O
salmo discorre sobre o esquema Nus—
Psyche—Chaos, ou Luz—Alma—Trevas, com paralelos em Krämer.
Colocada entre o Primogênito, lei da economia, e o caos, assento da morte, a Psique um tempo contemplou a Luz do Intelecto.
A Psique foi arrastada ao amor da terra segundo mito geral entre os gentios, perdendo—se sem acertar a fuga para a Luz.
O diálogo de Jesus com o
Pai introduz—se no esquema devido à situação lamentable da psique.
A aprovação paterna deve ter seguido o diálogo, resultando no envio de Jesus para liberar a psique.
O
salmo não declara as relações de Jesus com o Nus primogênito, nem da psique com os destinatários da gnose.
A própria pessoa do Nus descenderá aos membros da Igreja perdida no caos para liberá—los da ignorância.
Os naassenos mantêm o esquema Luz—Psique—Trevas sem sacrificar o de ingênito—autogenes—gênito, harmonizando ambos.
O primeiro atende ao processo de Cristo e sublinha o duplo estádio do Cristo autogenes antes da criação e do Cristo gênito após a diáspora.
O segundo olha para a sorte da Igreja na criação.
O esquema global apresenta tabelas comparativas.
-
A estrutura distribui o Ingênito com o Nus no primeiro caso e correspondendo ao Nus no segundo; o Autogenes com a
Psyche; e o Gênito com o Chaos e a união de
Psyche e Chaos.
A situação dos elementos em I é apenas prévia ao desorden da psique e posterior à ação salvífica de Cristo.
A situação em II representa a conjuntura histórica em vésperas da saúde.
A coexistência dos dois esquemas não pertence apenas aos naassenos.
Os
setianos denunciam—na em forma que recorda os basilidianos: Luz—Espírito—Trevas.
-
A Luz equivale ao
Filho, as Trevas ao caos e o Espírito ao meson ou intermédio, conforme passagens na Refutatio comentadas por Bousset, Krämer e Meloni.
Pistis Sophia e os Libros de Jehu (P.S. e L.J.)
-
Os
ofitas de San Irineu guardam muitos pontos de contato com os sectarios da Pistis Sophia.
-
Cabe estudar a preexistência de Cristo em Pistis Sophia e nos Libros de Jeú para descobrir o mistério que os
ofitas resumem nas relações entre a tríada e a díada.
-
Isso faz—se sem o compromisso de vincular as mesmas ideias aos sectários de Irineu e aos dos códices egípcios.
-
Esses documentos foram analisados por outros, singularmente Schmidt, com páginas sobre o Salvador preexistente.
-
O autor contenta—se com breves considerações.
-
A segunda é a região da direita, espaço também de luz, mas intermédia.
-
A dextera luminis figura nos Actas de Tomé, estendendo—se entre os maniqueus ocidentais conforme Actas de Arquelau, Santo
Agostinho e estudos de Decret, Bornkamm e Schlier.
-
A terceira é a região da esquerda ou região de kerasmos, inferior, dominada pelo
diabo.
-
São referidos o capítulo trinta e três, o simbolismo da direita e esquerda em Schmidt, Kroll, Lobeck, Schrage e Dibelius, e passagens de Irineu sobre o príncipe da esquerda em Valentim.
-
Trata—se das mesmas três partes — ingênita, autogenes, gênita — encontradas em
peratas e naassenos, sob outros nomes.
-
Registra—se uma diferença literariamente notável entre os sistemas.
-
Os sectários de
Hipólito extremam a sobriedade para as regiões superiores, enquanto Pistis Sophia e os Libros de Jeú trazem a atenção para elas mediante infinitas divisões.
-
A região suprema correspondente à tríada ofítica divide—se em dois estratos fundamentais, choremata, com multidões de lugares e ordens, taxeis.
-
O primeiro chorema responde ao Inefável absoluto, fechado sobre si em transcendência e silêncio.
-
O segundo chorema, ainda na região suprema, encobre o posto do
Filho Unigênito e denomina—se Primer Misterio.
-
O Primer Misterio possui duas vertientes, diferentemente do Inefável.
-
Uma vertente é o Primum Mysterium introspiciens, que mira o
Pai como Intelecto pessoal orientado a Deus.
-
A outra vertente é o Primum Mysterium prospiciens, que mira para fora como Intelecto orientado para a economia.
-
O Primum Mysterium é o grande personagem da região suprema.
-
Como o
Filho de outras famílias, compendia a preistória desenvolvida na região intermédia por infindáveis éons.
-
O trânsito da região suprema para a média realiza—se mediante a probole do Primum Mysterium do interior para o exterior de Deus.
-
A região intermédia corresponde ao
Filho prolaticio, Cristo subsistente, mediador entre o
Pai e o kerasmos.
-
O mesmo que antes descansava como Unigênito com preeminência do introspectivo revela—se agora como Cristo com eminência do prospectivo.
-
Se houvesse uma chave para ler a dimensão centrífuga dos topos e taxeis do Intermédio, haveria modo de estudar as perfeições de Cristo e a sua missão.
-
O mesmo se diz dos Libros de Jeú que completam zonas da teologia da Pistis Sophia para a região intermédia assimilável ao Cristo.
-
Duvida—se que os atuais Libros de Jeú, Pistis Sophia e o anônimo de Bruce permitam dar com a chave.
-
A leitura deixa a impressão de que o desenvolvimento do reino intermédio obedece a fins pouco soteriológicos ou cristológicos.
-
O sistema adivinável nos códices Askew e Bruce orienta—se para a exaltação dos céus em fase escatológica, ao revés do
Apócrifo de João ou de Ptolomeu.
-
Os textos multiplicam topos, taxeis e séries de virtudes fazendo desfilar a variedade de formas que espera os devotos no mais além.
-
Descorrem o véu de uma estranha liturgia onde o cristológico praticamente se dilui, junto com a mediação simples do
Filho e a ideia do Deus
Pai.
-
O próprio Salvador indica algumas vezes o seu origem, embora faltem no primeiro livro de Jeú as folhas atinentes às relações de Jesus com o
Pai, conforme Schmidt.
-
Essa indicação basta para justificar o esquema anterior.
-
Schmidt resume que o
Pai atraiu todas as ideias com exceção da menor, na qual Jesus resplandeceu e se desprendeu do
Pai como primeira probole e imagem.
-
A cristologia é considerada mais alta do que na Pistis Sophia, sendo Jesus o ser supremo imanente desde o princípio, cuja existência individual se deu pela Ennoia, mediando o processo cósmico.
-
O problema inicial de Cristo está na Ennoia ou primeiro Pensamento com que Deus rompeu a sua quietude, não na existência ab aeterno.
-
A primeira Ennoia determinou com a sua aparição a do Intelecto, princípio e mediador pessoal da futura saúde.
-
Os Libros de Jeú orquestraram com toques pessoais este primeiro passo comum.
-
Subrinham que a essência de Deus
Pai perseverou inacessível sem menoscabo de sua transcendência.
-
A economia positiva desde a concepção do
Filho até a synteleia dos predestinados vem a ser a expressão da munificência do
Pai, sem comprometer a sua existência soberana.
-
Um só raio infinitesimal orientado por Deus para fora basta para construir os estratos de Luz e colmar a história da saúde humana.
-
O raio voltará em sentido contrário para o ponto de origem no seu dia, incorporando os resplanderes à unidade da ideia de que partiu.
-
Os textos multiplicaram as riquezas nos vários estratos contidos na ideia infinitesimal para ressaltar a majestade de Dios.
Basilides
-
Sobre Basílides chegaram notícias dispares por San Irineu, Clemente,
Hipólito e Hegemonio.
-
As de Hegemonio nos Actas de Arquelau e as de Clemente não tocan a preexistência diretamente, ao contrário das de Irineu e
Hipólito, com referências a Bousset e Hendrix.
-
Irineu se inspira provavelmente no Syntagma de San Justino.
-
O Basílides ireneano discurria sobre um esquema relativamente simples.
-
Tudo arranca de uma distinção não eterna entre o Deus ingênito, innatus, e o
Filho, natus.
-
Deus inaugurou o universo criado mediante o
Filho, havido em ordem à sua manifestação aos homens.
-
O universo compõe—se de céu e terra, sendo o céu formado por 365 ordens de
anjos governados pelo demiurgo, e a terra contendo a igreja de homens.
-
Importa assinalar o Natus como mediador entre Deus e o universo.
-
Irineu descobre nele uma série de cinco apelativos do
Filho com uma disposição sintomática.
-
Três apelativos apresentam—se em série lineal, como de pais para filhos: Nus—
Logos—Phronesis.
-
Os dois últimos, Dynamis e Sophia, apresentam—se como éons procedentes do último anterior, Phronesis.
-
Essa disposição faz pensar em uma diferença entre ambas as séries.
-
Os três primeiros denunciariam o
Filho Unigênito no seio do Innatus.
-
Os éons Nus—
Logos—Phronesis seriam para os basilidianos cabeças de série, correspondendo ao que os trinta éons representam para os
valentinianos.
-
A segunda série indicaria o Primogênito, nascido do
Pai de acordo com duas perfeições chamadas a intervir fora.
-
Essas perfeições são Dynamis, talvez como
Logos prolaticio, e Sophia, como Mãe da Igreja terrena.
-
O binômio Dynamis—Sophia recorda dois testemunhos clássicos.
-
O segundo testemunho é Lucas 1,35.
-
A passagem refere que o
Espírito Santo descerá e o Poder do Altíssimo fará sombra.
-
O esquema basilidiano de Irineu estrutura—se hierarquicamente.
-
Apresenta o Innatus com o Pater; o Unigenitus com Nus,
Logos e Phronesis; o Natus com o Primogenitus, Dynamis e Sophia; além dos 365 céus, terra, ecclesia,
psyche e hyle.
-
Irineu relata que Basílides estendeu a sua doutrina mostrando Nus nascido de Innato Patre, de onde nasceu
Logos, de quem veio Phronesis, gerando Sophia e Dynamis, criadores do primeiro céu, repetindo—se o processo até 365 céus, justificando os dias do ano, conforme Krämer e Hendrix.
-
Convém destacar os estratos superiores no que concerne à preexistência de Cristo.
-
O
Pai situa—se acima, e abaixo dele os dois estádios do
Filho, dentro como Unigenitus e fora como Primogenitus.
-
O Cristo teve uma vida resumível em três fases no seio de Deus antes de se revelar como Virtude e Sabedoria.
-
O
Filho já entrañava um quefazer salvífico a título de Intelecto concebido por Deus.
-
O Nus era a Forma pessoal em que Deus intuía a criação, além de ser Intelecto ao serviço dos homens.
-
A primeira missão permanece imutável, embora haja de atuar—se na final consumação.
-
A segunda missão muda quando o
Pai move o Nus em ordem ao cumprimento da dispensação.
-
Configura—se a emissão do
Logos e de Phronesis como manifestações internas orientadas ao universo.
-
A história em três etapas do
Filho coincide com a do mundo e da Igreja a que serve.
-
Nenhuma das perfeições do Unigénito se explica por relação pessoal necessária ao
Pai.
-
Nem o Nus, o
Logos ou a Phronesis miram necessariamente ao
Pai, mas sim ao universo e aos futuros escolhidos.
-
O mesmo se diga das denominações Dynamis e Sophia.
-
As duas denominações supõem o nascimento do
Filho extra Patrem.
-
Deus não poderia criar o universo com as suas formas por sua única vontade soberana.
-
A presença do
Filho é requerida a fim de conformar a matéria, sendo Ele a Forma de Deus e da criação.
-
O
Filho atua como Intelecto, Verbo e Providência definida.
-
A assistência do Verbo e a sua subsistência fora de si são requeridas além da mera presença.
-
Requer—se um novo passo de eficácia como Sabedoria além da assistência ao
Pai como Creador.
-
A animadversão dos arcontes para os devotos e a liberação destes explicam—se atribuindo a Sophia a maternidade dos germes supraangélicos.
-
Irineu relata que o
Pai enviou o seu primogênito Nus, Cristo, para a liberdade dos crentes frente aos fabricadores do mundo.
-
Sophia equivaleria ao
Espírito Santo em tal caso, como ocorre entre outros gnósticos.
-
A preexistência de Cristo em Basílides põe de relevo a sua missão pessoal salvífica e criadora.
-
O Basílides ou basilidianos de
Hipólito partem de outro esquema.
-
A primeira fase é a eternidade do Deus solitário.
-
Deus, simplicíssimo e indefinível, foi sempre o que foi antes de querer revelar—se fora, com paralelos em Krämer e
Quispel.
-
A segunda fase iniciou—se quando Deus lançou uma simiente cósmica a partir de sua misteriosa vontade.
-
A fase traduz miticamente o que outros concebiam como Idea ou Pensamento inicial, durando o tempo da livre decisão divina.
-
A terceira fase é o desenvolvimento e estratificação do universo a partir do semen mundi.
-
O conteúdo do esperma vai saindo aos poucos por ordem de dignidade: o
Filho de Deus, o Espírito intermédio, a substância arcôntica e a matéria.
-
A germinação do
Filho desenvolve—se em três etapas com base em suas três dimensões ou filiedades.
-
A primeira filiedade, puríssima, abandona o semen mundi antes de qualquer elemento e se situa abaixo de Deus.
-
A segunda filiedade, não tão pura, sai depois e sobe com a ajuda do
Espírito Santo até se colocar abaixo da primeira.
-
A terceira filiedade, menos pura, permanece longo tempo na matéria à espera de quem la redima.
-
O
Espírito Santo situa—se entre a segunda e a terceira filiedade como fronteira entre o reino da Luz e a região do Arconte ou
Psyche.
-
-
Fala—se em espírito methorion em sentido análogo entre os
setianos, com notas de Kroll e Kern.
-
Os neopitagóricos situavam no círculo infralunar a fronteira que separa os deuses dos homens.
-
Basílides levanta a fronteira muito mais alto, acima dos sete céus, com base em um esquema oriental confirmado pela
Paráfrase de Sem.
-
O esquema discorre em torno de três raízes: Luz,
pneuma e trevas, conforme Wisse.
-
A região definitiva das filiedades é la Luz.
-
Os três estados não dissimulam a sua identidade, representando o
Filho como Unigênito, o Cristo Salvador e a igreja dos filhos naturais.
-
A primeira filiedade é o Intelecto pessoal, mediador indispensável situado abaixo do
Pai.
-
A segunda filiedade é o Primogênito, engendrado extra sinum Dei, mediador para a criação e a saúde.
-
Ocupa o posto outorgado pelos
ofitas em Irineu ao Cristo superior, Christus allevatitius, abaixo do seio de Deus e acima da Mãe do mundo, com paralelos na Sofia Iesu Christi.
-
A terceira filiedade constitui a igreja dos filhos naturais disseminados à espera de redenção pela segunda filiedade.
-
Pode chamar—se
Filho em algum modo, mas não se identifica com a pessoa de Cristo Unigênito in sinu Patris ou Primogênito extra sinum.
-
Os basilidianos de
Hipólito não descrevem as duas primeiras filiedades que tocam a preexistência.
-
O Unigênito não intervém diretamente na criação ou salvação do mundo.
-
O Primogênito atua como
Logos e Salvador através do demiurgo animal e dos arcontes.
-
Essa última circunstância merece singular consideração dos basilidianos.
-
Algo é deixado traslucir por caminhos indiretos sobre o Cristo preexistente.
-
A segunda filiedade vale—se do
Espírito Santo,
pneuma methorion, para atravessar a fronteira que separa o divino do criado.
-
As relações entre Cristo e o
Espírito Santo antes da criação assemelham—se às de Sumo Sacerdote e Diácono da economia.
-
O
Espírito Santo servirá como Diácono tanto à segunda filiedade miticamente, quanto à terceira historicamente.