UM DEUS SEPARADO

Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

Introdução: O Problema do Gnosticismo

O gnosticismo é um movimento religioso e filosófico que surgiu no Império Romano e no Oriente durante os primeiros séculos da era atual, sendo conhecido principalmente pelas refutações dos Padres da Igreja, que o consideravam uma heresia cristã.

O gnosticismo não é uma doutrina única, mas abrange um grande número de doutrinas amplamente divergentes, embora todas apresentem certos traços comuns que justificam um nome único.

Até aproximadamente 1950, a teoria orientalizante e iranizante foi aceita por muitos estudiosos, mas seu sucesso declinou posteriormente, dando lugar à hipótese de que o gnosticismo poderia ter derivado de um judaísmo dissidente.

A velha ideia de que o gnosticismo surgiu dentro do cristianismo parece ao autor, até que se prove o contrário, a mais provável, sem com isso implicar que ele nunca tenha sido nada mais do que uma heresia cristã.

A certeza com que alguns estudiosos apresentam como fato estabelecido o nascimento do gnosticismo fora do cristianismo é particularmente inaceitável, pois o problema está longe de estar resolvido.

A interpretação do Novo Testamento permanece essencial para o estudo do gnosticismo, mas essa interpretação é prejudicada por ideias inexatas ou incertas quanto à origem do próprio gnosticismo, gerando um círculo vicioso.

Nenhuma das tentativas de mostrar que o Novo Testamento contém alusões a um gnosticismo já formado ou pensamentos influenciados por tal gnosticismo é convincente, pois os autores do Novo Testamento não conheciam uma doutrina em que o Deus Criador (Demiurgo) fosse distinguido do Deus verdadeiro.

1. Definição Provisória de Gnosticismo

O gnosticismo não pode ser definido simplesmente como uma doutrina que enfatiza a importância do conhecimento para a salvação, pois houve muitas outras doutrinas de salvação pelo conhecimento que não tiveram nada a ver com o gnosticismo (por exemplo, o budismo).

Hans Jonas certamente elucidou uma característica essencial ao caracterizar o gnosticismo por “uma atitude anticósmica”, isto é, por uma desvalorização do mundo, embora isso seja verdadeiro apenas até certo ponto.

2. A Questão da Origem e as Explicações Propostas

A inversão de valores que levou tantos a negar o valor do mundo e atribuir a criação a um Demiurgo inferior e cego pode ser explicada, se produzida dentro e pelo cristianismo, pela crucificação de Cristo e pela teologia paulina da cruz.

A ideia de um Salvador que já veio é dificilmente explicável senão pelas teologias de Paulo e João, pois a desvalorização do mundo não é suficiente para produzir a ideia de um Salvador considerado como já tendo vindo.

O gnosticismo muito provavelmente apareceu um pouco depois do aparecimento do cristianismo, e não em uma era pré-cristã, sendo que a única maneira de lhe dar uma história que recua quase tanto quanto o cristianismo é especular sobre a figura de Simão Mago, cuja própria existência pode ser duvidada.

Os escritos de Nag Hammadi, que parecem em sua maioria tardios e decadentes, destacam as diferenças entre a corrente gnóstica, que se desenvolveu de um lado, e a corrente principal do cristianismo, que se desenvolveu de outro, alimentando a hipótese da origem não cristã.

3. Exame dos Argumentos para uma Origem Não Cristã

Os argumentos apresentados por W. A. Meeks em 1972 para considerar que a origem cristã do gnosticismo não podia mais ser sustentada não são sólidos, pois um grupo de provas ruins não faz uma boa prova.

4. A Necessidade de uma Abordagem Filosófica e Exegética

O estudo do gnosticismo tornou-se em grande parte uma questão para filólogos, mas os numerosos vínculos entre as ideias gnósticas e os textos do Antigo e do Novo Testamento devem ser considerados para interpretar o significado religioso ou filosófico desses escritos.

Se tudo o que torna o gnosticismo compreensível for removido, obviamente nada resta senão um tecido de absurdos, e um quadro do gnosticismo que leva ao escárnio só pode ser pintado por aqueles que, a priori desdenhosos de seu assunto, dele nada compreendem.

A descoberta de Nag Hammadi, longe de ter definitivamente esclarecido o problema da origem do gnosticismo, tem sido muito mais a ocasião de novos erros e corre o risco de colocar a pesquisa novamente numa pista falsa, ao dar a conhecer escritos tardios e decadentes que realçam as diferenças entre o gnosticismo e o cristianismo principal.

Talvez seja porque já não compreendem suficientemente o cristianismo que tantos estudiosos estão agora inclinados a pensar que o gnosticismo não deriva dele, pois o que o gnosticismo dizia era que a humanidade deve ser libertada da religião do mundo e que isso não é possível exceto por uma revelação que não é deste mundo, e o cristianismo disse exatamente isso.

5. Considerações Finais sobre a Abordagem do Autor

O autor é criticado por não levar em conta toda a extensão do movimento gnóstico, mas ele leva plenamente em conta o maniqueísmo, o mandaísmo, o Corpus Hermeticum e os “motivos gnósticos” encontrados em Filon e no Novo Testamento.

Na primeira parte desta obra, o autor procurará demonstrar que os principais mitos e características do gnosticismo podem ser compreendidos com base no cristianismo, sendo difícil compreendê-los de outra forma; na segunda parte, estudando a sucessão das doutrinas gnósticas, procurará mostrar como se podem retratar o início e a evolução do gnosticismo.