Cruz

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 26: A CRUZ

A análise da cruz entre os gnósticos revela que, ao contrário do que alguns críticos supõem, o tema possui profundo arraigamento nas famílias de maior peso doutrinal, ramificando-se em quase todos os campos da economia salvífica, com especial relevo entre valentinianos e setianos.

1. FIGURAS DA CRUZ NO ANTIGO TESTAMENTO

Os gnósticos descobriram figuras e profecias da cruz ao longo do Antigo Testamento, especialmente no “árvore da vida” e no “árvore do conhecimento” do paraíso, na “arca de Noé” e na “serpente de bronze”, que apontavam para o madeiro da cruz.

2. ALGUNS TESTEMUNHOS DO NOVO TESTAMENTO SOBRE A CRUZ

Os valentinianos descobriram nas Escrituras neotestamentárias referências à cruz, interpretando Efésios 3,18 como uma alusão às dimensões da cruz que serve de limite (horos) do Pleroma.

3. “HOROS” E “STAUROS”

Os valentinianos situaram a cruz entre o Pleroma e o Kenoma, na fronteira divisória do divino e do criado, estabelecendo a igualdade entre horos (limite) e stauros (cruz), com duas atividades fundamentais: a de consolidar (he hedrastike) e a de dividir (he merike).

4. A CRUZ ÀS COSTAS (BASTAZEIN)

A exegese valentiniana do logion sobre “tomar a cruz” aplica-o ao próprio Salvador na consumação final, identificando a cruz levada às costas com o corpo de Jesus (consubstancial à Igreja) que introduz as sementes espirituais no Pleroma.

5. AS SETE PALAVRAS

A exegese gnóstica das palavras de Jesus na cruz é escassa, mas alguns logia receberam interpretações que distinguem entre o Jesus vivente (espiritual) e o Jesus carnal (o corpo crucificado).

6. EFICÁCIA DA CRUZ: PURGATIVA

O horos (cruz) possui uma eficácia purgativa que separa o pathos da pessoa paciente e a cura, como exemplificado na cura da hemorroísa e aplicado paradigmática e cosmicamente à purificação de Sophia (Achamot).

7. EFICÁCIA DA CRUZ: CONFIRMANTE

A cruz (stauros) possui uma eficácia confirmante que consolida (sterizein) o indivíduo, outorgando-lhe unidade de espírito (he notes) e tornando-o discípulo e irmão de Jesus.

8. CONCLUSÃO

A cruz na gnose heterodoxa, longe de ser negligenciada, possui um sentido profundo que se resume na “iluminação” gnóstica, sendo que o horos (cruz cósmica) purifica ao separar as essências contaminadas e o stauros (cruz histórica) confirma ao unir os espirituais na unidade do Pneuma.