Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.
SOBRE O PRÍNCIPE DAS TREVAS EM SEU REINO
O texto se inicia com um
salmo maniqueísta de Turfã que invoca a libertação do abismo tenebroso consumidor, descrevendo um reino de sofrimento onde não há socorro, amigos, salvação ou qualquer tipo de saída.
A MULTIDÃO DEMONÍACA E A HIERARQUIA DO MAL
O maniqueísmo apresenta uma profusão inumerável de demônios ou entidades maléficas, que, no entanto, são distribuídas em classes e organizadas em uma hierarquia dominada por um arquidemônio chamado de “Rei” ou “Príncipe das Trevas”.
As fontes maniqueístas citam nomes como Archontes, Potências das Trevas, Dêvân ou Dêvs, Yakşas, Péris, Rakşas, Râzân, Măzandarân e Avortons para designar as entidades malignas.
A descrição mais completa e melhor do Príncipe das Trevas é fornecida pelos próprios maniqueístas nos capítulos XXVII e VI dos seus “Képhalaiïa”, descobertos em 1930 em Médinet Mâdi, no Egito.
Os “Képhalaiïa” são um conjunto de diálogos — reais ou supostos — de
Mani com seus discípulos, traduzidos para o copta subakhmímico, cuja estranheza e lacunas exigem um comentário geral para dissipar as dificuldades do leitor.
AS CINCO FORMAS DO PRÍNCIPE DAS TREVAS (KÉPHALAION XXVII)
O Képhalaiôn XXVII, intitulado “Sobre as cinco formas do Príncipe das Trevas”, descreve detalhadamente as características e aspectos deste ser, alertando os discípulos para não se revestirem dessas formas malignas.
O Príncipe das Trevas possui uma cabeça com figura de leão, mãos e pés com figura de demônios e espíritos maus, ombros com figura de águia, ventre com figura de serpente e cauda com figura de peixe.
Os cinco aspectos do Príncipe são enumerados: sua negrura, sua puídice, sua fealdade, sua amargura (que é a sua própria alma) e seu ardor que queima como um pedaço de ferro fundido ao fogo.
Três características principais estão nele: um corpo de extrema dureza e solidez, a capacidade de ferir e matar por meio de magias do seu verbo, e o conhecimento das falas e da linguagem dos seus cinco mundos.
A Matéria, descrita como o Pensamento da Morte, formou o corpo do Príncipe a partir da natureza do País das Trevas, tornando-o mais duro que todo ferro, bronze, aço e chumbo.
Ao invocar ou responder, toda a sua linguagem insensata produz encantamentos e sortilégios, sendo que os sortilégios usados pelos homens no mundo são, na verdade, os mistérios do Rei das Trevas.
O Rei conhece os piscares de olhos que seus súditos trocam como sinais, mas estes não compreendem a linguagem daquele; contudo, o Rei ignora o espírito e o pensamento deles, conhecendo apenas o que está presente diante de seu olhar.
Quando o Rei quer se deslocar, ele estica todos os seus membros; quando lhe vem a ideia, ele os contrai e cai ao chão como um cacho de uvas ou uma grossa bola de ferro.
Sua voz é formidável e terrível, espalhando o pavor entre as suas Potências, assemelhando-se ao trovão nas nuvens quando fala e fazendo com que todos tremam, vacilem e caiam a seus pés quando vocifera.
O texto conclama os “bem-amados” a não revestirem as formas desse Príncipe, raiz de todos os males, e a se tornarem zelosos e perfeitos na presença do Espírito da Verdade para que possam herdar a Vida.
O REINO E AS PROVÍNCIAS DO MAL (KÉPHALAION VI)
O Képhalàion VI, intitulado “Sobre as cinco ‘pochetes’ que jorraram da Terra das Trevas desde o começo”, desenha o panorama do Reino do Mal e suas províncias, estabelecendo uma estrutura de cinco elementos, cinco príncipes, cinco espíritos, cinco corpos e cinco gostos.
A Terra das Trevas contém cinco “pochetes” (termo aproximado para designar reservas, grutas ou recantos) das quais saíram cinco Elementos; destes formaram-se cinco Árvores, e das Árvores surgiram cinco espécies de criaturas, machos e fêmeas, cada um dos cinco mundos tendo seus próprios reis, espíritos, corpos e gostos.
O Rei do mundo da Fumaça, que saiu da profundeza da Obscuridade, é o chefe de todo o Mal e perversidade, sendo o princípio da guerra, das batalhas, querelas, perigos, ruínas e combates, tendo sido ele que, no começo, suscitou os perigos e a guerra contra a Luz.
O Rei do mundo do Fogo tem figura de leão (o primeiro de todos os feras), corpo de bronze e o gosto azedo que está em toda forma; seu espírito domina os Superiores e os Chefes, estando presente nas falsas religiões que veneram o fogo e lhe oferecem sacrifício.
O Rei do mundo do Vento tem figura de águia, corpo de ferro e o gosto acre que está em toda forma; seu espírito é o da idolatria dos Espíritos do Erro que habitam todo templo, moradas de ídolos, lugares de culto, estátuas, imagens e santuários do Erro do mundo.
O Rei do mundo da Água tem figura de peixe, corpo de prata e o gosto da doçura ou fadez da água, que está em toda forma; seu espírito reina nas seitas do Erro que batizam com as águas e colocam no batismo de água a sua esperança e fé.
O Rei do mundo das Trevas é uma serpente ou dragão, tem corpo de chumbo e estanho e o gosto de amargura; seu espírito é o que fala nos videntes, adivinhos de todo tipo, possessos e em todos os outros espíritos que proferem oráculos, de qualquer sorte que sejam.
O texto exorta os “irmãos, membros, Crentes perfeitos e santos Eleitos” a se afastarem das cinco servidões dos cinco espíritos tenebrosos, a abandonarem o serviço dos seus cinco corpos e a não andarem segundo os seus caminhos para escapar das cadeias e do castigo eterno.
A COMPARAÇÃO COM O LIVRO MANDEU (GINZA)
Um texto do
Ginza ou “Tesouro” dos mandeus, gnósticos batistas da Baixa-Babilônia, apresenta muitas semelhanças com os Képhalaiïa, sugerindo uma dependência do texto mandeu em relação às descrições maniqueístas do Príncipe das Trevas.
O
Ginza de Direita (XII, 6) descreve a Terra das Trevas como tendo forma totalmente diferente da Terra da Luz, localizada abaixo e ao sul, sendo uma morada extensa e infinita com uma água negra e uma obscuridade opaca.
O Rei das Trevas foi formado e surgiu da água negra por sua própria natureza má, tornando-se grande, forte e poderoso, e evocou milhares e miríades de espécies horríveis de demônios, dêws, gênios, espíritos, liliths, falsos deuses, arcontes, vampiros, sátiros e satanás.
Este Rei das Trevas tem a cabeça de leão, o corpo de serpente, as asas de águia, os flancos de tartaruga e as mãos e pés de demônio, podendo andar, rastejar, deslizar, marchar, rugir, sibilar, piscar os olhos e emitir sons flautados.
O autor mandeu compilou e reproduziu literalmente certos traços, mas os integrou de maneira desajeitada e por vezes incompreensível, transferindo para a massa dos demônios características que nos textos maniqueístas pertenciam ao Rei, ou vice-versa.
A confusão do texto mandeu contrasta fortemente com a rigidez sistemática e escolástica do modelo maniqueísta, que é todo construído sobre distinções, simetrias, correspondências formais e divisões em seções sucessivas e mecanicamente ordenadas.
A COMPOSIÇÃO INTERNA DOS TEXTOS MANIQUEÍSTAS
O Képhalaiion VI parece ter sido alvo de uma interpolação, onde o redator inseriu a versão original do Képhalaión XXVII (ou um texto análogo) dentro da seção dedicada ao Rei da Fumaça, rompendo a ordenança e o equilíbrio original do capítulo.
O paralelismo entre os dois textos maniqueístas é evidente, mas o leitor fica com a impressão de confusão ou incoerência devido à inserção de um desenvolvimento tão extenso e pouco natural no contexto do Rei da Fumaça.
O desenvolvimento sobre o Príncipe das Trevas no Képhalaiion VI aparece como uma peça importada e mal encaixada, pois a extensão dada a ele parece desproporcional em relação às notícias sobre os outros reis.
A adição do retrato do Príncipe das Trevas rompeu a ordenança e o equilíbrio do sexto capítulo, cuja composição original era muito simples e mecânica, baseada em simetrias e antíteses formais entre os cinco mundos e os seus reis.
O PROBLEMA DA IDENTIDADE DO PRÍNCIPE DAS TREVAS
PRÍNCIPE DAS TREVAS E A MATÉRIA: PRODUTO OU PERSONIFICAÇÃO?
Uma segunda ambiguidade fundamental envolve a relação do Príncipe das Trevas com a Matéria, pois ele é ora considerado seu produto (o filho gerado pela Obscuridade), ora é identificado com ela própria como a personificação do Princípio absoluto do Mal.
Ora o Príncipe das Trevas é tido como produto da Matéria ou da Obscuridade, sendo engendrado por “a Noite, mãe dos Arcontes”, que o impele a engajar a guerra contra os éons da Grandeza.
Em outras versões, ele aparece como equivalente à própria Matéria, substituindo-a sob o nome de
Diabo como Princípio absoluto oposto a Deus, sendo o “Dragão com face de leão” cuja mãe é a Matéria.
Alguns testemunhos afirmam o caráter incriado e eterno do Demônio, enquanto outros negam expressamente que
Satanás tenha existido em si desde sempre, atribuindo a eternidade apenas aos elementos dos quais ele saiu.
Essa contradição se deve à coexistência de dois planos de expressão: no plano conceitual, o Príncipe das Trevas é a própria Matéria; no plano mítico, a Matéria torna-se uma grande Demona (o Desejo ou a Concupiscência encarnados) cuja personalidade tende a se distinguir da do Príncipe, seu filho e também seu amante.
AS ADAPTAÇÕES DO PRÍNCIPE DAS TREVAS A DIFERENTES CULTURAS
O Príncipe das Trevas foi identificado com diferentes entidades malignas nos diversos países onde o maniqueísmo se difundiu, sendo assimilado ao
Diabo no Ocidente cristão, a
Satanás ou ao Demônio Primordial no mundo muçulmano, a
Ahriman no Oriente mazdeísta, e a t’an-mo (“demônio da convoitice”) na China.
A PROMOÇÃO E A INFERIORIDADE DO PRÍNCIPE DAS TREVAS
O Príncipe das Trevas atinge um grau extremo de promoção no dualismo maniqueísta por ser um princípio incriado, o que o torna em teoria equivalente a Deus, mas ele permanece qualitativamente inferior por sua natureza intrinsecamente má, estúpida e ligada ao desejo irracional.
O maniqueísmo é um dualismo radical que recusa fazer o Mal derivar de uma substância boa ou de um lugar transcendente, ao contrário de outras gnoses onde o Demônio é uma hipóstase degradada ou o fruto de uma entidade decaída.
Apesar de possuir a propriedade essencial de ser incriado e uma onipotência teoricamente equivalente à do Bem, o Príncipe não é “divinizado”, e os maniqueístas recusam-lhe o título de Deus, reservando-o exclusivamente ao que é bom e benfazejo.
A diferença entre os dois princípios é tão grande como a diferença entre um rei e um porco: o Bem vive num palácio real, enquanto o Mal, como um porco, revolve-se na lama e deleita-se com a podridão, ou como uma serpente, está enroscado no seu covil.
O Reino do Mal é um local de guerra intestina e permanente, onde todos os membros estão levantados uns contra os outros: súditos contra súditos, Arcontes contra Arcontes, vassalos contra o monarca, em um movimento de autodestruição contínua.
O DESEJO, A CONCUPISCÊNCIA E A ORIGEM DA HUMANIDADE
O desejo e a concupiscência são as manifestações essenciais do Mal no maniqueísmo, e a origem da espécie humana é atribuída a uma série de atos de canibalismo e sexualidade entre os demônios, que refletem a estupidez do próprio desejo.
Entre fornicar (todo ato sexual) e comer carne animal, a imaginação e a ética maniqueístas sempre suspeitaram de estreitas afinidades, vendo em ambas manifestações de bestialidade abomináveis e voltadas para a satisfação carnal.
O mito narra que os “Avortons” (progênie diabólica) caíram à terra, uniram-se entre si e deram origem ao reino animal; depois, dois demônios maiores (um macho e uma fêmea) devoraram os filhos dos Avortons para assimilar toda a sua substância, acasalaram-se e geraram a primeira dupla de humanos, Adão e Eva.
Os humanos descendem de Adão e Eva e, por meio deles, dos Demônios, carregando dois estigmas indeléveis do Mal: a forma exterior do corpo (ou de sua parte inferior) e a concupiscência inerente à carne, ao “eu obscuro”.
A perpetuação da raça humana é um processo diabólico sem meta nem termo, pelo qual o pecado nasce do pecado e a humanidade prolonga o seu cativeiro, “transvasando” as partículas de Luz de um corpo a outro e forjando novos grilhões e uma nova prisão.
A ESTUPIDEZ ESSENCIAL E A LIMITAÇÃO DO PRÍNCIPE
A característica mais fundamental e curiosa do Príncipe das Trevas é a sua estupidez, pois sua capacidade de conhecimento limita-se ao presente imediato, sendo incapaz de apreender o princípio e o fim das coisas e de captar a continuidade do pensamento.
Ele não conhece e não percebe nada além do que está presente diante de seus olhos, não vendo o que está longe, mas somente o que está diante de sua face, ouvindo e sabendo apenas isso.
O Príncipe conhece os propósitos e a linguagem dos seus cinco mundos e os signos que eles trocam, mas não compreende o que está longe dele e não percebe o segredo do coração de seus súditos, ignorando o princípio e o fim das suas ruminações.
Sua inteligência é tão estreita quanto o campo de sua visão: ela não possui dom de penetração, apreendendo apenas a superfície material das coisas e dos seres, sendo sensível apenas às aparências e aos signos exteriores.
Incapaz de seguir e explicar o encadeamento orgânico de eventos sucessivos ou o desenrolar contínuo de um pensamento, ele acede e reage apenas ao instantâneo, sendo ocupado e absorvido inteiramente por um puro presente.
CONCLUSÃO: O PRÍNCIPE COMO TRADUÇÃO MÍTICA DO DESEJO E DA MATÉRIA
O Príncipe das Trevas é a tradução mítica da Matéria e do Desejo, representando uma realidade física e psicológica caracterizada por um movimento desordenado e furioso, infinito, irracional e sem causa ou propósito, que encarna a condição carnal do homem abandonada a si mesma.
Matéria e Desejo são o fundo da realidade do Mal, sendo ambos experimentados como um movimento desordenado e furioso, infinito e irracional, sem começo, achamento, causa, finalidade ou razão alguma.
O Mal é “estúpido” porque é pura contingência, a essência de tudo o que, como o caos ou o instinto bruto, aparece, desaparece e reaparece no instante, de maneira absurda e perpétua.
O
Satanás maniqueísta encarna a condição carnal do homem reduzida a si mesma, a existência no tempo em seu aspecto mais despojado, a “vida” insensata, ilusória e contraditória que, sem o recurso à paz do Espírito, é apenas perda, destruição, pecado, inferno, morte e uma noite desesperada.