na massa do mundo, geme e sofre dores de parto aguardando a revelação dos filhos de Deus (os espirituais), que foram deixados aqui para adornar, imprimir, corrigir e consumar as almas.
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Os basilidianos afirmam que, após a subida de todos os homens da terceira filiação, Deus estenderá ao mundo a magna ignorância para que todas as coisas permaneçam segundo a natureza, sem apetecer nada fora da natureza, cessando a tristeza, a dor e o gemido.
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Os
ofitas de Irineu introduzem uma invocação mítica da mãe Prunicos, enquanto os
valentinianos aplicam Romanos 8,19ss à subordinação do demiurgo ao Salvador, como aquele que foi sujeito à vaidade do mundo não espontaneamente, mas por causa do que o submeteu, com a esperança de ser também liberado.
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Ptolomeu afirma que o demiurgo, ao ver o Salvador, aprendeu dele todas as coisas e se lhe agregou com prazer, sendo ele o centurião do
Evangelho que diz: “Pois também eu tenho sob meu poder soldados e servos”.
7. CONCLUSÃO
A maioria das seitas gnósticas atribuiu ao Salvador três assunções correspondentes às três magnas essências da criação (espiritual, animal e material), embora o triadismo do Salvador não indique sempre a mesma coisa.