Reconhecer assim que o cristianismo dos primeiros séculos se pensou em uma perspectiva essencialmente histórica não quer dizer afirmar que ele se formou fora de qualquer fator mítico; para convencer-se de que o mito teve a sua parte, bastará reportar-se aos trabalhos dos comparatistas (da Religionsgeschichtliche Schule em particular), aos livros de E.O. James (entre outros, ao seu Christian Myth and Ritual), às recentes publicações em que R.
tenta isolar do Mythos que o envolve o Kerygma evangélico, para operar uma Entmythologisierung, uma desmitização do cristianismo.
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Pode-se discordar destes autores sobre a amplitude do lugar e sobre a importância da função que é oportuno atribuir ao mítico na economia das crenças e dos ritos cristãos, mas se convirá não obstante que o mito aí tem parte, ao lado da história propriamente dita; tratar-se-ia porém de não perder de vista o fato de que estes dois elementos são inseparáveis, que se mais ou menos fundiram, que agiram e reagiram reciprocamente um sobre o outro.
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Então se constataria, creio, que se as primeiras gerações cristãs não operaram uma nítida distinção entre o que para nós é história pura de um lado e o que é puro mito de outro, no complexo foram inclinadas a fazer coincidir o mito com o tempo, a interpretar o mito em termos de história ou a conferir aos eventos históricos, ou tidos como tais, um valor e uma função aná
logos aos do mito.
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Em todo modo, a contato com o tempo e com a história, o mito – qual pelo menos o concebe habitualmente o moderno historiador das religiões – perde ou modifica notavelmente não poucos dos seus caracteres essenciais.
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O mito é essencialmente atemporal, anti-histórico; desenrola-se em um tempo primordial ou exemplar, fora do tempo concreto da história, que ele regula e valoriza atualizando-se e reatualizando-se por repetição, consentindo porém ao homem de libertar-se dele e, juntamente, de vencer o que Mircea Eliade chamou justamente de o terror da história.
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Pois bem, no cristianismo o mito se cumpre na própria duração histórica, sem se reiterar identicamente em nenhum dos momentos que a compõem, sem absolutamente reproduzir-se em conformidade com uma situação arquetípica preexistente.
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É o evento histórico, o kairos, expressão direta no tempo da livre vontade de Deus, a tornar-se por si mesmo exemplar e portanto a assumir uma certa função mítica: ele é typos ou até mesmo, como não hesitam em dizer aqui e ali Justino ou
Orígenes, mythos, fabula.
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Mas – na tradição mais geral do cristianismo antigo e enquanto a exegese cristã não sofre a influência da Gnose ou do helenismo – este tipo não é a impressão, o reflexo ou a amostragem de um arquétipo atemporal, nem por sua vez é um arquétipo propriamente dito, mas antes um protótipo, uma protýpposis, no sentido cronológico e não transcendente do termo.
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Ele permanece imanente ao tempo e é um esquema antecipado, uma praefiguratio, de algo que se realizará mais tarde, sempre no tempo, e de que ele é o anúncio, o esboço, a sombra projetada antecipadamente pelo futuro sobre o passado.
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Enquanto no mito, como no mundo inteligível dos filósofos gregos, a realidade é dada de uma vez por todas na sua integral plenitude, e os eventos do mundo sensível não são senão as imagens debilitadas e a cunhagem dispersa de tal realidade, de que o tempo constitui por sua vez apenas uma degeneração, aqui o evento típico é a figura de uma realidade que aparecerá na sua forma plena apenas em uma situação subsequente ou futura.
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Poder-se-ia dizer que a imagem precede o modelo; o tipo, o arquétipo; o símbolo, aquilo que lhe dá sentido; e não apenas ambos se situam no tempo, mas do primeiro ao segundo há também progressão tanto de tempo quanto de realidade.
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Em outros termos, a uma interpretação vertical do temporal por meio do atemporal se substitui uma interpretação horizontal do tempo por meio de si mesmo, onde um determinado momento anterior do devir histórico encontra em um outro momento posterior a sua plena atualidade e ao mesmo tempo a sua justificação e explicação; o exemplarismo mítico é completamente invertido.
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Do mesmo modo, para retomar uma observação de G. van der Leeuw, o mito, pelo fato de circunscrever e normalizar uma situação que pode ser reproduzida mediante repetição, ritual ou doutro gênero, implica uma concepção periódica, circular do tempo; no cristianismo ao invés ele deve adaptar-se a um tempo concebido como uma linha reta, irreversível, e marcada por eventos únicos, não reiteráveis.
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Certo, a organização litúrgica do ano eclesiástico é cíclica, e a celebração dos sacramentos cristãos repete, em um certo sentido, as situações que lhes servem de tipos (o Dilúvio ou a passagem do Mar Vermelho para o batismo, por exemplo) ou que lhes constituem o fundamento (entre outras, a última Ceia de
Jesus).
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A comemoração ritual tende assim a promover a vida e sobretudo a Paixão, a morte e a ressurreição de Cristo a mistério análogo aos mistérios (de que o mito é o elemento primeiro) do paganismo, e a fazer assumir às situações escolhidas o caráter de figuras míticas ou de mitos de fundação.
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A assimilação porém não pode ser completa: o mystērion cristão, no sentido paulino do termo, é mistério de oikonomia, isto é, verte em primeiro lugar sobre os planos de Deus progressivamente desvelados no curso da história, e os mystēria cristãos – os sacramentos propriamente ditos como os sacramenta da
tipologia litúrgica ou exegética – pretendem referir-se, e são referidos, a eventos históricos ou apresentados como tais no Velho e no Novo Testamento.
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Tais eventos, aliás, não têm para a Salvação valor simbólico ou eficaz porque sejam repetíveis e repetidos; ao contrário da Paixão dos deuses dos cultos mistéricos, cuja essência e cujo interesse são inteiramente constituídos pela repetição, a Paixão de
Jesus teve lugar uma única vez e de uma vez por todas, e a sua ação redentora depende do seu caráter de evento único.
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Aliás também os eventos bíblicos, mais do que repetidos, são realizados nos sacramenta litúrgicos, e um sacramento como o rito eucarístico não é pura repetição ou reatualização: é memorial de um evento passado e anúncio de um evento futuro, possui um significado escatológico.
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Finalmente, no cristianismo o mito não tem o encargo de libertar o homem do tempo e do terror da história, ou o liberta deles apenas revelando-lhe que a Salvação, tanto universal quanto individual, se realiza e não pode não se realizar no tempo concreto e por meio da história.
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Por outro lado, parece que se possa considerar de algum modo mítica cada concepção que atribua um sentido, isto é, conjuntamente uma direção, um escopo e um significado, ao tempo em geral ou mais particularmente à história; mas nos casos em que domina o elemento mítico, duas são as possibilidades: ou o curso do tempo é o efeito degenerado de uma situação inicial e pode ser renovado ou concluído mediante um retorno a esta, ou a história propriamente falando é concebida como se se desenrolasse entre duas situações míticas, extratemporais, uma aquém do seu início, a outra além do seu fim – uma Urzeit pré-histórica e uma Endzeit pós-histórica.
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A concepção cristã é também a tal respeito bastante diferente: em primeiro lugar, a Urzeit e a Endzeit que a história une uma à outra são aqui consideradas partes integrantes do tempo histórico: a Criação e o Fim do mundo estão no tempo; Adão é um personagem histórico tanto quanto
Jesus, o Adam futurus, assim como serão históricos a segunda parusia de Cristo e a instauração do Reino de Deus.
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Em segundo lugar, o tempo histórico não é aqui orientado unicamente em função do futuro, escatologicamente: por mais exclusivo, segundo algumas teorias modernas, tenha sido em origem um tal critério de orientação, bem cedo, senão imediatamente, o centro de gravidade da história foi deslocado para ser referido a um evento situado no coração e no curso mesmo do tempo: o primeiro advento terrestre de Cristo.
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Tal deslocamento não eliminou o orientamento escatológico, mas o relegou em segundo plano e, como mostra a sucessiva evolução do pensamento e da fé cristãos, tendeu a diminuir sempre mais a sua importância.
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O ponto final do tempo – como aliás o seu ponto inicial – continua a assegurar ao devir histórico uma direção e um sentido, mas tanto um quanto o outro são definidos em relação a um ponto central situado no plano mesmo da história, da qual divide o curso em dois distintos orientamentos (do passado mais remoto até ele, e dele até o mais remoto futuro) e à qual – tomada no complexo como em cada um dos seus eventos, no início como no fim – confere o seu verdadeiro e pleno significado.
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Se aqui se encontra ainda articulação mítica do tempo, é preciso reconhecer que tal articulação é de tipo novo ou de todo especial; finalmente, enquanto em linha geral a situação que será realizada pela Endzeit é imaginada sob forma de um puro e simples retorno – definitivo ou periódico – à situação preexistente da Urzeit, viu-se que, ao menos para alguns representantes do pensamento cristão primitivo, o estado escatológico da humanidade, embora constituindo um retorno à condição paradisíaca, não será de modo algum a restauração, a recuperação, a reprodução perfeita da realidade como estava nos primórdios da Criação.
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A escatologia não abole a história: é o êxito e o cumprimento desta; aqui o tempo não é mais uma espécie de parêntese cujo conteúdo seja destinado a ser enfim destruído a vantagem da só atemporalidade; no fim do tempo haverá algo de diferente e de mais em relação ao que havia no seu início.