Catarismo

Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.

A relação entre o catarismo medieval e o bogomilismo balcânico é analisada a partir de novas descobertas documentais, buscando estabelecer a realidade dos contatos entre os dois movimentos e o papel do bogomilismo na formação do catarismo ocidental.

Evidências históricas e documentais das relações entre catarismo e bogomilismo

A possibilidade de relações entre o catarismo ocidental e o bogomilismo balcânico é historicamente viável, dada a existência de comunidades paulicianas na Bulgária e os incessantes contatos comerciais e militares entre o Oriente e o Ocidente.

O nome “catharos”, de origem grega, aparece aplicado a hereges renanos entre 1152 e 1156, e novos documentos como o Tractatus de hereticis e o De heresi catharorum in Lombardia, descobertos por A. Dondaine, fornecem provas concretas da transmissão da heresia.

A história posterior do catarismo languedociano e italiano está em estreita dependência com influências vindas da Europa Oriental, como demonstram a missão do pope Nikétas (Papaniquinta) e os Atos do concílio de Saint-Félix de Caraman.

Evidências internas: comparação doutrinária e práticas comuns

A comparação entre as doutrinas, práticas e atitudes religiosas do bogomilismo e do catarismo revela analogias impressionantes e elementos singulares que são comuns exclusivamente a esses dois movimentos.

A cronologia do bogomilismo e a questão das origens do catarismo

A objeção cronológica de que o bogomilismo seria posterior à primeira aparição do catarismo no Ocidente é invalidada por novos documentos que recuam a data de nascimento do bogomilismo para meados do século X.

A análise leva à conclusão de que o bogomilismo conferiu ao catarismo sua armadura, estrutura e forma, constituindo-o como tal, de modo que o catarismo stricto sensu só existe a partir dessa influência.

Conclusões sobre a origem do catarismo e questões em aberto

A posição adotada é que os movimentos heréticos do Ocidente nos séculos XI e início do XII não eram dualistas ou propriamente dogmáticos, mas sim seitas de tipo ascético e espiritual, de inspiração principalmente evangélica.

Diversas questões permanecem em suspenso, como a relação do catarismo com o paulicianismo e com o maniqueísmo autêntico, ou a possibilidade de sua filiação a um gnosticismo antigo.